terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Grandes mistérios habitam



O limiar do meu ser,
O limiar onde hesitam
Grandes pássaros que fitam
Meu transpor tardo de os ver.

São aves cheias de abismo,
Como nos sonhos as há.
Hesito se sondo e cismo,
E à minha alma é cataclismo
O limiar onde está.

Então desperto do sonho
E sou alegre da luz,
Inda que em dia tristonho;
Porque o limiar é medonho
E todo passo é uma cruz.

de Fernando Pessoa

sábado, 21 de janeiro de 2012

Se



III


Se uma ave rubra e suspensa, ficará

Na nitidez do meu verso? Há de ficar.

Também eu

Intensa e febril sobre o teu plexo.

Se cantarão Catulo, e depois dele

Meu canto vigoroso de mulher?
Hão de cantar.
Mais do que pensas o meu verso puro.

Entrelaçados o meu nome e o teu

Depois da morte?
A desventura.

E as ambigüidades.

Distraído de mim, em desapego,

Eternamente cego?
Claro que sim

Amado, eterno, corajoso amigo.

de Hilda Hilst



* Para Tiê-Sangue. Remeteu-me a ti.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Sim



XII


O teu gesto de alegria

nunca será para mim.

O teu conflito noturno

este sim
pousará na minha face.

Existe sempre o mar

sepultando pássaros
renovando soluços
rompendo gestos.
Existe sempre uma partida
começando em ti tomando forma
e sumindo contigo.

Existe sempre um amigo perdido
um encontro desfeito e ameaços de pranto na retina.
Existe um canto de glória

iniciado nunca mas guardado
no meu peito
dissolvendo a memória.
E além da canção incontida

do teu amor ausentealém da irrevelada amargura
desta espera
existe sempre a terradesfazendo
as vontades primeiras de Existir.

de Hilda Hilst

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Ah, quanta vez, na hora suave





Ah, quanta vez, na hora suave
Em que me esqueço,
Vejo passar um vôo de ave
E me entristeço!
Por que é ligeiro, leve, certo
No ar de amavio?
Por que vai sob o céu aberto
Sem um desvio?
Por que ter asas simboliza
A liberdade
Que a vida nega e a alma precisa?
Sei que me invade
Um horror de me ter que cobre
Como uma cheia
Meu coração, e entorna sobre
Minh'alma alheia
Um desejo, não de ser ave,
Mas de poder
Ter não sei quê do vôo suave

Dentro em meu ser.

de Fernando Pessoa





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