quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

A menina e o pássaro encantado




Era uma vez uma menina que tinha um pássaro como seu melhor amigo.
Ele era um pássaro diferente de todos os demais: era encantado.
Os pássaros comuns, se a porta da gaiola ficar aberta, vão-se embora para nunca mais voltar. Mas o pássaro da menina voava livre e vinha quando sentia saudades… As suas penas também eram diferentes. Mudavam de cor. Eram sempre pintadas pelas cores dos lugares estranhos e longínquos por onde voava. Certa vez voltou totalmente branco, cauda enorme de plumas fofas como o algodão…
Menina, eu venho das montanhas frias e cobertas de neve, tudo maravilhosamente branco e puro, brilhando sob a luz da lua, nada se ouvindo a não ser o barulho do vento que faz estalar o gelo que cobre os galhos das árvores. Trouxe, nas minhas penas, um pouco do encanto que vi, como presente para ti…
E, assim, ele começava a cantar as canções e as histórias daquele mundo que a menina nunca vira. Até que ela adormecia, e sonhava que voava nas asas do pássaro.
Outra vez voltou vermelho como o fogo, penacho dourado na cabeça.
Venho de uma terra queimada pela seca, terra quente e sem água, onde os grandes, os pequenos e os bichos sofrem a tristeza do sol que não se apaga. As minhas penas ficaram como aquele sol, e eu trago as canções tristes daqueles que gostariam de ouvir o barulho das cachoeiras e ver a beleza dos campos verdes.
E de novo começavam as histórias. A menina amava aquele pássaro e podia ouvi-lo sem parar, dia após dia. E o pássaro amava a menina, e por isto voltava sempre.
Mas chegava a hora da tristeza.
Tenho de ir dizia.
Por favor, não vás. Fico tão triste. Terei saudades. E vou chorar…— E a menina fazia beicinho…
Eu também terei saudades dizia o pássaro. — Eu também vou chorar. Mas vou contar-te um segredo: as plantas precisam da água, nós precisamos do ar, os peixes precisam dos rios… E o meu encanto precisa da saudade. É aquela tristeza, na espera do regresso, que faz com que as minhas penas fiquem bonitas. Se eu não for, não haverá saudade. Eu deixarei de ser um pássaro encantado. E tu deixarás de me amar.
Assim, ele partiu. A menina, sozinha, chorava à noite de tristeza, imaginando se o pássaro voltaria. E foi numa dessas noites que ela teve uma ideia malvada: “Se eu o prender numa gaiola, ele nunca mais partirá. Será meu para sempre. Não mais terei saudades. E ficarei feliz…”
Com estes pensamentos, comprou uma linda gaiola, de prata, própria para um pássaro que se ama muito. E ficou à espera. Ele chegou finalmente, maravilhoso nas suas novas cores, com histórias diferentes para contar. Cansado da viagem, adormeceu. Foi então que a menina, cuidadosamente, para que ele não acordasse, o prendeu na gaiola, para que ele nunca mais a abandonasse. E adormeceu feliz.
Acordou de madrugada, com um gemido do pássaro…
Ah! menina… O que é que fizeste? Quebrou-se o encanto. As minhas penas ficarão feias e eu esquecer-me-ei das histórias… Sem a saudade, o amor ir-se-á embora…
A menina não acreditou. Pensou que ele acabaria por se acostumar. Mas não foi isto que aconteceu. O tempo ia passando, e o pássaro ficando diferente. Caíram as plumas e o penacho. Os vermelhos, os verdes e os azuis das penas transformaram-se num cinzento triste. E veio o silêncio: deixou de cantar.
Também a menina se entristeceu. Não, aquele não era o pássaro que ela amava. E de noite ela chorava, pensando naquilo que havia feito ao seu amigo…
Até que não aguentou mais.
Abriu a porta da gaiola.
Podes ir, pássaro. Volta quando quiseres…
Obrigado, menina. Tenho de partir. E preciso de partir para que a saudade chegue e eu tenha vontade de voltar. Longe, na saudade, muitas coisas boas começam a crescer dentro de nós. Sempre que ficares com saudade, eu ficarei mais bonito. Sempre que eu ficar com saudade, tu ficarás mais bonita. E enfeitar-te-ás, para me esperar…
E partiu. Voou que voou, para lugares distantes. A menina contava os dias, e a cada dia que passava a saudade crescia.
Que bom pensava ela o meu pássaro está a ficar encantado de novo…
E ela ia ao guarda-roupa, escolher os vestidos, e penteava os cabelos e colocava uma flor na jarra.
Nunca se sabe. Pode ser que ele volte hoje…
Sem que ela se apercebesse, o mundo inteiro foi ficando encantado, como o pássaro. Porque ele deveria estar a voar de qualquer lado e de qualquer lado haveria de voltar. Ah!
Mundo maravilhoso, que guarda em algum lugar secreto o pássaro encantado que se ama…
E foi assim que ela, cada noite, ia para a cama, triste de saudade, mas feliz com o pensamento: “Quem sabe se ele voltará amanhã….”
E assim dormia e sonhava com a alegria do reencontro.


de Rubem Alves

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

onde nascem os pássaros...




Os pássaros nascem na ponta das árvores
As árvores que eu vejo em vez de fruto dão pássaros
Os pássaros são o fruto mais vivo das árvores
Os pássaros começam onde as árvores acabam
Os pássaros fazem cantar as árvores
Ao chegar aos pássaros as árvores engrossam,
movimentam-se, deixam o reino vegetal
para passar a pertencer ao reino animal.
(...)
Eu amo as árvores principalmente as que dão pássaros!!!
Quem é que lá os pendura nos ramos?
De quem é a mão? A inúmera mão?
Eu passo
e muda-se-me o coração.

de Ruy de Moura Belo – 1933/1978 – poeta e ensaísta português

domingo, 13 de dezembro de 2009

Por que me prendes?




Armas, num galho de árvore, o alçapão.
E, em breve, uma avezinha descuidada, batendo as asas cai na escravidão.

Dás-lhe então, por esplêndida morada, a gaiola dourada.
Dás-lhe alpiste, e água fresca, e ovos, e tudo.

Por que é que, tendo tudo, há de ficar o passarinho
mudo, arrepiado e triste, sem cantar?

É que, criança, os pássaros não falam.
Só gorgeando a sua dor exalam, sem que os homens os possam entender.
Se os pássaros falassem,
talvez os teus ouvidos escutassem este cativo pássaro dizer:

"Não quero o teu alpiste!

Gosto mais do alimento que procuro na mata livre em que a voar me viste.
Tenho água fresca num recanto escuro.

Da selva em que nasci; da mata entre os verdores,
tenho frutos e flores, sem precisar de ti!

Não quero a tua esplêndida gaiola!
Pois nenhuma riqueza me consola de haver perdido aquilo que perdi...
Prefiro o ninho humilde, construído de folhas secas, plácido, e escondido.

Entre os galhos das árvores amigas...
Solta-me ao vento e ao sol!
Com que direito à escravidão me obrigas?

Quero saudar as pompas do arrebol!
Quero, ao cair da tarde, entoar minhas tristíssimas cantigas!

Por que me prendes? Solta-me, covarde!
Deus me deu por gaiola a imensidade!
Não me roubes a minha liberdade...

QUERO VOAR! VOAR!..."

Estas coisas o pássaro diria, se pudesse falar.
E a tua alma, criança, tremeria, vendo tanta aflição.
E a tua mão, tremendo, lhe abriria a porta da prisão...


de Olavo Bilac

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Ficaram-me as penas




O pássaro fugiu,
ficaram-me as penas da sua asa,

nas mãos encantadas.
Mas, que é a vida, afinal?
Um vôo, apenas.
Uma lembrança e outros pequenos nadas.

Passou o vento mau, entre açucenas,

deixou-me só corolas arrancadas...

Despedem-se de mim glórias terrenas.

Fica-me aos pés a poeira das estradas.

A água correu veloz, fica-me a espuma.
Só o tempo não me deixa coisa alguma
até que da própria alma me despoje!
Desfolhados os últimos segredos,
quero agarrar a vida, que me foge,

vão-se-me as horas pelos vãos dos dedos.


de Cassiano Ricardo

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Pássaro verde




Surgiste no meu Tempo,
Silencioso pássaro verde

Sobrevoando a seara gasta do meu Dia.

Abandonara os sonhos e as quimeras.


E voltei a ver o céu pintado de anil,

Infinita tela onde todos os voos são possíveis,

Até o subir lento dos condores no silêncio imenso e alvo das escarpas!


Pensara cortadas as minhas asas,

gastas, esgotadas, as palavras.


Pousaste no meu regaço a mais bela flor,

Que hoje embalo como um filho,

Ao ritmo do pulsar deste peito-chama.


Julgara para sempre secas todas as pétalas do meu secreto
jardim.


hoje canto
uma dulcíssima berceuse.

Voo e canto!

Canto e voo!


de
Clotilde S.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

O pássaro da cabeça



Sou o pássaro que canta
dentro da tua cabeça
que canta na tua garganta
canta onde lhe apeteça
Sou o pássaro que voa
dentro do teu coração
e do de qualquer pessoa
mesmo as que julgas que não
Sou o pássaro da imaginação
que voa até na prisão
e canta por tudo e por nada
mesmo com a boca fechada
E esta é a canção sem razão
que não serve para mais nada
senão para ser cantada
quando os amigos se vão
e ficas de novo sozinho
na solidão que começa
apenas com o passarinho
dentro da tua cabeça.
 

de Manuel António Pina e Isabelle Arsenault

terça-feira, 3 de novembro de 2009

A um Passarinho




Para que vieste
Na minha janela
Meter o nariz?
Se foi por um verso
Não sou mais poeta
Ando tão feliz!

Se é para uma prosa
Não sou Anchieta
Nem venho de Assis.

Deixa-te de histórias
Some-te daqui!

de Vinicius de Moraes

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

leveza



Leveza


Leve é o pássaro:
e a sua sombra voante,
mais leve.

E a cascata aérea
de sua garaganta,
mais leve.

E o que se lembra, ouvindo-se
deslizar seu canto,
mais leve.

E o desejo rápido
desse mais antigo instante,
mais leve.
E a fuga invisível
do amargo passante,
mais leve.

de Cecília Meirelles

terça-feira, 13 de outubro de 2009

lá fora...



Andorinha lá fora esta dizendo:
- "Passei o dia à toa, à toa!"

Andorina, andorinha, minha cantiga é mais triste!
Passei a vida à toa, à toa...

de Manuel Bandeira

sábado, 3 de outubro de 2009

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

de Barros e de asas também...





Prezo insetos mais que aviões. Prezo a velocidade das tartarugas mais que a dos mísseis. Tenho em mim esse atraso de nascença. Eu fui aparelhado para gostar de passarinhos. Tenho abundância de ser feliz por isso. Meu quintal é maior do que o mundo.


Quando as aves falam com as pedras e as rãs com as águas - é de poesia que estão falando.
Poesia é voar fora da asa.

A voz de um passarinho me recita.
Deixei uma ave me amanhecer.

Por viver muitos anos dentro do mato
Moda ave
O menino pegou um olhar de pássaro -
Contraiu visão fontana.
Por forma que ele enxergava as coisas
Por igual
como os pássaros enxergam.

E agora o que fazer com essa manhã desabrochada a pássaros?
 

de Manoel de Barros

quinta-feira, 30 de julho de 2009

da saudade



A saudade é esse passarinho que vem de leve e pousa no nosso coração trazendo lembranças, como um colibri que beija a flor e traz beleza. E ela nem escolhe hora ou lugar, só aparece assim, invadindo inteiramente esse espaço que consideramos reservado às pessoas ou ocasiões especiais.

de Letícia Thompson

terça-feira, 23 de junho de 2009

O pássaro e a flor




CHOVE MUITO, FAZ FRIO
NADA SE OUVE LÁ FORA
APENAS OS PINGOS DA CHUVA
COMO O LAMENTO DE QUEM CHORA
MAS NO MEIO DA TRISTEZA
APESAR DA CHUVA FORTE
OUÇO O TRISTE CANTAR DE UM PÁSSARO
SEM NINHO A REPOUSAR
CANTA TRISTE JUNTO A FLOR
QUE NINGUEM HOJE VEM BEIJAR
PÁSSARO TRISTE EM SEU LAMENTO
CANTA SUA TRISTEZA E A DESSA FLOR
QUE EM SOLIDÃO E MELANCOLIA
FAZ DO PÁSSARO O SEU AMOR!

de Naja

sábado, 13 de junho de 2009

Os poemas


Os poemas são pássaros que chegam
não se sabe de onde e pousam
no livro que lês.
Quando fechas o livro, eles alçam vôo
como de um alçapão.
Eles não têm pouso
nem porto
alimentam-se um instante em cada par de mãos
e partem.
E olhas, então, essas tuas mãos vazias,
no maravilhoso espanto de saberes
que o alimento deles já estava em ti...


de Mário Quintana

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Xô, pássaros da tristeza



Você não pode impedir que os pássaros da tristeza voem sobre sua cabeça, mas pode, sim, impedir que façam um ninho em seu cabelo.


Provérbio chinês

domingo, 31 de maio de 2009

Ai, meu pássaro cinzento...




Meu amor, meu amor,
Meu corpo em movimento,
Minha voz à procura,
Do seu próprio lamento.
(...)
Meu punhal a crescer,
Nós paramos o tempo,
Não sabemos morrer.
E nascemos, nascemos,
Do nosso entristecer.
Meu amor, meu amor
Meu pássaro cinzento,
A chorar a lonjura,
Do nosso afastamento.
Meu amor, meu amor,
Meu nó de sofrimento,
Minha mó de ternura,
Minha nau de tormento.
Este mar não tem cura,
Este céu não tem ar,
Nós paramos o vento,
Não sabemos nadar.
E morremos, morremos
Devagar, devagar.


de José Carlos Ary Dos Santos e de Alain Oulman

***

Interpretado por Amália Rodriques


sábado, 30 de maio de 2009

Hei de...




MOMENTOS


Hei de agarrar a flor
Na guerra da vida
O soldado desaparecido
Pássaro ferido
Amor

Na varanda
No vidro de janela
No monitor


de Cíntia Thomé

sábado, 23 de maio de 2009

do Outono




As árvores despidas
O Outono veste de aves.
São pássaros peitos de fogo
Maduros frutos pelos ares.

Alguns, muitos, partiram
E vivem o Verão sul-africano.
Estes ao cantar desancam o frio
Relento sangue de cigano.

Amantes luas sangueas
Práteas pegadas na neve.
Romances lobos se uivam
Na lenda noite breve.

A madrugada atada por flamingos
Ares rasos de nácar.
Rústica felicidade de sonhar amigos
Nas paisagens onde se quer ficar.

Pedras cruzes pedem às heras
Abraços pelos homens recusados.
Ternas como todas as feras
Líquenes beijos brilham de luz.

Hasteadas urzes de corolas pálidas
Até dos prados novos brilhos.
Garridos cogumelos flautam chapéus
E animais dançam seus trilhos.

As chuvas esporeiam chãos de folhas
E erguem teu salto olhos felinos.
Os ventos fertilizam-te daquele sabor a terra húmida
E tuas linces garras ferem-nos.

Das árvores vestidas
Acordam frutos voos chilreantes.
Nas brasas assam castanhas
De fumo campestre às cidades.

Arraiolos, 17 de Setembro de 1989 à tarde.

de
João Rubus (1964-1993)

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Pássaro-Poesia




Carrega-me contigo, Pássaro-Poesia
Quando cruzares o Amanhã, a luz,
o impossívelPorque de barro e palha tem sido esta viagem
Que faço a sós comigo. Isenta de traçado
Ou de complicada geografia, sem nenhuma bagagem
Hei de levar apenas a vertigem e a fé:
Para teu corpo de luz, dois fardos breves.
Deixarei palavras e cantigas. E movediças
Embaçadas vias de Ilusão.
Não cantei cotidianos. Só te cantei a ti
Pássaro-Poesia
E a paisagem limite: o fosso, o extremo
A convulsão do Homem.
Carrega-me contigo.
No Amanhã.


de Hilda Hilst

domingo, 3 de maio de 2009

Outono Transfigurado



alimenta a chuva no abraço
quente de uma carícia.
revolve o corpo, como
se a noite fosse uma foz
e as tuas palavras um rio.

faz de mim uma estátua aninhada,
junto de uma árvore centenária,
um plátano talvez, com a serra
por detrás da lua,
e com dois pássaros pousados no
colo do portão da casa.

fecha a porta e faz de conta que somos
duas estrelas,
com o brilho nu de quem ama
somente de madrugada.

a lua acesa morre na lâmina dormente
da treva fria.



quarta-feira, 29 de abril de 2009

Para meu coração teu peito basta...



Para meu coração teu peito basta,
para que sejas livre, minhas asas.
De minha boca chegará até o céu
o que era adormecido na tua alma.
Mora em ti a ilusão de cada dia
e chegas como o aljôfar às corolas.
Escavas o horizonte com tua ausência,
eternamente em fuga como as ondas.
Eu disse que cantavas entre vento
como os pinheiros cantam, e os mastros
Tu és como eles alta e taciturna.
Tens a pronta tristeza de uma viagem.
Acolhedora como um caminho antigo,
povoam-te ecos e vozes nostálgicas.
Despertei e por vezes emigram e fogem
pássaros que dormiam em tua alma.

de Pablo Neruda

quinta-feira, 23 de abril de 2009

A linguagem dos Pássaros




Um grupo de pássaros desejava encontrar a seu rei; então pediram a poupa sábia (um pássaro com crista em forma de abano) que lhes ajudasse em sua busca. A poupa lhes disse que o rei que estão procurando se chama Simurgh (que significa em persa “Trinta Pássaros”) e que vive escondido na montanha de Kaf, porém é uma viajem muito difícil e perigosa. Os pássaros imploram à poupa que os guie. A poupa aceita e começa a ensinar a cada pássaro de acordo com seu nível e temperamento. Ela lhes diz que para alcançar o alto da montanha, necessitam atravessar cinco vales e dois desertos; quando tiverem passado o segundo deserto, entrarão no palácio do rei.
Os de vontade débil, temerosos da viagem, começam a por desculpas. O louro, que é egocêntrico e egoísta, diz que no lugar de ir em busca do rei, buscará o Santo Graal. O pavão real, a ave legendária do paraíso, exclama que tem sonhado que voltará ao céu e que vai esperar pacientemente esse dia. A pata, se lamenta porque sua vida depende de estar próxima da água e morreria se si separasse dela. A garça tem uma desculpa similar; não lhe é possível viajar longe do mar, porque seu amor pela água é tão grande que, embora permaneça sentado durante anos à sua margem, não tem ousado beber nem uma gota, se não o mar acabaria sem água. A coruja declara que prefere ficar e buscar as ruínas com a esperança de encontrar um tesouro algum dia. O rouxinol diz que não necessita viajar, porque está enamorado da rosa e este amor é suficiente para ele. Possui os segredos do amor que nem outra criatura tem; e com uma voz maravilhosa canta ao amor:
- Conheço os segredos do amor. Toda noite derramo meu canto de amor. A música mística da flauta se inspira em meu lamento, e sou eu quem faz desabrochar a rosa e comover os corações dos namorados. Ensino mistérios com minhas tristes notas, e quem me ouve se perde em êxtase. Ninguém conhece os meus segredos, unicamente a rosa. Tenho me esquecido de mim mesmo e só penso na rosa. Alcançar a Simurgh está acima de mim! O amor da rosa é suficiente para o rouxinol!
A poupa que escutou pacientemente responde ao rouxinol:
- Tu estás preocupado com a forma exterior das coisas, pelos prazeres de uma forma sedutora. O amor da rosa tem lançado espinhos a teu coração. Não importa quão grande seja a beleza da rosa, se desvanecerá em poucos dias; e o amor a algo tão passageiro só pode causar repulsa ao perfeito. Se a rosa te sorri é só para enxerte de dor, porque ela rir-se de ti a cada primavera. Abandona a rosa e seu quente calor.

“O que quer dizer Attar com esta simples conversação? Nós humanos temos o desejo de buscar a perfeição, mas muitas vezes tendemos a parar o processo tão logo detectamos o mais ligeiro sinal de progresso. Isto é especialmente certo nos aspirantes ao caminho espiritual: muitos buscadores estão encantados com as primeiras etapas do despertar e o confundem com a completa iluminação. Attar nos adverte de tais perigos: não devemos confundir o amor do imaginário com o amor do Real. Por esta razão, o rouxinol tem que abandonar seu enganoso apego pela rosa para buscar ao eterno Amado.”

A poupa deleita os pássaros com maravilhosas histórias daqueles que têm feito a perigosa viagem.
Depois de ter ouvido as histórias da poupa, os pássaros estão inspirados para começar sua viajem até o primeiro vale.
Entretanto, logo começam a ter problemas, e se dão conta de que o caminho vai ser mais difícil do que haviam imaginado. Alguns voltam a por desculpas. Um afirma que a poupa não é suficientemente sábia para conduzi-los. Outro se queixa que Satanás lhe tem possuído e lhe está pondo as coisas difíceis. E outro expressa seu desejo de ter dinheiro e a comodidade de uma vida de luxo.
Finalmente, a poupa decide que a única forma para que os pássaros compreendam, é descrever-lhes os sete vales e desertos da viajem. O primeiro é o Vale da Busca. Aqui se busca a Verdade com inquietude, diz a poupa. Com constância, se busca um significado maior ao propósito da vida. Só um buscador com dedicação pode atravessar a salvo o primeiro vale e ir ao segundo, o Vale do Amor. Aqui se sente um desejo ilimitado de ver ao Rei Amado. Um fogo abrasador começa a crescer no coração e se faz devastador. O lugar é mais perigoso que o primeiro vale, porque há obstáculos no caminho para por a prova o amor. Entretanto esse mesmo amor impulsiona ao buscador sair do vale e ir até uma terra mais alta: o terceiro vale, o Vale do Conhecimento. Uma vez que se entra nesta terra, o coração se ilumina com a verdade. Se adquire aqui o conhecimento interior do Amado. Deste lugar o viajante continua a viajem ao Vale do Desapego, onde perde seus desejos de possessões mundanas. Não existe ataduras com o mundo material para o viajante que atravessa esse vale; liberado dos desejos agora o aspirante é completamente independente.
Cada novo lugar que o buscador encontra é mais perigoso que o anterior e deve ser explorado passo à passo, porque cada um contém suas próprias provas e dificuldades. Assim, cada encontro com uma terra diferente é uma experiência nova.
O quinto vale é o Vale da Unidade. O viajante experimenta nele que todos os seres são unos em essência, que toda variedade de idéias, experiências e criaturas da vida tem realmente uma só fonte.
O viajante chega ao Deserto do Medo. Então se esquece da existência de si mesmo e de todos os demais. Vê a luz, não com os olhos da mente, sim com os olhos do coração. A porta do divino tesouro, o segredo dos segredos, se abre. Nesta terra, o intelecto já não funciona. Aqui se pergunta ao viajante quem é e o que és, responde: “Não sei nada.”
Finalmente chega ao Deserto do Aniquilamento e da Morte. Neste ponto, o aspirante entende finalmente como uma gota se funde no oceano da unidade com o Amado. Tem encontrado o destino da viajem para encontrar ao rei.
Depois de ouvir a descrição da poupa sobre o que lhes espera, os pássaros se animam tanto que imediatamente continuam sua viajem.
No caminho alguns morrem pelo calor e se jogam no mar. Outros se cansam e não podem continuar; um grupo é caçado por animais selvagens e outros mais se distraem tanto pelo atrativo das terras que atravessam, que se perdem e ficam para trás. Só trinta alcançam seu destino: a montanha de Kaf.
No palácio real, o guarda da entrada trata cruelmente os trinta pássaros. Mas os pássaros, que têm passado o pior, são tolerantes e não se permitem sentir-se molestados por sua dureza. Finalmente, o servidor pessoal do rei sai e conduz os pássaros ao salão real. Ao entrar, os pássaros olham tudo assustados. Não sabem o que ocorre, porque no lugar de ver a Simurgh, “Trinta Pássaros”, tudo o que vêm é... Trinta Pássaros.
Finalmente compreendem que, olhando-se a si mesmos, têm encontrado ao rei, e que em sua busca do rei, têm encontrado a si mesmos.
Os que atravessam as sete cidades do amor se purificam. Quando chegam ao palácio real, encontram ao rei que se revela a seus corações.

de "Farid Uddin Attar" in A Conferência dos Pássaros".
(extraído de: História de la Tierra de los Sufíes
in poesia sufi)

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Não sei dizer passarinho




Não sei dizer passarinho
sem dizer passarinhos, tal como ensinava
a senhora de meus dias.
Ela dizia de um modo
que se via e se ouvia
o ser e o canto
a pluma e o vento;
e, por detrás de tudo, o canto do encanto
tanto do pássaro
como dos passarinhos.
A’sso-fir, em árabe
são pássaros de pássaro
e pássaro de pássaros.

de
Jorge Tufic 


(Visitem também o blog do autor: http://jorge-tufic.blogspot.com.br/)






segunda-feira, 6 de abril de 2009

Preciosidades da Frasilistes




Frasilistes diz: Estava lendo as últimas postagens no seu blog e como percebo que gosta dos seres voantes escrevi meia dúzia de palavras dedicadas à marditice!

Se eu fosse um pássaro voaria
Talvez diariamente cantaria
Deixaria meu ninho descoberto
Filhotes nos galhos mais altos

Se eu fosse um pássaro vigiaria
Seguiria constante esse vento
Pousaria bem leve no topo
Não teria nem medo de altura

Se eu fosse um pássaro fugiria
Migraria para terras mais quentes
Sentiria o sol bem ardente
Deixando aquecer o meu peito

Não ser pássaro e nem passarinho
Pena, suspiro baixinho
Cortaram minhas asas
Fizeram me perder no caminho

segunda-feira, 23 de março de 2009

Bem leve leve




Trovas de muito amor para um amado senhor

Nave
Ave
Moinho
E tudo mais serei
Para que seja leve
Meu passo
Em vosso caminho.

***

Dizeis que tenho vaidades.
E que no vosso entender
Mulheres de pouca idade
Que não se queiram perder

É preciso que não tenham
Tantas e tais veleidades.

Senhor, se a mim me acrescento
Flores e renda, cetins,
Se solto o cabelo ao vento
É bem por vós, não por mim.

Tenho dois olhos contentes
E a boca fresca e rosada.
E a vaidade só consente
Vaidades, se desejada.

E além de vós
Não desejo nada.


de Hilda Hilst in Trovas de Amor para um muito Amado Senhor


sábado, 21 de março de 2009

Pássaro do Outono



Pássaro do Outono

Vem ao meu chamado
Conhece a minha voz
Sabe meu lugar
Vem então veloz

Folhas cor de Sol
Flores cor de Lua
Caem devagar
Estrelas sobre a rua

Vou queimar a peste
Fogo de minha fé
Princesa das ervas
Venha a minha sé

Sombra de minhas asas
Óléos de minha paz
Chuva entre raios
Bem que a água faz

Vou para a floresta
Ter com meus irmãos
Vou a mesma fonte
Para erguer as mãos

de
Euler Negreiros

sexta-feira, 13 de março de 2009

Mais leve que a asa de um pássaro




Poema de Arseni Tarkovski*


Agora o verão se foi
E poderia nunca ter vindo.
No sol está quente.
Mas tem de haver mais.

Tudo aconteceu,
Tudo caiu em minhas mãos
Como uma folha de cinco pontas,
Mas tem de haver mais.

A vida me recolheu
À segurança de suas asas,
Minha sorte nunca falhou,
Mas tem de haver mais.

Nem uma folha queimada,
Nem um graveto partido.
Claro como um vidro é o dia,
Mas tem de haver mais.

Cai a noite sobre as montanhas da Geórgia;
À minha frente ruge o Aragva.
Estou em paz e triste; há um lampejo em meus suspiros,
Meus suspiros são todos teus,
Teus, e de mais ninguém... Minha melancolia
Está insensível a angústias e apreensões,
E meu coração arde e ama mais uma vez,
Pois nada pode fazer além de amar.

Todo instante que passávamos juntos
Era uma celebração, uma Epifania,
No mundo inteiro, nós os dois sozinhos.
Eras mais audaciosa, mais leve que a asa de um pássaro,
Estonteante como uma vertigem, corrias escada abaixo
Dois degraus por vez, e me conduzias
Por entre lilases úmidos, até teu domínio
No outro lado, para além do espelho.

Enquanto isso o destino seguia nossos passos
Como um louco de navalha na mão.

*Pouco conhecido aqui no Brasil, como suas obras disponibilizadas no mercado são encontradas em inglês, infelizmente, apenas alguns de seus raros poemas foram traduzidos para o português. Ainda assim podemos conferir muitos deles nos filmes realizados pelo seu filho, o grande cineasta Andrei Tarkovsky (dica do pássaro pousado...).

terça-feira, 10 de março de 2009

do desencontro com a liberdade de ser... (?)



Árabe


Estou tão triste, hoje, especialmente hoje, tristemente hoje, estou
sem pássaros no sangue, ou rios
escadas para ti
hoje estou sem escadas para ti
beija-me ainda, para que saiba em que degrau me encontro
neste desencontro
diz que me habitas
que me divides e unes
todo o edifício que sou
ruínas e braços
restaurando o amor
diz-me que sou, de novo
na tua boca
os ombros que o mar amou
diz-me
em que oceano te encontras sepultada
para que eu um destes dias
também morra feliz
diz-me
as horas de viver
contigo
diz-me antes que enlouqueça
onde estão os beijos
perdidos no emprego
na jaula do macaco
diz-me o sitio exacto do tempo
antes do fim do abraço
para que fique contigo
a árabe identidade e mais nada.

de Miguel Patrício





Da síntese sobre o amor



Amar é ter um pássaro pousado no dedo.
Quem tem um pássaro pousado no dedo sabe que, a qualquer momento, ele pode voar.


sábado, 7 de março de 2009

Das contradiçoes do amor...



Soneto do Pássaro

Amar um passarinho é coisa louca.
Gira livre na longa azul gaiola
que o peito me constringe, enquanto a pouca
liberdade de amar logo se evola.

É amor meação? pecúlio? esmola?
Uma necessidade urgente e rouca
de no amor nos amarmos se desola
em cada beijo que não sai da boca.

O passarinho baixa a nosso alcance,
e na queda submissa um vôo segue,
e prossegue sem asas, pura ausência,
outro romance ocluso no romance.

Por mais que amor transite ou que se negue,
é canto (não é ave) sua essência.



de Carlos Drummond de Andrade


sexta-feira, 6 de março de 2009

Amor de longe


O Pássaro Pousado no Fio (II)*


Tão longe,
tão distante,
e ao mesmo tempo,
tão perto,
aqui, decerto,
dentro do peito,
no coração.

Sinto que não saiba
que estou aqui
do lado de cá do fio,
derramando uma lágrima
que agora,
agorinha surgiu.

Ah! se ele soubesse,
Que em suas penas
passei a mão,
que já o beijei
com meus olhos,
e não foi ilusão.

Ah! se ele soubesse,
que estou tão perto,
do outro lado do vidro,
quase posso tocá-lo,
sentir seu calor,
sua ânsia, ouví-lo,
dizer que sente-se só.

Não devia,
pois estou aqui,
tão perto, lá.
Mesmo que longe,
minha alma,
com ele, no fio está.


*Ao pássaro pousado

terça-feira, 3 de março de 2009

Da palavra numa perspectiva à altura do olho d'um pássaro, como os ingleses costumam dizer...



Passer > Passere > Passaru > Pássaro >>>

Oriundo do latim culto passer ou passere >que era utilizado para se referir a aves de pequeno porte> e modificado pelo latim vulgar passaru, sendo que na nossa língua conservou-se o vocábulo pássaro. E deste uma infinidade de derivações e significados:


passarinhar>passarinho>passarada>passaredo

>passarinhada>passarinheiro

>piu piuuuu...


^.^..., bem como outras derivações e expressões sinonímicas, e onomatopéias que tentarei reunir e organizar para alimentar minha doidice passareira!!! Por mencionar isso, em minhas andanças pela vizinhança, deparei-me com uma legítima preciosidade sobre pássaros e línguas (outro pequeno interesse que tenho)... Eis que o texto, ricamente tecido, vai além da simples origem e definição desta palavra voadora que é pássaro... Espero que o raro autor não se importe por destacá-lo aqui nesta pobre coletânea passeriforme...:


Os passarinhos, ó Céus!

Foi quando eu lia O mundo como vontade e representação, do Schopenhauer, que me deparei com um ditado em italiano: L’uccello nella gabbia canta, non de piacere, ma dia rabbia. Vi que a tradução seria: “o pássaro na gaiola canta, não de prazer, mas de raiva”... (texto integral...)

domingo, 1 de março de 2009

Do introíto a coletânea passeri+forme


Pássaro no peito

Da minha admiração desde a infância, um tanto terna e um tanto obsessiva, por pássaros, criei este blog para adicionar de quando em vez, principalmente, textos diversos, poemas e artes relacionadas a estas criaturas aladas e sonoras, que suscitam mistérios e inspiram a humanidade desde a antiguidade.




Para começar bem o ano (sim, porquê não só para mim, mas para muitos, o ano tem início em março, de fato... *_*), trago o pequeno e famoso cântico do poeta que buscava inspiração nos pássaros e nas coisas simples para espantar, passarinhamente, os males...:

POEMINHO DO CONTRA



Todos estes que aí estão
Atravancando o meu caminho,
Eles passarão.
Eu passarinho!



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