segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Ficaram-me as penas




O pássaro fugiu,
ficaram-me as penas da sua asa,

nas mãos encantadas.
Mas, que é a vida, afinal?
Um vôo, apenas.
Uma lembrança e outros pequenos nadas.

Passou o vento mau, entre açucenas,

deixou-me só corolas arrancadas...

Despedem-se de mim glórias terrenas.

Fica-me aos pés a poeira das estradas.

A água correu veloz, fica-me a espuma.
Só o tempo não me deixa coisa alguma
até que da própria alma me despoje!
Desfolhados os últimos segredos,
quero agarrar a vida, que me foge,

vão-se-me as horas pelos vãos dos dedos.


de Cassiano Ricardo

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Pássaro verde




Surgiste no meu Tempo,
Silencioso pássaro verde

Sobrevoando a seara gasta do meu Dia.

Abandonara os sonhos e as quimeras.


E voltei a ver o céu pintado de anil,

Infinita tela onde todos os voos são possíveis,

Até o subir lento dos condores no silêncio imenso e alvo das escarpas!


Pensara cortadas as minhas asas,

gastas, esgotadas, as palavras.


Pousaste no meu regaço a mais bela flor,

Que hoje embalo como um filho,

Ao ritmo do pulsar deste peito-chama.


Julgara para sempre secas todas as pétalas do meu secreto
jardim.


hoje canto
uma dulcíssima berceuse.

Voo e canto!

Canto e voo!


de
Clotilde S.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

O pássaro da cabeça



Sou o pássaro que canta
dentro da tua cabeça
que canta na tua garganta
canta onde lhe apeteça
Sou o pássaro que voa
dentro do teu coração
e do de qualquer pessoa
mesmo as que julgas que não
Sou o pássaro da imaginação
que voa até na prisão
e canta por tudo e por nada
mesmo com a boca fechada
E esta é a canção sem razão
que não serve para mais nada
senão para ser cantada
quando os amigos se vão
e ficas de novo sozinho
na solidão que começa
apenas com o passarinho
dentro da tua cabeça.
 

de Manuel António Pina e Isabelle Arsenault

terça-feira, 3 de novembro de 2009

A um Passarinho




Para que vieste
Na minha janela
Meter o nariz?
Se foi por um verso
Não sou mais poeta
Ando tão feliz!

Se é para uma prosa
Não sou Anchieta
Nem venho de Assis.

Deixa-te de histórias
Some-te daqui!

de Vinicius de Moraes
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...