domingo, 31 de julho de 2011

Bendito



Bendito o dia
em que

um pássaro vermelho
tocou-me os lábios.
Bendito o pássaro.
Eis que
a pássara e seus dias
desbotados
ganharam
um pouco de cor.


de Bluuu

sábado, 30 de julho de 2011

Rabisco na Areia



Que encantamento e beleza
sejam brisa e calafrio,
que o delicioso e bom
tenha escassa duração
- fogo de artifício, flor,
nuvem, bolha de sabão,
riso de criança, olhar
de mulher no espelho, e tantas
outras coisas fabulosas
que, mal se descobrem, somem –
disso, com pena, sabemos.
Ao que é permanente e fixo
não queremos tanto bem:
gemas de gélido fogo,
ouros de pesado brilho,
por não falar nas estrelas
que tão altas não parecem
transitórias como nós
e não calam fundo na alma.
Não: parece que o melhor,
mais digno de amor, se inclina
para o fim, beirando a morte,
e o que mais encanta – notas
de música, que ao nascerem
já fogem, se desvanecem –
são brisas, são águas, caças
feridas de leve mágoa,
que nem pelo tempo de uma
batida de coração
deixam-se reter, prender.
Som após som, mal se tocam,
já se esvaem, vão-se embora.
Nosso coração assim
leal e fraternalmente
se entrega ao fugaz, ao vivo,
não ao seguro e durável.
Cansa-nos o permanente
- rochas, mundo estelar, jóias –
a nós, transmutantes, almas
de ar e bolhas de sabão,
cingidos ao tempo, efêmeros
a quem o orvalho na rosa,
o idílio de um passarinho,
o fim de um painel de nuvens,
fulgor de neve, arco-íris,
borboleta que esvoaça,
eco de riso que só
de passagem nos alcança,
pode valer uma festa
ou razão de dor. Amamos
o que é semelhante a nós,
e entendemos os rabiscos
que o vento deixa na areia.



de Hermann Hesse in Andares.


sábado, 23 de julho de 2011

Nenhum Sossego



Alma, pássaro assustado,
tu sempre perguntarás:
quando, após tantos maus dias,
vem a calma, vem a paz?

Mas sei: tão logo tenhamos
calmos dias sob a terra,
com saudade hás de fazer
de cada dia uma praga.

E, apenas salva, estarás
cansando-te em outras penas:
e impaciente arderás como
a mais jovem das estrelas.

de Hermann Hesse in Andares

* Para las 3 brujas.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Uma ave na tempestade





Não há como escapar. Você não pode ser um vagabundo e um artista e ainda ser um cidadão pacato, um homem saudável e forte. Você quer ficar bêbado, então você tem que aceitar a ressaca. Você diz sim à luz do sol e para suas puras fantasias, então você tem que dizer sim para a sujeira e as náuseas. Tudo está dentro de você, o ouro e a lama, felicidade e dor, o riso da infância e da apreensão da morte. Diga sim a tudo, não fuja de nada. Não tente mentir para si mesmo. Você não é um cidadão sólido. Você não é um grego. Você não é harmonioso, ou o mestre de si mesmo. Você é uma ave na tempestade. Deixe Chover! Deixe que ela o guie! Quanto você mentiu! Mil vezes, mesmo em seus poemas e livros, você representou ser o homem harmonioso, o homem sábio, o feliz, o homem iluminado. Da mesma forma, os homens atacando na guerra representaram ser heróis, enquanto as suas entranhas se contorciam. Meu Deus, que macaco pobre, que esgrimista no espelho o homem é - particularmente o artista - particularmente o poeta - particularmente eu mesmo!


de Hermann Hesse in
"Wandering:
Notes and Sketches"
(
Intitulado no Brasil como "Peregrinação").

* Para A.M.R. - o lobo de debaixo dos trópicos, que contraditoriamente tem nome de anjo...
** Tradução encontrada in "O velho".

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Daquilo que damos atenção




"Creio que uma folha ou um pequeno verme no caminho falam e significam mais do que todos os livros de uma biblioteca inteira. Algumas vezes, escrevo uma letra grega qualquer, um theta ou ômega e, quando entorto um pouco a pena, a letra agita-se transformando-se em peixe e lembra, por alguns segundos, todos os riachos e rios do mundo; lembra frescura e umidade, o oceano de Homero e a água sobre a qual andou Pedro; a letra muda-se em ave, sacode a calda, arrepia as penas, estufa o peito, ri-se e levanta vôo. Então, Narciso, você não dá atenção à essas letras? Uma coisa eu lhe digo: foi com ela que Deus escreveu o mundo."

de Hermann Hesse in "Narciso e Goldmund".

* Para Raquel - que também se transfigurou em pássaro.

domingo, 3 de julho de 2011

Quando algum pássaro chama



Às vezes quando algum pássaro chama
ou entre os ramos algum vento sopra
ou nalgum pátio longe ladra um cão,
Por longo tempo eu escuto e me calo.

Minha alma voa para o passado,
para onde, há mil esquecidos anos,
o pássaro e o vento que soprava
mais pareciam meus irmãos e eu.

Minha alma faz-se uma árvore,
um animal, um tecido de nuvens...
Transfigurada e estranha,
volta a mim e me interroga.
Que resposta lhe darei?

de Hermann Hesse


* Para Lilia - perdida e reencontrada.
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