terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Um dia...

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Um dia a gente vai perceber que 
não se pode prender pássaros 
e nem corações
e que, estar junto, não é estar ao lado, 
mas sim do lado de dentro.


Silvio Rodriguez - Te doy una canción


sábado, 3 de dezembro de 2016

Lampejo

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O poema não voa de asa-delta
não mora na Barra
não freqüenta o Maksoud.
Pra falar a verdade, o poema não voa:
anda a pé
e acaba de ser expulso da fazenda Itupu
pela polícia.

Come mal dorme mal cheira a suor,
parece demais com o povo:
é assaltante?
é posseiro?
é vagabundo?
frequentemente o detêm para averiguações
às vezes o espancam
às vezes o matam
às vezes o resgatam
da merda
por um dia
e o fazem sorrir diante das câmeras da TV
de banho tomado.

O poema se vende
se corrompe
confia no governo
desconfia
de repente se zanga
e quebra trezentos ônibus nas ruas de Salvador.

O poema é confuso
mas tem o rosto da história brasileira:
tisnado de sol
cavado de aflições
e no fundo do olhar, no mais fundo,
detrás de todo o amargor,
guarda um lampejo
um diamante
duro como um homem
e é isso que obriga o exército a se manter de prontidão.


de Ferreira Gullar, in Toda Poesia.

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Canção Azul

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O tempo chegará
a palavra invisível
transformada em pássaro
e que acorde lembranças
há muito esquecidas
no coração sepulto.
O tempo afinal virá
o tempo sem limites
em que os enforcados
mortos e vivos
e uma lua romântica
das noites da infância
voltem a dançar
no ar da manhã.


de Paulo Plínio Abreu, em "Poesia". 2ª ed., Belém: EDUFPA, 2008.



Entre las Huertas Paseando - Mara Aranda e Youssef El Houssaini
"Sefarad en el corazón de Al Andaluz"



* Para Tel Mont, amiga e poeta que me apresentou a Paulo Plínio Abreu!
 

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Dos embruxados e fatais

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Há este céu duro
Empedrado de ventos.
Eternidade és tu, meu ódio-amor
Senhor do meu sentimento.

Há este Nunca-Mais
Ancorado no Tempo.
E uma só tarde num aroma de ruas
De mogorim, de aves.

E há refrões e ágatas
Nas praças
Daquele paraíso de ilusões.
E barcas, pedras roladas

Extensos esgarçados
Eternidade de nós, meu ódio-amor
No SEMPRE-NUNCA MAIS.


***

Garças    e    fardos    
O    vôo    e    o    pesado    
No    meu    coração.    
   
E    lebres    álbidas    
E    cães.    
Correirice    e    caça    
No    meu    coração.    
Torres,    escadas    e    águas    
Nem    barcos,    nem    cordas    
No    meu    coração.    
   
E    lutos    e    garras    
Tua    cara    
No    meu    coração.


de Hilda Hilst, in Cantares de Perda e Predileção.


Hani Mitwasi - Lama Bada Yatathana "live" لما بدا يتثنى

 

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Aproveita o Momento!

http://www.figtreepress.co.uk/TheWildGreenChagallianTarot.htm
The Wild Green Chagallian Tarot

 
Quando a aurora surgiu com suas mãos radiantes,
Escutei na taverna uma voz conhecida:
"Desperta, meu amigo, e encha-se a taça, antes
Que seque em sua taça o vinho desta vida"

-----------------------------------------------------

Vem, enche a Taça e à chama azul da Primavera
Atira o Manto frio do arrependimento.
O Pássaro do Tempo ei-lo que não espera.
Está quase a voar! Aproveita o Momento!

de Omar Khayyam, in Rubaiyat
(Tradução de Jamil Almansur Haddad)


Kedem Ensemble - a passionate Sufi Dance

 -

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Peixes


"Um pássaro pode amar um peixe,
mas onde eles poderiam construir uma casa juntos?"
 

de Joseph Stein in "Um Violinista no Telhado"


***
 
Peixes são iguais a pássaros
Só que cantam sem ruído
Som que não vai ser ouvido

Voam águias pelas águas
Nadadeiras como asas
Que deslizam entre nuvens

Nós vivemos como peixes
Com a voz que em nós calamos
Com essa paz que não achamos

Peixes, pássaros, pessoas
Nos aquários, nas gaiolas, pelas salas e sacadas
Afogados no destino
de morrer como decoração das casas

Nós morremos como peixes
O amor que não vivemos
Satisfeitos mais ou menos
Todas iscas que mordemos
Os anzóis atravessados
Nossos gritos abafados


Letra e música da banda The Darma Lovers



terça-feira, 13 de setembro de 2016

Chamar a Si Todo o Céu com um Sorriso

  O Anjo e o Leitor (1930) - M. Chagall


que o meu coração esteja sempre aberto às pequenas
aves que são os segredos da vida
o que quer que cantem é melhor do que conhecer
e se os homens não as ouvem estão velhos

que o meu pensamento caminhe pelo faminto
e destemido e sedento e servil
e mesmo que seja domingo que eu me engane
pois sempre que os homens têm razão não são jovens

e que eu não faça nada de útil
e te ame muito mais do que verdadeiramente
nunca houve ninguém tão louco que não conseguisse
chamar a si todo o céu com um sorriso


E. E. Cummings, in "livrodepoemas"
Tradução de Cecília Rego Pinheiro


Debout sur le Zinc - Un jour ou l'autre


quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Aquarela


https://www.flickr.com/photos/andreasazu/5328351154


O corpo no cavalete
é um pássaro que agoniza
exausto do próprio grito.
As vísceras vasculhadas
principiam a contagem
regressiva.

No assoalho o sangue
se decompõe em matizes
que a brisa beija e balança:
o verde – de nossas matas
o amarelo – de nosso ouro
o azul – de nosso céu
o branco o negro o negro


de Cacaso.

(Fonte: Hollanda, H. B., org. 2001 [1976]. 26 poetas hoje, 4ª edição. RJ, Aeroplano. )


 

domingo, 3 de julho de 2016

Perdi-me



 

Para isso vim...
Não, não foi para isso que cheguei.

Vim para dar-te o pássaro, inédito de vôos,
que há em mim.

Vim para secar o pranto
desse alguém que não és, mas que sonhei.

Vim para ver-te como queria que fosses
- tão indizível em mim. Tão indizível!

Vim para o refúgio da noite
e o doloroso presságio das manhãs.

Vim - campo, rosa, nuvem, pedra,
rio adormecido, luz.

Para isso vim e perdi-me.



 

de Lara de Lemos

The Weepies - Little Bird 

segunda-feira, 13 de junho de 2016

Invocação



Onde estás, minha amada? Estás naquele pequeno Paraíso, a regar as flores que te olham como as crianças olham para as suas mães?
Ou estás em teu quarto, onde um santuário de Virtude foi erguido em tua honra, e sobre o qual ofereces meu coração e minha alma em sacrifício? Ou entre teus livros, ​à procura da sabedoria humana, enquanto estás repleta de sabedoria divina?

Onde estás, ò companheira da minha alma?
Estás no templo a orar, ou no campo, dialogando com a natureza, receptáculo de teus sonhos, ou nos casebres dos ​necessitados, animando os desesperados com a doçura de tua alma e a generosidade de tuas mãos?

Estás em todos os lugares, pois, fazes parte do espírito de Deus em todos os tempos, pois és mais durável que as eras.

​Lembra​s​-​te​​ do dia em que nos conhecemos? A luz da tua alma envolvia-nos como um halo; os ​espíritos do amor​​ ​volitavam à nossa volta​ a cantar os feitos da alma.​


​L​embra​s-te dos dias em que nos sentávamos à sombra dos ​r​amos​ que pareciam querer esconder-nos ​​do mundo, como as costelas protegem o divino segredo do coração?

Lembras-te das trilhas e florestas que percorremos juntos, nossas mãos tão apertadas, uma na outra, como se fossem uma só?

​Lembras-te da despedida? Abraçaste-me e me deste um beijo tão celestial que me convenci que, quando os lábios se unem, revelam segredos que a língua é incapaz de expressar. Depois, suspiraste, como talvez Deus tenha suspirado quando soprou a alma no primeiro homem. Suspirei também. E quem sabe? Talvez nosso duplo suspiro nos tenha precedido ao mundo dos espíritos onde aguardará nossa chegada, proclamando a glória de nossas almas… Depois, beijaste-me de novo várias vezes e disseste com palavras e lágrimas misturadas:

"​Os corpos ​seguem leis desconhecidas. Separam-se por intenções mundanas. ​Mas as almas permanecem aconchegadas no aperto do amor até que chegue a morte e as leve a Deus. Parte, meu amado. A vida te chama. Obedece-lhe. Ela recompensa os que lhe obedecem com taças cheias de doce elixir. Quanto aos meus braços vazios, terei, no teu amor, um companheiro permanente; e, na tua lembrança, bodas prolongadas."


Onde​ estás agora, meu outro eu? Aguardas na quietude da noite a brisa a quem confio as batidas do meu coração e os segredos da minha alma?

Ou contemplas o retrato do ausente? Este retrato não mais corresponde ao modelo. A tristeza estendeu seu véu sobre uma fronte que era radiante na tua presença; e as lágrimas abateram as pálpebras que refletiam tua beleza; e a saudade ressecou a boca que teus beijos refrescavam.

Onde estás, minha amada? Ouves, através dos mares, meus apelos e meus suspiros? Vês meu enfraquecimento e minha humilhação? Sentes a minha constância e resignação? Ou existe no ar espíritos que transmitam os prantos dos agonizantes? E não há entre as almas liames invisíveis que conduzam as queixas dos enamorados?

Minha linda estrela, onde estás? A escuridão me envolve e a saudade me derrota. Sorri no vento: tomarei alento. Sopra no éter: reencontrarei a vida.

Onde estás, minha amada? Oh, como é grande o amor! E quão ​pequeno eu sou! 


de Khalil Gibran, in Um Sorriso e Uma Lágrima, 1914.


 Ya Qalbi Khalli l'Hal 




segunda-feira, 30 de maio de 2016

No silêncio dos olhos



Em que língua se diz, em que nação,
Em que outra humanidade se aprendeu
A palavra que ordene a confusão
Que neste remoinho se teceu?
Que murmúrio de vento, que dourados
Cantos de ave pousada em altos ramos
Dirão, em som, as coisas que, calados,
No silêncio dos olhos confessamos?


de José Saramago, in Os Poemas Possíveis


Madredeus - Pregão





sexta-feira, 29 de abril de 2016

Se a tua vida se estender

 
Studio Light, 1976 - M. Chagall
 

Se a tua vida se estender
Mais do que a minha
Lembra-te, meu ódio-amor,
Das cores que vivíamos
Quando o tempo do amor nos envolvia.
Do ouro. Do vermelho das carícias.
Das tintas de um ciúme antigo
Derramado
Sobre o meu corpo suspeito de conquistas.
Do castanho de luz do teu olhar
Sobre o dorso das aves. Daquelas árvores:
Estrias de um verde-cinza que tocávamos.

E folhas da cor das tempestades
contornando o espaço
De dor e afastamento.

Tempo turquesa e prata
Meu ódio-amor, senhor da minha vida.

Lembra-te de nós. Em azul. Na luz da caridade.


de Hilda Hilst in Cantares de Perda e Predileção 


Oleo de una Mujer con Sombrero - Silvio Rodriguez


quinta-feira, 31 de março de 2016

RÚTILOS



Muros agudos
Iguais à fome de certos pássaros
Descendo das alturas.
Muros loucos, desabados:
Poetas da Utopia e da Quimera.
Muro máscara disfarçado de heras.
Muros acetinados iguais a frutos.
Muros devassos vomitando palavras.
Muros taciturnos. Severos.
Como os lúcidos pensadores
De um sonhado mundo.



de Hilda Hilst in 

quinta-feira, 3 de março de 2016

Nem menos, nem mais

http://www.palestineposterproject.org/artist/burhan-karkoutly

Sou uma mulher. Nem menos, nem mais.
Vivo a minha vida como ela é
fio a fio
e fio a minha lã para vesti-la, não
para acabar a história de Homero ou o seu Sol
e vejo o que vejo
tal como é, na sua aparência.
e no entanto fixo o olhar uma
e outra vez na sua sombra
para sentir o pulso da perda,
e escrevo um amanhã
sobre as folhas de um ontem: não há voz
apenas o eco.
Gosto da ambiguidade necessária nas
palavras daquele que viaja de noite em direcção ao que já se foi
da ave sobre as colinas das palavras
sobre as açoteias das aldeias.
Sou uma mulher, nem menos, nem mais.

Faz-me voar a flor de amendoeira,
no mês de Março, da minha varanda,
saudosa de um dizer distante:
– Toca-me, para que eu leve os meus cavalos à água das nascentes.
Choro sem razão aparente, e amo-te
a ti como és, sem obrigação
sem ser em vão.
e dos meus ombros levanta-se o dia sobre ti
e quando te abraça desce uma noite sobre ti
e eu não sou isto nem aquilo
não, não sou Sol nem Lua
sou uma mulher, nem menos, nem mais.

Sê tu o Qays da nostalgia
se assim queres.

É que eu gosto de ser amada como sou
não uma imagem
colorida no jornal, ou uma ideia
entoada no poema entre os cervos...
ouço o grito de Laila longínquo
a partir do quarto de dormir: – Não me deixes
prisioneira de uma rima nas minhas noites das tribos
não me deixes com eles como uma história...
sou uma mulher, nem menos, nem mais.

Eu sou quem sou, como
tu és quem és: moras em mim
e eu moro em ti sobre ti para ti
amo a claridade necessária no nosso mistério partilhado
sou tua quando transbordo da noite
mas não sou uma terra
não sou uma viagem
sou uma mulher, nem menos, nem mais.

Cansa-me
o ciclo da Lua mulher
adoece a minha guitarra
corda
a corda
sou uma mulher,
nada menos
nada mais!

de Mahmûd Darwîsh, in O leito de uma estranha (1999)
Tradução: André Simões


Fonte: http://sobreasruinas.blogspot.com.br 

Encontrado na página: Presença Árabe no Brasil

Dorsaf Hamdani - La Grande Nouba

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Certo voo



Cada pássaro
Sabe a rota
Do retorno

Cada pássaro
Sabe a rota
De si

Cada pássaro
Na rota
Sabe-se
Pássaro.


de Damário da Cruz in Segredos das Pipas


domingo, 3 de janeiro de 2016

Um pássaro no ombro


O NÁUFRAGO TRAZIA UM PÁSSARO NO OMBRO


Sei que trazia um pássaro no ombro.
De um reino vinha carregado de sonhos
Na mão trazia as marcas da viagem
Ainda giravam em torno do seu corpo
os ventos do mar.
No olhar o horizonte carregado de bruma,
No ouvido o pio das gaivotas,
Trazia o mar no corpo,
As medusas do mar.
No peito trazia marcada em tatuagem
a palavra amor.
Vinha do mar e trazia um pássaro no ombro.


de Paulo Plínio Abreu in XX Poemas.


*****Agradecimento imenso à amiga Tel Mont (que tem voz de rouxinol!).



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