terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Alada palavra




Que nada nos defina. 
Que nada nos sujeite. 
Que a liberdade seja 
a nossa própria substância.


de Simone de Beauvoir


segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Imaginação



Permita todo voo possível a sua imaginação.


de Jane Austen in Orgulho e Preconceito


segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Engaiolado



Mas um pássaro engaiolado permanece no túmulo de pesadelos
sua sombra protesta em um grito de tormento
as suas asas são cortadas e os seus pés são amarrados
então ele abre a garganta para cantar

Um pássaro não canta porque tem uma resposta, ele canta porque tem uma canção.



de Maya Angelou in Eu Sei Por Que O Pássaro Engaiolado Canta 

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Desvoos




Imagina-se que ela esteja sempre em pleno voo; tão determinada em abraçar tudo que acaba malogrando.

de Virginia Woolf in Mrs. Dalloway


sábado, 30 de novembro de 2013

Orai àqueles que a fizeram bela




Era ali? Era adiante aquele muro
De claro verde musgo? Era distante?

Os mortos ressurgiram e cantaram:
Se a perfeição é a morte
Talvez por isso imortais
Há muito que existimos.
Mas se algum dentre vós
É sopro divino, encantai-nos:
Árvore, pedra, ar se vos apraz.
Vida perpétua mas paciente e quieta.

Se o que vos guia é a fala de um poeta
Há muitos entre nós. E procuraram
O todo uniforme: Hálito, sudário
E o mais além do homem.
Iguais a vós, a nós nos encontraram.
Eram velozes e límpidos. Asas
Nos pés humanos e por isso frágeis.

E apesar da eloquência que os mantinha
Quando a noite chegava se crispavam
Como a mulher fecunda que é sozinha
E sabe do seu tempo incerto e pouco.

Como os humanos temem suas trevas!
Como temeis em vós a criatura!
E mal sabeis que é sempre na clausura
Que a vida se aproxima e recomeça.
Humildade e abandono. E que a palavra
Se tentar existir, seja singela.
E se for sábia, estranha à vossa lavra
Orai àqueles que a fizeram bela.


Hilda Hilst in Testamento Lírico

sábado, 23 de novembro de 2013

A esperança



A Esperança não murcha, ela não cansa,

Também como ela não sucumbe a Crença.

Vão-se sonhos nas asas da Descrença,

Voltam sonhos nas asas da Esperança.


Muita gente infeliz assim não pensa;

No entanto o mundo é uma ilusão completa,

E não é a Esperança por sentença

Este laço que ao mundo nos manieta?


Mocidade, portanto, ergue o teu grito,

Sirva-te a crença de fanal bendito,

Salve-te a glória no futuro - avança!


E eu, que vivo atrelado ao desalento,

Também espero o fim do meu tormento,

Na voz da morte a me bradar: descansa!


de Augusto dos Anjos



quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Quase




Um pouco mais de sol - eu era brasa,
Um pouco mais de azul - eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...

Assombro ou paz? Em vão... Tudo esvaído 
Num grande mar enganador de espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho - ó dor! - quase vivido...

Quase o amor, quase o triunfo e a chama, 
Quase o princípio e o fim - quase a expansão...
Mas na minhalma tudo se derrama...
Entanto nada foi só ilusão!

De tudo houve um começo ... e tudo errou... 

- Ai a dor de ser - quase, dor sem fim...
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se elançou mas não voou...

Momentos de alma que desbaratei... 
Templos aonde nunca pus um altar...
Rios que perdi sem os levar ao mar...
Ânsias que foram mas que não fixei...

Se me vagueio, encontro só indícios... 
Ogivas para o sol - vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sobre os precipícios...

Num ímpeto difuso de quebranto, 
Tudo encetei e nada possuí...
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi...

Um pouco mais de sol - e fora brasa, 
Um pouco mais de azul - e fora além.
Para atingir faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...

Listas de som avançam para mim a fustigar-me 
Em luz.
Todo a vibrar, quero fugir... Onde acoitar-me?...
Os braços duma cruz
Anseiam-se-me, e eu fujo também ao luar...


domingo, 3 de novembro de 2013

Noturno



Têm para mim Chamados de outro mundo
as Noites perigosas e queimadas,
quando a Lua aparece mais vermelha

São turvos sonhos, Mágoas proibidas, 
são Ouropéis antigos e fantasmas
que, nesse Mundo vivo e mais ardente
consumam tudo o que desejo Aqui.

Será que mais Alguém vê e escuta?

Sinto o roçar das asas Amarelas
e escuto essas Canções encantatórias
que tento, em vão, de mim desapossar.

Diluídos na velha Luz da lua,
a Quem dirigem seus terríveis cantos?

Pressinto um murmuroso esvoejar:
passaram-me por cima da cabeça
e, como um Halo escuso, te envolveram.
Eis-te no fogo, como um Fruto ardente,
a ventania me agitando em torno
esse cheiro que sai de teus cabelos.

Que vale a natureza sem teus Olhos,
ó Aquela por quem meu Sangue pulsa?

Da terra sai um cheiro bom de vida
e nossos pés a Ela estão ligados.
Deixa que teu cabelo, solto ao vento,
abrase fundamente as minhas mão...

Mas, não: a luz Escura inda te envolve,
o vento encrespa as Águas dos dois rios
e continua a ronda, o Som do fogo.

Ó meu amor, por que te ligo à Morte?


de Ariano Suassuna in Poemas (antologia)

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Preparação para a morte




A vida é um milagre.
Cada flor,
com sua forma, sua cor, seu aroma,
cada flor é um milagre.
Cada pássaro,
com sua plumagem, seu vôo, seu canto,
cada pássaro é um milagre.
O espaço, infinito,
o espaço é um milagre.
O tempo, infinito,
o tempo é um milagre.
A memória é um milagre.
A consciência é um milagre.
Tudo é milagre.
Tudo, menos a morte.
— Bendita a morte, que é o fim de todos os milagres.


de Manuel Bandeira in Poesias Reunidas


* Para minha amada imortal.

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Eu luminoso não sou




Eu luminoso não sou. Nem sei que haja
Um poço mais remoto, e habitado
De cegas criaturas, de histórias e assombros.
Se, no fundo poço, que é o mundo
Secreto e intratável das águas interiores,
Uma roda de céu ondulando se alarga,
Digamos que é o mar: como o rápido canto
Ou apenas o eco, desenha no vazio irrespirável
O movimento de asas. O musgo é um silêncio,
E as cobras-d´água dobram rugas no céu,
Enquanto, devagar, as aves se recolhem.


de José Saramago in PROVAVELMENTE ALEGRIA

domingo, 13 de outubro de 2013

Ismália

Qualquer semelhança é mera coincidência...



Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar…

Viu uma lua no céu,

Viu outra lua no mar.


No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar…
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar…

E, no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar…
Estava perto do céu,
Estava longe do mar…

E como um anjo pendeu
As asas para voar…
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar…

As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par…
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar…





Cotovia



— Alô, cotovia!
Aonde voaste,
Por onde andaste,
Que saudades me deixaste?

— Andei onde deu o vento.
Onde foi meu pensamento
Em sítios, que nunca viste,
De um país que não existe . . .
Voltei, te trouxe a alegria.

— Muito contas, cotovia!
E que outras terras distantes
Visitaste? Dize ao triste.

— Líbia ardente, Cítia fria,
Europa, França, Bahia . . .

— E esqueceste Pernambuco,
Distraída?

— Voei ao Recife, no Cais
Pousei na Rua da Aurora.

— Aurora da minha vida
Que os anos não trazem mais!

— Os anos não, nem os dias,
Que isso cabe às cotovias.
Meu bico é bem pequenino
Para o bem que é deste mundo:
Se enche com uma gota de água.
Mas sei torcer o destino,
Sei no espaço de um segundo
Limpar o pesar mais fundo.
Voei ao Recife, e dos longes
Das distâncias, aonde alcança
Só a asa da cotovia,
— Do mais remoto e perempto
Dos teus dias de criança
Te trouxe a extinta esperança,
Trouxe a perdida alegria.

de Manuel Bandeira 

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Um pássaro que levante o céu



Neste espaço a si próprio condenado 

Dum movimento para o outro pode entrar

Um pássaro que levante o céu

E sustente o olhar 

…………………………………………

Com a tristeza acender a alegria 

Com a miséria atear a felicidade

E no céu inocente da visão

Fazer pulsar um pássaro por vir

Fazer voar um novo coração


de Alexandre O'Neill, epígrafe do livro "No Reino da Dinamarca"


segunda-feira, 30 de setembro de 2013

O Voo

L'Oiseau de Feu (de M. Chagall)


Goza a euforia do voo do anjo perdido em ti.
Não indagues se nossas estradas, tempo e vento,
desabam no abismo.
Que sabes tu do fim?
Se temes que teu mistério seja uma noite, enche-o
de estrelas.
Conserva a ilusão de que teu voo te leva sempre
para o mais alto.
No deslumbramento da ascensão
se pressentires que amanhã estarás mudo
esgota, como um pássaro, as canções que tens
na garganta.
Canta. Canta para conservar a ilusão de festa e de vitória. 
Talvez as canções adormeçam as feras
que esperam devorar o pássaro.

Desde que nasceste não és mais que um voo no tempo.
Rumo ao céu?
Que importa a rota.
Voa e canta enquanto resistirem as asas.






segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Tempos de Sussuarão

Contes de Boccace (M. Chagall)



Como vou achar ordem para dizer ao senhor a continuação do martírio, em desde que as barras quebraram, no seguinte, na brumalva daquele falecido amanhecer, sem esperança em uma, sem o simples de passarinhos faltantes?


de Guimarães Rosa in Grande Sertão: Veredas

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Tempo não é

The Blue Bird (M. Chagall)


A noite não consente a veleidade
De retomar na memória e no tempo
O tempo em que eu senhora de vaidades,
Dissipava no verso o meu lamento.

Tempo não é, senhora, de inocências. 
Nem de ternuras vãs, nem de cantigas. 
Antes de desamor, de impermanência. 

Tempo não é, senhora de alvoradas. 
Nem de coisas afins, toques, clarins. 
Antes, da baioneta nas muradas. 

Tempo não é, senhora, de pastores. 
Nem de roseiras, madrigais, violas. 

Nem é tempo, vos digo, de ter pássaros 
Azuis em vossas douradas gaiolas. 

(Não houvesse paredes, língua e som, 
Apartando de nós, coisas antigas. 
A palavra na boca, o falar neste tom 
Dá-me tanta saudade da cantiga: 

Persegues 

Te persigo 

Vais e vens

E nas idas e voltas te bendigo) 


de Hilda Hilst in Ode Fragmentária


terça-feira, 3 de setembro de 2013

O Tempo, o tempo, o tempo...

Couple Avec Un Oiseau (de M. Chagall)

(…) nos intervalos da angústia, se colhe, de um áspero caule, na palma da mão, a rosa branca do desespero (…) o tempo, o tempo, o tempo me pesquisava na sua calma, o tempo me castigava… que súbito espanto, que atropelos, vendo o coração me surgir assim de repente feito um pássaro ferido, gritando aos saltos na minha palma! (…)


de Raduan Nassar in Lavoura Arcaica


sábado, 31 de agosto de 2013

Guardar

Tribute to Elsa Triolet (de M. Chagall)


Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la.
Em cofre não se guarda coisa alguma.
Em cofre perde-se a coisa à vista.

Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por
admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.

Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por
ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela,
isto é, estar por ela ou ser por ela.

Por isso melhor se guarda o vôo de um pássaro
Do que um pássaro sem vôos.

Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica,
por isso se declara e declama um poema:
Para guardá-lo:
Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda:
Guarde o que quer que guarda um poema:
Por isso o lance do poema:
Por guardar-se o que se quer guardar.



de Antonio Cícero in Guardar - Poemas escolhidos


sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Prece Sufi



Ah, meu coração!

Renuncia um pouco a esse corpo feito de barro e de água, e depois chama para o amor divino todos os que vivem pelo coração. Acende a chama da alma na luz do amor, aprende assim de seu Bem-Amado o salmo do amor sagrado. Revela seus segredos como o rouxinol, que não pode falar como nós.


de Farid ud-Din Attar in A Linguagem dos Pássaros

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Canto Cigano




Seus cabelos,
Balançavam com o vento.
Ela dançava,
Dançava de dia,
Dançava de tarde,
Dançava à noite.

À noite,
Enquanto os archotes brilhavam,
E punham nela muitos fulgores,
Ela sorria e sorria...

Para quem sorria?
Para ninguém.
Bastava, para ela,
Sorrir para si mesma.

Sorria...
Sufocando o pranto,
Que lhe inundava a alma.
Porque, se ela chorasse,
Todos choravam também.

E ela tinha que sorrir,
Cantar,
Dançar.
Bailando,
Como baila o vento,
Cantando,
Como cantam as aves,
Só, tão só...

E, no entanto, dona absoluta,
De todos os olhares,
De todas as mentes,
Que estavam ali.
Cada um achando,
Que era para eles que ela sorria,
Quando, na verdade,
Ela não sorria para ninguém,
Ela sorria para si mesma.

O tempo passou...
E, no vento tão forte,
Que muda a vida,
Mudando as pessoas de lugar,
Daqui para acolá.

Um dia,
Ela deixou de dançar,
Mas não deixou de cantar.
Mesmo na solidão dos pinheiros gelados,
Fazia, com os rouxinóis,
Um dueto encantado.

O rouxinol cantava de tristeza,
Ela cantava de saudade,
De dor...

Por onde andará?
Como estará a terra dos meus amores?
Aonde estarão aqueles,
Que pisam, firme, o chão?
Aonde estará o meu povo?
Será que estão como eu...
Na solidão?

Canta, cigana,
Canta...
Deixa que o vento da vida te carregue,
Que a brisa te abrace
E que as folhas te teçam arpejos,
Nos ninhos dos pássaros.

A solidão nos faz
Aprender a viver,
Dentro de nós,
Num castelo encantado.

Onde se é possível,
Chorar sozinha
E rir, feliz,
Para todos os passantes,
Caminhantes,
Andantes de muitas terras,
De muitos sonhos,
De muitas estradas.

Deixa voar,
O seu sonho de paz,
Porque, um dia, você terá.

Não chore,
Não chore, cigana,
Cante.
Porque, mesmo sem cantar,
Você encanta.
E, mesmo chorando,
Você sorri.

Deixa o tempo passar,
Deixa a folha voar,
Voar...
Porque, um dia,
Paz você terá!


de Cecília Meireles*



*Atribuído a Cecilia Meireles, mas não tenho certeza, uma vez que encontrei na rede... E ao pesquisar, não encontrei referência ao livro em que foi publicado. http://www.correioespirita.org.br/categorias/poesias/89-cec%C3%ADlia-meireles
Não conheço a obra da poeta, apenas li uma ou duas coletâneas. No entanto, apesar de me parecer que fuja aqui e ali ao seu estilo, não resisti ao lamento cigano. 
Ah, e a foto encontrei no Flickr quando pesquisava sobre os irresistíveis filmes de Tony Gatlif! 



terça-feira, 13 de agosto de 2013

Dia na Serra


Canta, coração meu: é hoje o teu momento!

Amanhã estás morto:
estrelas brilham e tu não vês,
pássaros cantam e tu não ouves.
Canta, coração meu, que é teu este momento:
o teu fugaz momento!

Sobre a neve irisada e resplendente sorri o sol, 
nuvens ao longe pairam coroando a várzea, 
tudo é novo, tudo é calor e brilho, 
não há sombra que pese nem aflição que doa. 
Respirar é tão bom: respirar é um dom,
é prece e cântico.
Alma, respira: abre-te bem ao sol, 
enquanto dura o teu fugaz momento!

É doce a vida, a dor é doce, e o enlevo:
feliz de cada floco em pó ao vento,
feliz de mim - cerne da Criação, 
dileto filho da Terra e do Sol,
por um momento, 
por um risonho momento, 
até que o floco se dissipe ao vento!

Canta, coração meu: é hoje o teu momento!
amanhã estás morto:
estrelas brilham e tu não vês, 
pássaros cantam e tu não ouves.
Canta, coração meu, que é teu este momento:
o teu fugaz momento!



de Hermann Hesse, in Andares - Antologia Poética




* Com quase um mês de atraso a procurar um escrito... e este me veio também como prece... e soube bem! Eis que encontrei num dos livros que te enviei quando nos reencontramos nestas bandas virtuais... 
Deixo especialmente para você, filha do Eterno Sol..., e que de novo voou... Aonde pousará a amada de Rá? Adelandeyo! 
Bis bald! Ma'as-salama! Inch'Allah!



sábado, 3 de agosto de 2013

Lanço minha alegria como pássaros ao céu




Senhor, lanço minha alegria

como pássaros ao céu,

A noite esvoaçou;

estou contente por causa da luz.

Que dia, Senhor, que dia!

O sol evaporou o orvalho da grama

e de nossos corações.

O que vem de mais profundo de nossa alma,

o que nos envolve nesta manhã, é a gratidão…

Obrigada pela vida! 


(Oração matinal africana)


Ao som dos bem-te-vi!


terça-feira, 30 de julho de 2013

Da Música



Sentei-me ao pé daquela que meu coração ama, e ouvi suas palavras. Minha alma começou a vaguear pelos espaços infinitos onde o universo aparecia como um sonho, e o corpo como uma prisão acanhada. A voz encantadora de minha Amada penetrou em meu coração. 

Isto é música, amigos, pois eu a ouvi através dos suspiros daquela que amo, e pelas palavras balbuciadas por seus lábios. 
Com os olhos de meus ouvidos, vi o coração de minha Amada.

Meus amigos: a Música é a linguagem dos espíritos. Sua melodia é como uma brisa saltitante que faz nossas cordas estremecerem de amor. Quando os dedos suaves da música tocam à porta de nossos sentimentos, acordam lembranças que há muito jaziam escondidas nas profundezas do Passado. Os acordes tristes da Música trazem-nos dolorosas recordações; e seus acordes suaves nos trazem alegres lembranças. A sonoridade de suas cordas faz-nos chorar à partida de um ente querido ou nos faz sorrir diante da paz que Deus nos concedeu.

A alma da Música nasce do espírito e sua mensagem brota do Coração. Quando Deus criou o Homem, deu-lhe a Música como uma linguagem diferente de todas as outras. Mesmo em seu primarismo, o homem primitivo curvou-se à glória da música; ela envolveu os corações dos reis e os elevou além de seus tronos. Nossas almas são como flores tenras à mercê dos ventos do Destino. Elas tremulam à brisa da manhã e curvam as cabeças sob o orvalho cadente do céu.

A canção dos pássaros desperta o Homem de sua insensibilidade, e o convida a participar dos salmos de glória à Sabedoria Eterna, que criou a melodia de suas notas.

Tal música nos faz perguntar a nós mesmos o significado dos mistérios contidos nos velhos livros. Quando os pássaros cantam, estarão chamando as flores nos campos, ou estão falando às árvores, ou apenas fazem eco ao murmúrio dos riachos? Pois o Homem, mesmo com seus conhecimentos, não consegue saber o que canta o pássaro, nem o que murmura o riacho, nem o que sussurram as ondas quando tocam as praias vagarosa e suavemente. 

Mesmo com sua percepção, o homem não pode entender o que diz a chuva quando cai sobre as folhas das árvores, ou quando bate devagarinho nos vidros das janelas. Ele não pode saber o que a brisa segreda às flores nos campos. 

Mas o coração do homem pode pressentir e entender o significado dessas melodias que tocam seus sentidos. A Sabedoria Eterna sempre lhe fala numa linguagem misteriosa; a Alma e a Natureza conversam entre si, enquanto o Homem permanece mudo e confuso. Mas o Homem já não chorou com esses sons? E suas lágrimas não são, porventura, uma eloquente demonstração? 

Divina Música! 
Filha da Alma e do Amor 
Cálice da amargura
e do Amor 
Sonho do coração humano,
fruto da tristeza
Flor da alegria, fragrância
e desabrochar dos sentimentos
Linguagem dos amantes,
confidenciadora de segredos
Mãe das lágrimas do amor oculto
Inspiradora de poetas, de compositores
e dos grandes realizadores
Unidade de pensamento 
dentro dos fragmentos
das palavras
Criadora do amor que se origina da beleza
Vinho do coração
que exulta num mundo de sonhos
Encorajadora dos guerreiros,
fortalecedora das almas.
Oceano de perdão e mar de ternura
Ó música
Em tuas profundezas
depositamos nossos corações e almas
Tu nos ensinaste a ver com os ouvidos
E a ouvir com os corações

de Khalil Gibran


A preciosa Fairuz a cantar Gibran: 







* Para Mônica - que compartilha comigo o amor imenso pelas melodias vindas das Terras do Crescente,
das canções na Língua dos Pássaros... (*


terça-feira, 23 de julho de 2013

Penas pesadas da neve







Canção do grande anseio



Ah, se a liberdade entoasse uma canção
tão diminuta
quanto a laringe de um pássaro

em lugar nenhum haveria restado um muro em queda.
Não levaria anos
para aprender
que cada ruína significa a ausência do homem
para a presença do homem
é restauração e renovação.
Como uma ferida

um sangramento
por toda a vida
como uma ferida
com dor latejante
uma por toda vida

abrir os olhos para o mundo em um grito
em
evanescente rancor

Assim foi a grande ausência
Assim foi a história da ruína.
Ah, se a liberdade 
entoasse uma canção

diminuta
ainda mais diminuta do que a laringe de um pássaro.


de Ahmad Shamlou


(tradução livre: Bluuu)


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