quinta-feira, 30 de agosto de 2012

de ferro...


O amor? 
Pássaro que põe ovos de ferro.

de Guimarães Rosa, in Grande sertão: veredas

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Inquérito



Pergunta às árvores da rua  
que notícia têm desse dia  
filtrado em betume da noite;  
se por acaso pressentiram  
nas aragens conversadeiras,  
ágil correio do universo,  
um calar mais informativo  
que toda grave confissão.  

Pergunta aos pássaros, cativos  
do sol e do espaço, que viram  
ou bicaram de mais estranho,  
seja na pele das estradas  
seja entre volumes suspensos  
nas prateleiras do ar, ou mesmo  
sobre a palma da mão de velhos  
profissionais de solidão.   

Pergunta às coisas, impregnadas  
de sono que precede a vida  
e a consuma, sem que a vigília  
intermédia as liberte e faça  
conhecedoras de si mesmas,  
que prisma, que diamante fluido  
concentra mil fogos humanos  
onde era ruga e cinza e não.   

Pergunta aos hortos que segredo  
de clepsidra, areia e carocha  
se foi desenrolando, lento,  
no calado rumo do infante  
a divagar por entre símbolos  
de símbolos outros, primeiros,  
e tão acessíveis aos pobres  
como a breve casca do pão.   

Pergunta ao que, não sendo, resta  
perfilado à porta do tempo,  
aguardando vez de possível;  
pergunta ao vago, sem propósito  
de captar maiores certezas  
além da vaporosa calma  
que uma presença imaginária  
dá aos quartos do coração.   

A ti mesmo, nada perguntes.   


de Carlos Drummond de Andrade, in 'A Vida Passada a Limpo'

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Se um Dia a Juventude Voltasse



se um dia a juventude voltasse
na pele das serpentes atravessaria toda a memória
com a língua em teus cabelos dormiria no sossego
da noite transformada em pássaro de lume cortante
como a navalha de vidro que nos sinaliza a vida

sulcaria com as unhas o medo de te perder... eu
veleiro sem madrugadas nem promessas nem riqueza
apenas um vazio sem dimensão nas algibeiras
porque só aquele que nada possui e tudo partilhou
pode devassar a noite doutros corpos inocentes
sem se ferir no esplendor breve do amor  

depois... mudaria de nome de casa de cidade de rio
de noite visitaria amigos que pouco dormem e têm gatos
mas aconteça o que tem de acontecer
não estou triste não tenho projectos nem ambições
guardo a fera que segrega a insónia e solta os ventos
espalho a saliva das visões pela demorada noite
onde deambula a melancolia lunar do corpo  

mas se a juventude viesse novamente do fundo de mim
com suas raízes de escamas em forma de coração
e me chegasse à boca a sombra do rosto esquecido
pegaria sem hesitações no leme do frágil barco... eu
humilde e cansado piloto
que só de te sonhar me morro de aflição  


de Al Berto, in 'Rumor dos Fogos'

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Sobre o Caminho



Nada   


nem o branco fogo do trigo 
nem as agulhas cravadas na pupila dos pássaros  
te dirão a palavra   


Não interrogues não perguntes  
entre a razão e a turbulência da neve  
não há diferença   


Não colecciones dejectos o teu destino és tu   


Despe-te  
não há outro caminho   


de Eugénio de Andrade, in "Véspera da Água"
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