Qualquer que seja a chuva desses campos devemos esperar pelos estios; e ao chegar os serões e os fiéis enganos amar os sonhos que restarem frios. Porém se não surgir o que sonhamos e os ninhos imortais forem vazios, há de haver pelo menos por ali os pássaros que nós idealizamos. Feliz de quem com cânticos se esconde julga tê-los em seus próprios bicos, e ao bico alheio em cânticos responde. E vendo em torno as mais terríveis cenas, possa mirar-se as asas depenadas e contentar-se com as secretas penas
- Jorge de Lima, em "Invenção de Orfeu". Leia outros poemas do poeta em:
— Eu sou a Lei, Eu sou a execução e a lei executada, e o executador
da lei. Sete vezes sete. Eu sou as Duas Senhoras [a Dupla Maat], eu sou
uma nas duas e as duas em uma, ambas e a mesma. Não poderás conhecer-me
pelo meu nome apenas porque sou invocada em ambas as direcções do
espaço, eu termino quando começo. Sete vezes sete. Os Deuses concordam
comigo, os homens temem-me e amam-me mas não me conhecem. Eu sou
desconhecida para as regras dos homens. Eu não existo onde está o
coração do homem, Eu não existo onde está a mente do homem, mas Eu sou
Coração e Mente. Sete vezes sete. A mão direita feita de ouro puro, a
mão esquerda feita de negro metal. Eu durmo sobre cada porta. O meu olho
esquerdo é o de um pássaro da noite. O meu olho direito é o de um
gato. Eu sou a explicação ao que não pode ser explicado. Eu não posso
dar nenhuma resposta porque não sou eu quem é questionada, Eu não sigo
nenhum código porque Eu sou a Justiça e não o bem ou o mal. Eu não julgo
mas Eu sou o juízo. Sete vezes sete. O meu nome não significa
vingança, significa retribuição. A minha mão direita dá a vida e traz
vida, a minha mão esquerda traz a morte e leva a vida. Nada me pode
deter porque Eu dou nascimento a mim mesma sem rival. A minha Vontade
vive no ser de Atum, o meu corpo protege a bondade de Atum. Atum é todo
bondade e Eu sou Tudo. Sete vezes sete.
Enviai-me um pássaro... Senhor, enviai-me um pássaro que cante com a audácia suficiente para invadir, das minhas janelas, os umbrais, capaz de impor à impotência e ao desalento vozes verazes, vozes reais, pois a esperança é só a espera de seu Canto... Simples assim, e nada mais.
Eu não espero que me envies uma ave de cores raras ou de exóticos contrastes, mas simples ave canora, castanha, talvez, mas cujo canto alcance o ouvido de quem chora e a postura tenha algo de altivez.
Uma ave... é certo que não peço mais, nem de mais necessito... Ave de canto melodioso e algo aflito por espantar o canto de todas demais que não expressem sentimentos, só repitam surdos lamentos, tão amargos e triviais.
Se a ave canta e eu a ouço e imito, renascerá a minha voz e o meu ouvido, e a voz do mundo terá a ênfase de um grito, tornando a própria dor sussurro sem sentido.
Se for por expressar tua Voz, Senhor, que eu viva, que eu alce voo alto e escute os apelos dos que constroem dor e enterram-se na dor. Que eu voe e cante, voe alto e cante belo, que, para o Bem, meu canto seja hino e elo, e, para o Mal, seja rugir devastador.
És ao mesmo tempo o céu e o ninho. Meu belo amigo, aqui no ninho, o teu amor prende a alma com mil cores, cores e músicas. Chega a manhã, trazendo na mão a cesta de oiro, com a grinalda da formosura, para coroar a terra em silêncio! Chega a noite pelas veredas não andadas dos prados solitários, já abandonados pelos rebanhos! Traz, na sua bilha de oiro, a fresca bebida da paz, recolhida no mar ocidental do descanso. Mas onde o céu infinito se abre, para que a alma possa voar, reina a branca claridade imaculada. Ali não há dia nem noite, nem forma, nem cor, nem sequer nunca, nunca, uma palavra! Rabindranath Tagore, in "O Coração da Primavera" Tradução de Manuel Simões
[Com tema de Renato Carneiro Campos] Mas eu enfrentarei o Sol divino, o Olhar sagrado em que a Pantera arde. Saberei porque a teia do Destino não houve quem cortasse ou desatasse. Não serei orgulhoso nem covarde, que o sangue se rebela ao som do Sino. Verei o Jaguapardo e a luz da Tarde, Pedra do Sonho e cetro do Divino. Ela virá-Mulher- aflando as asas, com o mosto da Romã, o sono, a Casa, e há de sagrar-me a vista o Gavião. Mas sei, também, que só assim verei a coroa da Chama e Deus, meu Rei, assentado em seu trono do Sertão. de Ariano Suassuna, “Poemas”. [seleção e notas de Carlos Newton Júnior]. Recife: Editora Universitária da UFPE, 1999.
Quinteto Armorial - Do Romance ao Galope Nordestino (1974)
Ballad of the Two Moons - Marta Orlowska ¿Por qué debería pararme? ¿Por qué?
Los pájaros se han ido en busca
de la dirección azul.
El horizonte es vertical, vertical,
una fuente alzándose;
y en los límites de la visión
los planetas brillando tejen
la elevación de la tierra, repitiéndose,
y los respiraderos
se vuelven túneles conectados;
y el día es una inmensidad,
que no abarcan las estrechas mentes
de los gusanos de la prensa.
¿Porqué debería parar?
La carretera atraviesa los capilares vitales,
la calidad del entorno
en el seno del útero lunar
matará las células corruptas.
Y en el espacio químico tras el amanecer
solo hay sonido,
Sonido que atraerá las partículas del tiempo. ¿Por qué debería pararme?
Qué puede ser un pantano.
Qué puede ser un pantano sino un nidal
de insectos corruptos.
Los cuerpos hinchados garabatean reflexiones
de tanatorio,
el afeminado oculta
sus carencias en lo oscuro
y el bicho… ah,
cuando habla el bicho ¿por qué debería callarme?
El esfuerzo de los tipos móviles es vano,
no salvará la reflexión humilde.
Soy descendiente de la arboleda
Respirar aire viciado me deprime.
Un pájaro moribundo me aconsejó
confiar el vuelo a la memoria.
El último grado de la energía es la unión,
lazada al brillante principio del sol
derramando la comprensión de la luz.
Es natural que los molinos se derrumben.
¿Por qué debería pararme?
Aprieto en mi pecho
verdes gavillas de trigo
y las amamanto.
Sonido, sonido, sólo sonido,
El sonido de los deseos limpios
Del agua fluyendo,
El sonido de la luz caída de una estrella
Sobre la vulva de la tierra
El sonido del vínculo del esperma del significado
con la expansión de la mente compartida en el amor. Sonido, sonido, sonido,
sólo el sonido permanece.
En tierras de enanos
La unidad de medida
anda siempre en la órbita del cero. ¿por qué debería parar?
Obedezco a los cuatro elementos:
y el trabajo de gobernar mi casa
no es asunto
del gobierno local de los cegados
¿Qué me importa el largo gemido
del sexo de los animales?
¿Qué me importa el rastrero caminar de los gusanos
en este vacío carnal?
Los sangrantes ancestros de las flores
Me han confiado su vida. ¿Has oído hablar de los sangrantes
ancestros de las flores?
Falemos do amor, senhores, Sem rodeios. [Assim como quem fala Dos inúmeros roteiros De um passeio]. Tens amado? Claro. Olhos e tato Ou assim como tu és Neste momento exato. Frio, lúcido, compacto Como me lês Ou frágil e inexato Como te vês. Falemos do amor Que é o que preocupa Às gentes. Anseio, perdição, paixão, Tormento, tudo isso Meus senhores Vem de dentro. E de dentro vem também A náusea. E o desalento. Amas o pássaro? O amor? O cacto? Ou amas a mulher De um amigo pacato. Amas, te sentindo invasor E sorrindo Ou te sentindo invadido E pedindo amor. (Sim? Então não amas, meu senhor) Mas falemos do amor Que é o que preocupa Às gentes: nasce de dentro E nasce de repente. Clamores e cuidados Memórias e presença Tudo isso tem raiz, senhor, Na benquerença. E é o amor ainda A chama que consome O peito dos heróis. E é o amor, senhores, Que enriquece, clarifica E atormenta a vida. E que se fale do amor Tão sem rodeios Assim como quem fala Dos inúmeros roteiros De um passeio. de Hilda Hilst, in ROTEIRO DO SILÊNCIO - DO AMOR CONTENTE E MUITO DESCONTENTE
A la una yo nací. Música Sefardí. Emilio Villalba & Sephardica
Há algo raro e especial neste instante, que já não pode esperar para ser visto. Há um sinal oculto atrás de tudo isto, e há que lê-lo antes de seguir em frente.
Há qualquer coisa a colher, talvez a flor de um jardim distante, antigo e esquecido. Há um recado a entregar e a receber, e algo a sarar, algo a polir, alguma dor. Há uma conta a acertar, um beijo a dar, um ponto a ver. E há que examinar as malas e rever se nada urgente foi deixado para trás. ou se nada é demais, se há peso morto a abandonar agora...
Há que escorar, ainda, um galho que está torto de uma roseira bem ali, perto da casa. Há uma ave que quebrou a frágil asa e não consegue mais voar ou se mover. Há tanto ainda para ouvir e para ver... Não estás pronta, não é ainda, não é agora.
Em algum canto, há alguém que ainda chora, e sabes que também é teu, o árduo pranto. E há amor a cultivar e a colher, tanto... E há mil palavras à tua espera para ser... Não é agora. Não deve ser.
Recolhe em ti todo teu ímpeto e cansaço, guarda contigo teu assombro e traz teu encanto. Quando te fores, antes do último passo, tudo há de estar quitado e pacificado. Não porque temas ou infernos ou pecados, mas porque sabes que é este o teu dever.
Sabes que há em ti duas vozes, pelo menos, e uma ainda deve à outra o grande acerto antes do qual não há epílogos ou acenos mas só o imperativo: Deves Ser. E, isto sim, é para agora.
(de Lúcia Helena Galvão Maya, 15 de dezembro de 2015,
Os poemas são pássaros que chegam não se sabe de onde e pousam no livro que lês. Quando fechas o livro, eles alçam vôo como de um alçapão. Eles não têm pouso nem porto alimentam-se um instante em cada par de mãos e partem. E olhas, então, essas tuas mãos vazias, no maravilhoso espanto de saberes que o alimento deles já estava em ti... de Mário Quintana, in 'Esconderijos do Tempo'
Diaspora Sefardì - Paxarico tu te llamas - Jordi Savall
* Aos meus bravos, francos e alegres amigos que rumam para outros voos e pousos mais uma vez!!!
Fique perto, meu coração, daquele que conhece teus caminhos; Vem para a sombra da árvore que sempre tem flores frescas. Não vagabundeies preguiçosamente pelo bazar dos perfumistas; Fica na loja do vendedor de açúcar.
Se não encontrares equilíbrio verdadeiro, qualquer um pode te enganar com um objeto de palha, Fazendo-te crer que se trata de ouro.
Não te agaches com uma tigela diante de todo caldeirão que ferve; Em cada caldeirão sobre o fogo, encontrarás coisas diferentes. Nem toda cana tem açúcar, nem todo abismo um pico; Nem todos os olhos possuem visão, nem todo o oceano está cheio de pérolas.
Ò rouxinol, com tua voz de mel escuro! Continua lamentando-te! Só teu êxtase embriagado pode penetrar o duro coração da rocha! Entrega-te a ti mesmo, e se não puderes ser recebido pelo Amigo, Saibas que internamente estás te rebelando, Como uma linha que não quer entrar pelo buraco da agulha!
O coração desperto é uma lâmpada; proteje-o nas dobras de teu manto! Corre e sai desta ventania, pois o tempo é ruim. E quando tiveres deixado essa tempestade, chegarás a uma fonte; Encontrarás um Amigo que sempre nutrirá tua alma.
E com tua alma sempre verde, crescerás em uma alta árvore Sempre florescendo como fruta leve e doce, cujo crescimento é interior.