domingo, 30 de novembro de 2014

Cântico

https://www.flickr.com/photos/atsaad/4211222380


Nem viver, nem morrer. O melhor é naufragar.

Amor, pensas que é apenas o abajur e o leito.
Mas não. É o céu e é o mar. E o teu corpo,
côncavo de velas, singra pelo mar alto.
O barco tem asas para voar ao céu quando preciso.
Mas não é preciso.

Amada, na dureza das minhas docas ancoraste irremediável.
Teu pescoço é farol.
Brilham mais alto as duas luzes de oitocentas velas.

Flutuante alabastro,
és redonda como uma quilha e alta como um mastro.
E hoje há aviso aos navegantes:
no mar do poeta
haverá um naufrágio em cada hora do dia.

Amada, pensas que apenas é a cópula. Mas não.
Iremos para Taiti, Shangai, Cuba, Vladivostock, Ceilão e para o céu e para o inferno e para a vida e para a morte.
Compraremos apenas o bilhete de ida.
Quem volta de uma viagem para Vladivostock ou para a Morte?

Para Vladivostock, não! navio que eu amo.
Iremos colher as mandrágoras nos crepúsculos de Manilha
e tomar ópio em Hong-Kong, e comer pêssego em Oman e dormir com meretrizes morenas em rendez-vonz de Port Said.

Mostra os teus braços de abismo
e os seios, duas naves fendidas e encalhadas e encendiadas de um fogo vermelho na ponta,
mostra-me principalmente
o lago, o vasto lago do ventre,
onde há a ilha do umbigo e o princípio tormentoso do sexo
pois não quero viver nem morrer... 
que o melhor é naufragar...

de Jamil Almansur Haddad, in "Lua do Remorso". 


Fairuz - Shayef el Bahr Shou Kbir 
(Veja quão grande é o mar)

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Turquesa - O pássaro do Oriente

http://www.pinterest.com/pin/535224736936827537/

Dizem que o rouxinol traspassa 
o peito com um espinho 
quando canta sua canção de amor. 
Assim fazemos todos. 
Como poderíamos cantar de outra forma? 

de Khalil Gibran

***

Quando ela canta,
chove no deserto,
as nuvens se dispersam,
​​o Sol oculto levanta
e a Lua clara desponta.


Quando ela canta,
paisagens verdejam,
coraç
ões ​​vicejam
e tamb
ém choram.


Quando ela canta,
com uma lágrima e um sorriso,
mem
órias renascem,

o alento brota,
amor e dor fazem trégua.

Ah, quando ela canta,
o mistério inefável acontece!
 

Anjo triste, na Língua dos Pássaros
a Deus nos eleva.
Coração branco, voz azul.
Força e delicadeza.
Canto e prece.
 

de Bluuu 



Fairuz - Sa'alouni Al Nas (As pessoas me perguntam)



quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Cegueira Bendita

https://www.flickr.com/photos/all_things_nice/3634121266


Ando perdida nestes sonhos verdes
De ter nascido e não saber quem sou,
Ando ceguinha a tatear paredes
E nem ao menos sei quem me cegou!

Não vejo nada, tudo é morto e vago…
E a minha alma cega, ao abandono
Faz-me lembrar o nenúfar dum lago
´Stendendo as asas brancas cor do sonho…

Ter dentro d´alma na luz de todo o mundo
E não ver nada nesse mar sem fundo,
Poetas meus irmãos, que triste sorte!…

E chamam-nos a nós Iluminados!
Pobres cegos sem culpas, sem pecados,
A sofrer pelos outros té à morte!


de Florbela Espanca in Trocando olhares, 1917.


Fairuz - Sa'altak habibi (Pergunto-te, meu amor)



segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Em Viagem

https://www.flickr.com/photos/26513805@N00/4117756191


Pelo caminho estreito, aonde a custo
Se encontra uma só flor, ou ave, ou fonte,
Mas só bruta aridez de áspero monte
E os soes e a febre do areal adusto,

Pelo caminho estreito entrei sem susto
E sem susto encarei, vendo-os defronte,
Fantasmas que surgiam do horizonte
A acommeter meu coração robusto...

Quem sois vós, peregrinos singulares?
Dor, Tédio, Desenganos e Pesares...
Atraz d'eles a Morte espreita ainda...

Conheço-vos. Meus guias derradeiros
Sereis vós. Silenciosos companheiros,
Bemvindos, pois, e tu, Morte, bemvinda! 


Antero de Quental, in "Sonetos"


Fairuz - Ahwaka Bila Amali (Amo-te sem esperanças)




* Para os cadáveres insepultos que ainda moram bem aqui in pectore. Ou aos fantasmas que me habitam a vida ad eternum... Dedico-vos todos os meus lamentos por ontem, dia dos mortos. Como tenho feito, religiosamente, por todos os anos.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...