quarta-feira, 30 de abril de 2014

Um fado para guitarra


Paradise, Green Donkey - by Marc Chagall 


Outeiros, átrios, pombas e vindimas.
Em algum tempo
Vivi a eternidade dessas rimas.
Pastora, entre os animais é que cresci. E lhes pensava
O pelo e a formosura. Senhora, tive a casa
Daqueles da minha raça. Agrandados vestíbulos
E aves e pomares, e por fidelidade pereci.
De humildes aldeias e de casas grandes
Transitei entre as vidas. Depois amei 
Extremante e soturna. A quem me amava matei. 
Por isso nesta vida temo o amor e facas. 
Por isso nesta vida 
Canto canções assim tão compassivas
Na língua esquecida.


de Hilda Hilst in Amavisse 

Ana Moura - Até ao Fim do Fim


quarta-feira, 23 de abril de 2014

Palavra aérea

Les Cantiques des Cantiques - de Marc Chagall

Me afundarei nesse teu vão de terra
E a brasa da tua língua
Há de marcar em fogo o mais vivo da pedra.

Uma palavra nova há de nascer, mas clara
Palavra aérea, em ti se elaborando asa.
Em tudo nesta morte és inocente
Mas minha boca feriu-se de uns cantares
E agora silenciosa, goiva de si mesma
Não sabe mais dizer sem se ferir e breve
Há de fechar-se
Porque tem sido em tudo amenidade
E não é este o tempo de florir. Sabias
Que um pouco da tua terra endurecida
Deitou-se sobre mim? E respirei minha morte
E acendi memórias em ti reconfluída
E convidei meus hóspedes antigos
Aqueles mais longínquos, rigidez e cal
Sobre um corpo de pranto agora ungido.

de Hilda Hilst in Odes Maiores ao Pai 


Chavela Vargas - Piensa en Mi

domingo, 13 de abril de 2014

De delicadezas me construo

Paisage Vert - de Marc Chagall

De delicadezas me construo. Trabalho umas rendas 
Uma casa de seda para uns olhos duros.

Pudesse livrar-me da maior espiral
Que me circunda e onde sem querer me reconstruo!

Livrar-me de todo olhar que quando espreita, sofre
O grande desconforto de ver além dos outros.
Tenho tido esse olhar. E uma treva de dor
Perpetuamente.
Do êxodo dos pássaros, do mais triste dos cães,
De uns rios pequenos morrendo sobre um leito exausto.
Livrar-me de mim mesma. E que para mim construam
Aquelas delicadezas, umas rendas, uma casa de seda
Para meus olhos duros.


de Hilda Hilst in Trajetória Poética do Ser


Fayrouz 
- Habbaytak Bel'Sayef (Amei-te no Verão)




quinta-feira, 3 de abril de 2014

Voos mais altos

Le vol (et la chute) d'Icare - de Marc Chagall

Corpo de argila
meu triste corpo
não é verdade 
se te disserem 
minha elegia 
ser mais vaidade 
do que homenagem. 

Por que o seria? 
Me adivinhaste 
quando a palavra 
nada dizia 
e o longo tempo 
(quando se amava) 
havia dias 
em que choravas 
e estremecias. 

Falam de ti. 
Da tua pouca 
felicidade. 

Mas o que importa
a infinidade
dos teus amantes 
se toda vez 
que te entregavas 
extenuado 
te perdias. 

Ah, se a poesia 
me permitisse 
vôos mais altos 
mesmo na morte 
as confidências 
que eu te faria... 

Ainda me tens. 
E bem por isso 
destila em mim 
teu peso enorme. 

E no poema 
que te dedico 
meu triste corpo 
ainda uma vez 
chora comigo 
chora comigo. 


de Hilda Hilst in Balada do Festival



Poemas de Hilda Hilst 
musicados por Zeca Baleiro




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