segunda-feira, 30 de setembro de 2013

O Voo

L'Oiseau de Feu (de M. Chagall)


Goza a euforia do voo do anjo perdido em ti.
Não indagues se nossas estradas, tempo e vento,
desabam no abismo.
Que sabes tu do fim?
Se temes que teu mistério seja uma noite, enche-o
de estrelas.
Conserva a ilusão de que teu voo te leva sempre
para o mais alto.
No deslumbramento da ascensão
se pressentires que amanhã estarás mudo
esgota, como um pássaro, as canções que tens
na garganta.
Canta. Canta para conservar a ilusão de festa e de vitória. 
Talvez as canções adormeçam as feras
que esperam devorar o pássaro.

Desde que nasceste não és mais que um voo no tempo.
Rumo ao céu?
Que importa a rota.
Voa e canta enquanto resistirem as asas.






segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Tempos de Sussuarão

Contes de Boccace (M. Chagall)



Como vou achar ordem para dizer ao senhor a continuação do martírio, em desde que as barras quebraram, no seguinte, na brumalva daquele falecido amanhecer, sem esperança em uma, sem o simples de passarinhos faltantes?


de Guimarães Rosa in Grande Sertão: Veredas

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Tempo não é

The Blue Bird (M. Chagall)


A noite não consente a veleidade
De retomar na memória e no tempo
O tempo em que eu senhora de vaidades,
Dissipava no verso o meu lamento.

Tempo não é, senhora, de inocências. 
Nem de ternuras vãs, nem de cantigas. 
Antes de desamor, de impermanência. 

Tempo não é, senhora de alvoradas. 
Nem de coisas afins, toques, clarins. 
Antes, da baioneta nas muradas. 

Tempo não é, senhora, de pastores. 
Nem de roseiras, madrigais, violas. 

Nem é tempo, vos digo, de ter pássaros 
Azuis em vossas douradas gaiolas. 

(Não houvesse paredes, língua e som, 
Apartando de nós, coisas antigas. 
A palavra na boca, o falar neste tom 
Dá-me tanta saudade da cantiga: 

Persegues 

Te persigo 

Vais e vens

E nas idas e voltas te bendigo) 


de Hilda Hilst in Ode Fragmentária


terça-feira, 3 de setembro de 2013

O Tempo, o tempo, o tempo...

Couple Avec Un Oiseau (de M. Chagall)

(…) nos intervalos da angústia, se colhe, de um áspero caule, na palma da mão, a rosa branca do desespero (…) o tempo, o tempo, o tempo me pesquisava na sua calma, o tempo me castigava… que súbito espanto, que atropelos, vendo o coração me surgir assim de repente feito um pássaro ferido, gritando aos saltos na minha palma! (…)


de Raduan Nassar in Lavoura Arcaica


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