Pergunta às árvores da rua que notícia têm desse dia filtrado em betume da noite; se por acaso pressentiram nas aragens conversadeiras, ágil correio do universo, um calar mais informativo que toda grave confissão. Pergunta aos pássaros, cativos do sol e do espaço, que viram ou bicaram de mais estranho, seja na pele das estradas seja entre volumes suspensos nas prateleiras do ar, ou mesmo sobre a palma da mão de velhos profissionais de solidão. Pergunta às coisas, impregnadas de sono que precede a vida e a consuma, sem que a vigília intermédia as liberte e faça conhecedoras de si mesmas, que prisma, que diamante fluido concentra mil fogos humanos onde era ruga e cinza e não. Pergunta aos hortos que segredo de clepsidra, areia e carocha se foi desenrolando, lento, no calado rumo do infante a divagar por entre símbolos de símbolos outros, primeiros, e tão acessíveis aos pobres como a breve casca do pão. Pergunta ao que, não sendo, resta perfilado à porta do tempo, aguardando vez de possível; pergunta ao vago, sem propósito de captar maiores certezas além da vaporosa calma que uma presença imaginária dá aos quartos do coração. A ti mesmo, nada perguntes. de Carlos Drummond de Andrade, in 'A Vida Passada a Limpo'
se um dia a juventude voltasse na pele das serpentes atravessaria toda a memória com a língua em teus cabelos dormiria no sossego da noite transformada em pássaro de lume cortante como a navalha de vidro que nos sinaliza a vida sulcaria com as unhas o medo de te perder... eu veleiro sem madrugadas nem promessas nem riqueza apenas um vazio sem dimensão nas algibeiras porque só aquele que nada possui e tudo partilhou pode devassar a noite doutros corpos inocentes sem se ferir no esplendor breve do amor depois... mudaria de nome de casa de cidade de rio de noite visitaria amigos que pouco dormem e têm gatos mas aconteça o que tem de acontecer não estou triste não tenho projectos nem ambições guardo a fera que segrega a insónia e solta os ventos espalho a saliva das visões pela demorada noite onde deambula a melancolia lunar do corpo mas se a juventude viesse novamente do fundo de mim com suas raízes de escamas em forma de coração e me chegasse à boca a sombra do rosto esquecido pegaria sem hesitações no leme do frágil barco... eu humilde e cansado piloto que só de te sonhar me morro de aflição de Al Berto, in 'Rumor dos Fogos'