domingo, 30 de dezembro de 2012

Olha, Tomé, o teu pássaro foi-se embora!



Vem aqui, Tomé,
vem comigo até a borda da água,
vem ver-me fazer uns pássaros
com esta lama que colho...

Repara como é tão fácil,
formo e modelo o corpo
e as asas;
afeiçôo a forma da cabeça
e do bico; engasto estas pedrinhas
que são os olhos;
ajeito as penas compridas
da cauda;
equilibro-lhes as pernas e os dedos
e tendo feito
este, faço mais onze;
aqui os tens, um dois, três
quatro, cinco, seis, sete, oito,
nove, dez, onze, doze pássaros
de lama...
Imagina, até, se quiseres,
dar-lhes nomes: este é Simão,
este é Tiago, este é André, este é João, e este,
se não te importas, chamar-se-á
Tomé.

Quanto aos outros vamos esperar
que os nomes apareçam;
os nomes, muitas vezes, atrasam-se
no caminho, chegam
mais tarde...

E agora vê como faço — lanço esta rede
por cima das avezinhas
para que elas não possam fugir, os pássaros..., se
não temos cuidado.

Queres dizer-me que se esta rede
for levantada os pássaros fogem?
Esta é a prova com que querias
convencer-me?

Sim e não!

Como, sim e não?

A melhor prova, mas essa
não é de mim que depende, seria
não levantares tu a rede e acreditares
que os pássaros fugiriam se a levantasses.

São de barro, não podem fugir.

Experimenta! Também Adão,
nosso primeiro pai, foi de barro e tu
descendes dele.

A Adão deu-lhe vida Deus!

Não duvides mais, Tomé! Levanta a rede, eu sou
o Filho de Deus.

Assim o quiseste, assim o terás,
estes pássaros não voarão!

Com um movimento
rápido, Tomé levantou
a rede, e os pássaros,
livres, levantaram vôo, chilreando,
duas voltas
sobre a multidão maravilhada
e desapareceram no espaço.

Disse Jesus:
Olha, Tomé, o teu pássaro
foi-se embora.

E Tomé respondeu:
Não. Senhor, está aqui ajoelhado a teus pés,
sou eu.





domingo, 23 de dezembro de 2012

Ditosa Ave



Quem fosse acompanhando juntamente 
Por esses verdes campos a avezinha, 
Que despois de perder um bem que tinha, 
Não sabe mais que cousa é ser contente! 

E quem fosse apartando-se da gente, 
Ela por companheira e por vizinha, 
Me ajudasse a chorar a pena minha, 
E eu a ela também a que ela sente! 

Ditosa ave! que ao menos, se a natura 
A seu primeiro bem não dá segundo, 
Dá-lhe o ser triste a seu contentamento. 

Mas triste quem de longe quis ventura 
Que para respirar lhe falte o vento, 
E para tudo, enfim, lhe falte o mundo! 

de Luís Vaz de Camões, in "Sonetos"

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

O Maior Espetáculo da Terra




O pássaro voa sobre o céu aberto,
várias alturas ousadas alçam muitas aves.
Algumas, riscando o mar
brincam de aeroporto e decolam
nas ondas das águas e dos ares.
Mas há asas e voar não é perigo;
É mais que isso,
voar é no corpo do pássaro
uma forma de pensamento.
Poderia citar todos os animais
e seus lugares de existir
e tudo seria admissível
na linha do seu ir e vir.

Mas o homem não.
Sem garantia, se equilibra
no fio do seu pensamento,
sem que tenha asas, voa,
e sem limite de aventura,
até da natureza caçoa.

Equilibrista,
se apodera dos seus sonhos
e de suas inesperadas iscas
e vai rebolando no bambolê das pistas.
Elabora, passa o mundo em revista,
mas seu conteúdo chora,
porque tem medo do risco.
O risco!
Logo o risco, meu Deus,
que é pai de tantas vitórias
sobre tantos reclames.
Bailarino do arame,
homem que se consome
no erro crasso da mesquinharia,
da mentirosa segurança
de que o mundo é sempre reto
e as coisas, imutáveis, certinhas
e sem alquimias.
Mas diante do susto da mutante verdade,
se equilibra no andaime que construiu
e que sem sua criativa ousadia,
jamais existiria.

Trapezistas de trapézios inusitados,
nos vemos na mão do destino
como se dele não fossemos também autores.
Senhoras e senhores da jornada
geramos no mundo nossa ninhada
e com ela o nosso projeto,
nossa luta,
porém é certo que nos volta com força bruta
o ordinário fato
de não pensarmos no que virá
depois do nosso simples ato.
Porque pertence ao homem a habilidade
de ser sujeito transformador,
de realizar todo dia
o seu show de competência,
engolindo o fogo do orgulho,
se esquivando do atirador de facas,
domando os problemas que rugem
podando o pelos da Dona Insegurança,
essa mulher barbada.

Mas, respeitável público,
o show não pode parar.
Às vezes dói viver,
às vezes dá preguiça de continuar,
quando nos esquecemos
que somos os construtores
do tal arame onde andamos
quando nos esquecemos que somos
o motorneiro, o piloto, o barqueiro,
o motorista e o garoto que gira o pião,
que chuta a bola, que mira o gol,
que gira o leme, que conduz o trem,
o diretor e o ator que apresenta este espetáculo.
Poderoso é o homem com seus esclarecimentos
sobre o evento vida,
poderosa é a vida
sobre o homem que não a tem esclarecida.

Para o homem basta um dia.
Um dia de coragem.
Um dia de luz.
Uma atitude pode mudar
a qualidade do seu trabalho,
do seu cotidiano,
e da sua história.
O seu relógio pode ser o tempo
que não desperdiça glórias,
liberto de auto-piedades,
com faróis que o projetem
para além das idades,
que o homem arquitete pilares
brindando à realidade vindoura,
que a chuva de aplausos ou vaias,
fertilizem novos frutos
seguindo a lógica da lavoura:
o que cresceu?
o que é que eu faço?
o que tenho que molhar sempre?
o que é que eu levo?
o que é que eu passo?
Não disfarço:
O homem é o dono do homem
Deus é cúmplice
no livre arbítrio do picadeiro
desse espaço.

Escolhe o alvo,
o salto
e os movimentos
no desprendimento que precisará
para atirar-se
nos braços do outro,
na confiança no trapezista ao lado.

Mágico, com surpresas únicas na cartola,
com o suprimento intransferível
de ser original e não simples cópia,
reprodução,
papel carbono de mais um animal,
em um segundo ele muda tudo.
De lenço para pombas,
de pequeno para colossal.

Acrobata,
dono do seu corpo no mundo
Malabarista,
com uma civilização de pratos
nas mãos e nos ares,
esse homem escolhe a fera:
pode levar ética ao circo ou
apodrecer preso,
como um mico, e sem ela.

Contorcionista,
se digladia
entre a angústia,
o medo,
a depressão,
a paralisia dos quais
só o seu talento o salvaria
e o salvará:
Ergue-se então este homem flexível
e não mais adia.
Ao contrário,
se apropria de
seus reais valores,
suas oportunidades,
sua criatividade,
sua alegria.

Aqui está o homem:
ave rara de todos os céus,
soberano sujeito de suas possibilidades,
criança sorridente,
domador de seus passos
e ao mesmo tempo palhaço
estendendo seus sublimes braços,
tentáculos no universo,
sobre a lona dessa esfera,
para ser, se quiser,
o maior espetáculo da terra.


de Elisa Lucinda



* Especialmente para minha amiga MadeinBrasil.



segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Asas Fechadas



Asas fechadas
São cansaço ou queda
Pedra lançada
Ou vôo que repousa
Ai, meu sorriso, a mim entrega
E meu olhar não ousa...

Asas fechadas
Dizem dois sentidos
Ambos iguais
E versos verticais
No teu sorriso só pressinto
Um sofrimento mais...

Asas fechadas
Desce quem subiu
Buscar a terra
É ter fé lá no céu
Nos sorrisos indecisos
Outro sonho nasceu...

Asas fechadas
Sonho ou desespero
Ponto final
Ou ascensão sem par
Nestes sorrisos espero
Por não saber chorar...

É prudente o silêncio
De quem só sabe sonhar...


Composição de Alain Oulman

Interpretação de Amália Rodrigues


sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Antiqüíssima ave



IX


Uma mulher suspensa entre as linhas e os dentes.

Antiqüíssima ave, marionete de penas

As asas que pensou lhe foram arrancadas.

Lavado de luzes, um deus me movimenta.

Indiferente. Bufo.


de Hilda Hilst

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Todos os Dias



Todos os dias
nascem pequeninas nuvens,
róseas umas,
aniladas outras,
nacaradas espumas...  

Todos os dias
nascem rosas,
também róseas
ou cor de chá, de veludo...  

Todos os dias
nascem violetas,
as eleitas
dos pobres corações...  

Todos os dias
nascem risos, canções...  

Todos os dias
os pássaros acordam
nos seus ninhos de lãs...  

Todos os dias
nascem novos dias,
nascem novas manhãs...  


de Saúl Dias, in "Essência"

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Há um tempo



Há um tempo de subir as ruas, as árvores,
as serras. Tempo de asas, de respiros,
de pérolas na nuca. De desordem,
desassossego. De corrida sem espora
nem freio, de amor e desamor na mesma
cama, de fome sem mesa, de mesa
sem fome, de calor sempre. Subimos e
tomamos rédeas invisíveis de cavalos
brancos, de cavalos negros, de potros
nunca amansados. É um galope sobre
terras e águas, caminhos aprendidos
quando aportámos ao cais do corpo,
ainda luminoso, quente. Um dia vem
o pó e o cansaço amarra-nos os pulsos
do desejo. Não nos reconhecemos
nos espelhos e as palavras que dizemos
não fazem eco nas esferas. O esmorecer
do fogo é um requiem pelo amor envelhecido
nas escarpas violadas em silêncio,
no avesso dos ventos, no separar das águas.

de Licínia Quitério, em  OS SÍTIOS

sábado, 3 de novembro de 2012

Asas de Pássaro



O luto daquilo que perdeste soergue um espelho
em direção ao teu trabalho mais destemido.


Observador do mundo, estás sempre à espera do pior. Mas ao invés
disso, encontras a face jubilosa que tanto desejavas encontrar.

Tuas mãos se abrem e se fecham, se abrem e se fecham.
Se fossem sempre punho ou se estivessem sempre abertas,
estarias paralisado.

Tua presença mais profunda emana de toda contração
                                                                 e de toda expansão,

ambas esplendidamente equilibradas e coordenadas,
como as asas de um pássaro.



de Jalal Ud-Din Rumi (Tradução de Lucas Haas Cordeiro)


quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Amada vida



Amada vida:
Que essa garra de ferro
Imensa
Que apunhala a palavra
Se afaste
Da boca dos poetas.
PÁSSARO-PALAVRA
LIVRE
VOLÚPIA DE SER ASA
NA MINHA BOCA.

Que essa garra de ferro
Imensa
Que me dilacera

Desapareça
Do ensolarado roteiro
Do poeta.
PÁSSARO-PALAVRA
LIVRE
VOLÚPIA DE SER ASA
NA MINHA BOCA.

Que essa garra de ferro
Calcinada

Se desfaça
Diante da luz
Intensa da palavra.

PALAVRA-LIVRE
Volúpia de ser pássaro

Amada vertiginosa.

Asa.


de Hilda Hilst


terça-feira, 30 de outubro de 2012

Se falo



Se falo
É por aqueles mortos
Que dia a dia
Em mim se ressuscitam.
De medos e reguardos
É a alma que nos guia
A carne aflita.
E de espanto
É o que tecemos:
Teias de espanto
Ao redor da casa
Onde vivemos.
Trituramos cada dia
(Agonizantes amenos)
Constelações e poesia
E um certo jeito de amar
Que a nós, de vôos
E vertigens, não convém.
E quem sabe o que convém
A seres tão exauridos.
Concedemos
Alento, nudez, lirismo
E contudo o que mais somos
São estes sonhos
Adentros indevassáveis
Bosques lilazes
Caminhos levando ao mar
Aves
Aves.


de Hilda Hilst, in "Obra poética reunida"

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Ouvi um dia



Ouvi um dia uma flor cantando e tranquilamente me alegrei; depois me aproximei e, milagre, não era a flor que cantava mas um passarinho sobre a flor.

de Clarice Lispector

sábado, 13 de outubro de 2012

Embriagai-vos



É necessário estar sempre bêbado. Tudo se reduz a isso; eis o único problema. Para não sentirdes o fardo horrível do Tempo, que vos abate e vos faz pender para a terra, é preciso que vos embriagueis sem cessar.  

Mas – de quê ? De vinho, de poesia ou de virtude, como achardes melhor. Contanto que vos embriagueis.  

E, se algumas vezes, sobre os degraus de um palácio, sobre a verde relva de um fosso, na desolada solidão do vosso quarto, despertardes, com a embriaguez já atenuada ou desaparecida, perguntai ao vento, à vaga, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo o que foge, a tudo o que geme, a tudo o que rola, a tudo o que canta, a tudo o que fala, perguntai-lhes que horas são; e o vento, e a vaga, e a estrela, e o pássaro, e o relógio, hão de vos responder:  

- É a hora de embriagar-se! Para não serdes os martirizados escravos do Tempo, embriagai-vos; embriagai-vos sem tréguas! De vinho, de poesia ou de virtude, como achardes melhor.

de Charles Baudelaire
Tradução de Aurélio Buarque de Holanda, 1950.



quarta-feira, 3 de outubro de 2012

domingo, 30 de setembro de 2012

A Leitora



A leitora abre o espaço num sopro subtil.
Lê na violência e no espanto da brancura.
Principia apaixonada, de surpresa em surpresa.
Ilumina e inunda e dissemina de arco em arco.
Ela fala com as pedras do livro, com as sílabas da sombra.

Ela adere à matéria porosa, à madeira do vento.
Desce pelos bosques como uma menina descalça.
Aproxima-se das praias onde o corpo se eleva  em chama de água.
Na imaculada superfície  ou na espessura latejante, despe-se das formas,

branca no ar. É um torvelinho harmonioso,  um pássaro suspenso.
A terra ergue-se inteira  na sede obscura de palavras verticais.
A água move-se até ao seu princípio puro.
O poema é um arbusto que não cessa de tremer.


de António Ramos Rosa, in "Volante Verde"

domingo, 23 de setembro de 2012

Rascunho



A gente é rascunho de pássaro 
Não acabaram de fazer… 

de Manoel de Barros, in "Matéria de poesia" (1974)






* Postagem especialmente dedicada a amiga Tel Mont (http://lectusexlibris.blogspot.com.br/  e  https://www.facebook.com/ALoucaDaBiblioteca) - que está sempre a voar fora das asas nessas bandas vituais! 


quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Simplicidade



Queria, queria  
Ter a singeleza  
Das vidas sem alma  
E a lúcida calma  
Da matéria presa.   

Queria, queria  
Ser igual ao peixe  
Que livre nas águas  
Se mexe;  

Ser igual em som,  
Ser igual em graça  
Ao pássaro leve,  
Que esvoaça...   

Tudo isso eu queria!  
(Ser fraco é ser forte).  
Queria viver  
E depois morrer  
Sem nunca aprender  
A gostar da morte.      


Pedro Homem de Mello, in "Estrela Morta"

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Z




As formas, as sombras, a luz que descobre a noite  
e um pequeno pássaro

e depois longo tempo eu te perdi de vista  

meus braços são dois espaços enormes
os meus olhos são duas garrafas de vento

e depois eu te conheço de novo numa rua isolada  

minhas pernas são duas árvores floridas  
os meus dedos uma plantação de sargaços   

a tua figura era ao que me lembro da cor do jardim.   



de António Maria Lisboa, in "Ossóptico e Outros Poemas"

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

de ferro...


O amor? 
Pássaro que põe ovos de ferro.

de Guimarães Rosa, in Grande sertão: veredas

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Inquérito



Pergunta às árvores da rua  
que notícia têm desse dia  
filtrado em betume da noite;  
se por acaso pressentiram  
nas aragens conversadeiras,  
ágil correio do universo,  
um calar mais informativo  
que toda grave confissão.  

Pergunta aos pássaros, cativos  
do sol e do espaço, que viram  
ou bicaram de mais estranho,  
seja na pele das estradas  
seja entre volumes suspensos  
nas prateleiras do ar, ou mesmo  
sobre a palma da mão de velhos  
profissionais de solidão.   

Pergunta às coisas, impregnadas  
de sono que precede a vida  
e a consuma, sem que a vigília  
intermédia as liberte e faça  
conhecedoras de si mesmas,  
que prisma, que diamante fluido  
concentra mil fogos humanos  
onde era ruga e cinza e não.   

Pergunta aos hortos que segredo  
de clepsidra, areia e carocha  
se foi desenrolando, lento,  
no calado rumo do infante  
a divagar por entre símbolos  
de símbolos outros, primeiros,  
e tão acessíveis aos pobres  
como a breve casca do pão.   

Pergunta ao que, não sendo, resta  
perfilado à porta do tempo,  
aguardando vez de possível;  
pergunta ao vago, sem propósito  
de captar maiores certezas  
além da vaporosa calma  
que uma presença imaginária  
dá aos quartos do coração.   

A ti mesmo, nada perguntes.   


de Carlos Drummond de Andrade, in 'A Vida Passada a Limpo'

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Se um Dia a Juventude Voltasse



se um dia a juventude voltasse
na pele das serpentes atravessaria toda a memória
com a língua em teus cabelos dormiria no sossego
da noite transformada em pássaro de lume cortante
como a navalha de vidro que nos sinaliza a vida

sulcaria com as unhas o medo de te perder... eu
veleiro sem madrugadas nem promessas nem riqueza
apenas um vazio sem dimensão nas algibeiras
porque só aquele que nada possui e tudo partilhou
pode devassar a noite doutros corpos inocentes
sem se ferir no esplendor breve do amor  

depois... mudaria de nome de casa de cidade de rio
de noite visitaria amigos que pouco dormem e têm gatos
mas aconteça o que tem de acontecer
não estou triste não tenho projectos nem ambições
guardo a fera que segrega a insónia e solta os ventos
espalho a saliva das visões pela demorada noite
onde deambula a melancolia lunar do corpo  

mas se a juventude viesse novamente do fundo de mim
com suas raízes de escamas em forma de coração
e me chegasse à boca a sombra do rosto esquecido
pegaria sem hesitações no leme do frágil barco... eu
humilde e cansado piloto
que só de te sonhar me morro de aflição  


de Al Berto, in 'Rumor dos Fogos'

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Sobre o Caminho



Nada   


nem o branco fogo do trigo 
nem as agulhas cravadas na pupila dos pássaros  
te dirão a palavra   


Não interrogues não perguntes  
entre a razão e a turbulência da neve  
não há diferença   


Não colecciones dejectos o teu destino és tu   


Despe-te  
não há outro caminho   


de Eugénio de Andrade, in "Véspera da Água"

terça-feira, 31 de julho de 2012

Não me procures





Não me procures ali
Onde os vivos visitam
Os chamados mortos.
Procura-me
Dentro das grandes águas
Nas praças
Num fogo coração
Entre cavalos, cães, 
Nos arrozais, no arroio
Ou junto aos pássaros
Ou espelhada
Num outro alguém, 
Subindo um duro caminho
Pedra, semente, sal
Passos da vida.
Procura-me ali.
Viva.

de Hilda Hilst

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Sonhar





Sonhar é transportar-se em asas de ouro e aço 
Aos páramos azuis da luz e da harmonia; 
É ambicionar o céu; é dominar o espaço,
Num vôo poderoso e audaz da fantasia.  


Fugir ao mundo vil, tão vil que, sem cansaço, 
Engana, e menospreza, e zomba, e calunia; 
Encastelar-se, enfim, no deslumbrante paço 
De um sonho puro e bom, de paz e de alegria. 


É ver no lago um mar, nas nuvens um castelo, 
Na luz de um pirilampo um sol pequeno e belo; 
É alçar, constantemente, o olhar ao céu profundo.
  
Sonhar é ter um grande ideal na inglória lida: 
Tão grande que não cabe inteiro nesta vida, 
Tão puro que não vive em plagas deste mundo.  


de Helena Kolody

segunda-feira, 23 de julho de 2012

O Suicida




Não restará na noite uma só estrela.Não restará a noite.Morrerei e comigo irá a somaDo intolerável universo.Apagarei medalhas e pirâmides,Os continentes e os rostos.Apagarei a acumulação do passado.Farei da história pó, do pó o pó.Estou a olhar o último poente.Oiço o último pássaro.Lego o nada a ninguém.
de Jorge Luis Borges, in "A Rosa Profunda"

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Os Amigos Infelizes





Andamos nus, apenas revestidos
Da música inocente dos sentidos.


Como nuvens ou pássaros passamos
Entre o arvoredo, sem tocar nos ramos.


No entanto, em nós, o canto é quase mudo.
Nada pedimos. Recusamos tudo.


Nunca para vingar as próprias dores
Tiramos sangue ao mundo ou vida às flores.


E a noite chega! Ao longe, morre o dia...
A Pátria é o Céu. E o Céu, a Poesia...


E há mãos que vêm poisar em nossos ombros
E somos o silêncio dos escombros.


Ó meus irmãos! em todos os países,
Rezai pelos amigos infelizes!




de Pedro Homem de Mello, in "Os Amigos Infelizes"

terça-feira, 3 de julho de 2012

A Velhice Pede Desculpas



Tão velho estou como árvore no inverno,
vulcão sufocado, pássaro sonolento.
Tão velho estou, de pálpebras baixas,
acostumado apenas ao som das músicas,
à forma das letras.

Fere-me a luz das lâmpadas, o grito frenético
dos provisórios dias do mundo:
Mas há um sol eterno, eterno e brando
e uma voz que não me canso, muito longe, de ouvir.

Desculpai-me esta face, que se fez resignada:
já não é a minha, mas a do tempo,
com seus muitos episódios.

Desculpai-me não ser bem eu:
mas um fantasma de tudo.
Recebereis em mim muitos mil anos, é certo,
com suas sombras, porém, suas intermináveis sombras.

Desculpai-me viver ainda:
que os destroços, mesmo os da maior glória,
são na verdade só destroços, destroços.

de Cecília Meirelles, in 'Poemas (1958)'

sábado, 30 de junho de 2012

Ar Noturno



Tenho muito medo
das folhas mortas,
medo dos prados
cheios de orvalho.
eu vou dormir;
se não me despertas,
deixarei a teu lado meu coração frio.

O que é isso que soa
bem longe?
Amor. O vento nas vidraças,
amor meu!

Pus em ti colares
com gemas de aurora.
Por que me abandonas
neste caminho?
Se vais muito longe,
meu pássaro chora
e a verde vinha
não dará seu vinho.

O que é isso que soa
bem longe?
Amor. O vento nas vidraças,
amor meu!

Nunca saberás,
esfinge de neve,
o muito que eu
haveria de te querer
essas madrugadas
quando chove
e no ramo seco
se desfaz o ninho.

O que é isso que soa
bem longe ?
Amor. O vento nas vidraças,
amor meu! 

de Vladimir Maiakóviski

sábado, 23 de junho de 2012

O gato e o pássaro




Uma cidade escuta desolada
O canto de um pássaro ferido
É o único pássaro da cidade
E foi o único gato da cidade
Que o devorou pela metade
E o pássaro deixa de cantar
E o gato deixa de ronronar
E de lamber o focinho
E a cidade prepara para o pássaro
Funerais maravilhosos
E o gato que foi convidado
Segue o caixãozinho de palha
Em que deitado está o pássaro morto
Levado por uma menina
Que não pára de chorar
Se soubesse que você ia sofrer tanto
Lhe diz o gato
Teria comido ele todinho
E depois teria te dito
Que tinha visto ele voar
Voar até o fim do mundo
Lá onde o longe é tão longe
Que de lá não se volta mais
Você teria sofrido menos
Só tristeza e saudades

É preciso nunca fazer as coisas pela metade.

de Jacques Prévert

quarta-feira, 13 de junho de 2012

A Função do Amor é Fabricar Desconhecimento



a função do amor é fabricar desconhecimento
(o conhecido não tem desejo; mas todo o amor é desejar)
embora se viva às avessas, o idêntico sufoque o uno
a verdade se confunda com o facto, os peixes se gabem de pescar
e os homens sejam apanhados pelos vermes (o amor pode não se
importar se o tempo troteia, a luz declina, os limites vergam
nem se maravilhar se um pensamento pesa como uma estrela
— o medo tem morte menor; e viverá menos quando a morte acabar)
 

que afortunados são os amantes (cujos seres se submetem
ao que esteja para ser descoberto)
cujo ignorante cada respirar se atreve a esconder
mais do que a mais fabulosa sabedoria teme ver
(que riem e choram) que sonham,criam e matam
enquanto o todo se move; e cada parte permanece quieta:

pode não ser sempre assim; e eu digo
que se os teus lábios, que amei, tocarem
os de outro, e os teus ternos fortes dedos aprisionarem
o seu coração, como o meu não há muito tempo;
se no rosto de outro o teu doce cabelo repousar
naquele silêncio que conheço, ou naquelas
grandiosas contorcidas palavras que, dizendo demasiado,
permanecem desamparadamente diante do espírito ausente;

se assim for, eu digo se assim for —
tu do meu coração, manda-me um recado;
para que possa ir até ele, e tomar as suas mãos, dizendo, 

Aceita toda a felicidade de mim.
E então voltarei o rosto, e ouvirei um pássaro
cantar terrivelmente longe nas terras perdidas.


de E. E. Cummings, in "livro de poemas"
Tradução de Cecília Rego Pinheiro

domingo, 3 de junho de 2012

Um sabiá



Um sabiá cantou! 
Longe daqui dançou o arvoredo 
Choveram saudades. 
Caem as folhas. 
De repente, brotam outras pelos ramos. 
Murcham flores, surgem gomos. 
E a planta, volta a semente. 
Assim somos, subtilmente diferimos do que fomos. 
Impossível transmitir , por secreto e singular, o acrescentar e perder deste crescer que é mudar.


de Helena Kolody


quarta-feira, 30 de maio de 2012

Primeiras Letras

Das toupeiras, aprendemos a cavar túneis.
Dos castores, aprendemos a fazer diques.
Dos pássaros, aprendemos a fazer casas.
Das aranhas, aprendemos a tecer.
Do tronco que rodava ladeira abaixo, aprendemos a roda.
Do tronco que flutuava à deriva, aprendemos a nau.
Do vento, aprendemos a vela.
Quem nos terá ensinado as manhas ruins? De quem aprendemos a atormentar o próximo e a humilhar o mundo?

de Eduardo Galeano


quarta-feira, 23 de maio de 2012

Esta Noite Morrerás


Esta noite morrerás.
Quando a lua vier tocar-me o rosto
terás partido do meu leito
e aquele que procurar a marca dos teus passos
encontra urtigas crescendo
por sobre o teu nome.
Esta noite morrerás.
Quando a lua vier tocar-me o rosto
terás partido do meu leito
e uma gota de sangue ressequido
é a marca dos teus passos.
No coração do tempo pulsa um maquinismo ínscio
e na casa do tempo a hora é adorno.
Quando a lua vier tocar-me o rosto a tua sombra extinta marca
o fim de um eclipse horário de uma partida iminente e o tempo
apaga a marca dos teus passos sobre o meu nome.
Constante.
O mar é isso.
A lua vir tocar-me o rosto e encontrar urtigas crescendo
por sobre o teu nome.
O mar é tu morreste.
O mar é ser noite e vir a lua tocar-me o rosto quando tu partiste e no meu leito crescem folhas sangue.
A febre é uma pira incompreensível como a aparição da lua
e a opacidade do mar.
No meu leito a lua vai tocar-me o rosto e a tua ausência é um
prisma, um girassol em panóplia.
Agora a lua chega devagar e o mar é o leito de tu teres
partido, uma infrutescência de eu procurar a marca dos teus
passos por sobre o meu rosto.
A noite é eu procurar a marca dos teus passos.
Esta noite a lua terá um halo de concêntricas florações
de gotas do teu sangue e a irisada sombra do meu leito
é o teu rosto iminente.
A lua é uma seta.
Tu partiste é o silêncio em forma de lança.
Esta noite vou erguer-me do meu leito e quando a lua vier
tocar-me o rosto vou uivar como um lobo.
Vou clamar pelo teu sangue extinto.
Vou desejar a tua carne viva, os teus membros esparsos,
a tua língua solta.
O teu ventre, lua.
Vou gritar e enterrar as unhas nos teus olhos até que
o mar se abra e a lua possa vir tocar-me o rosto.
Esta noite vou arrancar um cabelo e com a tua ausência faço
um pêndulo para interrogar a lua por tu teres partido e a marca
dos teus passos ser a razão mágica de a lua poder surgir de
noite e urtigas crescerem no meu leito.
E se encontrar a marca dos teus passos vou crivar-lhe
o coração de alfinetes para que tu partiste seja a razão
mágica de tu poderes morrer-te.
Quando a lua vier em forma de lança vai trespassar um pássaro
para lhe ler nas entranhas a direcção tu partiste e a marca dos
teus passos consiste nos olhos abertos de um pássaro esventrado.
Ah, mas o luar é uma pluma do meu leito e a lua é o colo de
tu morreste para poderes enfim tocar-me o rosto.



de Ana Hatherly, in “Poesia 1958-1978”



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