terça-feira, 23 de novembro de 2010

que era de asas



Oh, quanto me pesa
este coração, que é de pedra!
Este coração que era de asas
de música e tempo de lágrimas.

Mas agora é sílex e quebra
qualquer dura ponta de seta.

Oh, como não me alegra
ter este coração de pedra!

Dizei por que assim me fizestes,
vós todos a quem amaria,
mas não amarei, pois sois estes
que assim me deixastes, amarga,
sem asas, sem música e lágrimas,

assombrada, triste e severa
e com meu coração de pedra!

Oh, quanto me pesa
ver meu próprio amor que se quebra!
O amor que era mais forte e voava
mais que qualquer seta!


de Cecília Meireles

sábado, 13 de novembro de 2010

em eterna fusão





Há um pássaro enraizado na pedra,
Que vive dentro do meu coração,
Seu canto agudo e torturado medra,
Amor ao peito do mais severo capitão.
Meu imperfeito olhar castanho redra,
No azul do céu as nuvens da escuridão,
Bico adunco, eu afasto camadas da esfera,
E vejo o universo em toda amplidão.
Ah, visão em constante inversão!
As asas rastejam na vida em queda,
Nada afasta a dor e a consternação,
Do pássaro sofrido sobre a pedra,
Que está com ela em eterna fusão.

de
Betha Costa

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Ouvir os pássaros cantar



Deixe-me ir
Preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir prá não chorar
Deixe-me ir
Preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir prá não chorar...

Quero assistir ao sol nascer
Ver as águas dos rios correr
Ouvir os pássaros cantar
Eu quero nascer
Quero viver...

Deixe-me ir
Preciso andar

Vou por aí a procurar

Rir prá não chorar

Se alguém por mim perguntar

Diga que eu só vou voltar

Depois que me encontrar...



de Cartola


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