Meu doido coração aonde vais, No teu imenso anseio de liberdade? Toma cautela com a realidade; Meu pobre coração olha cais! Deixa-te estar quietinho! Não amais A doce quietação da soledade? Tuas lindas quimeras irreais Não valem o prazer duma saudade! Tu chamas ao meu seio, negra prisão!... Ai, vê lá bem, ó doido coração, Não te deslumbre o brilho do luar! Não estendas tuas asas para o longe... Deixa-te estar quietinho, triste monge, Na paz da tua cela, a soluçar!...
de Florbela Espanca, in "A Mensageira das Violetas"
Amáveis Mas indomáveis O poeta e seu cavalo. Um arcabouço pensado Para limitar-se ao pouso E do vôo, alimentar-se. Sente os espaços mas sabe Até onde irá seu passo. Sente a beleza do salto Mas conhece sua lhaneza: A própria, inerte beleza De saber-se aprisionado E contentar-se de sonhos Maravilhar-se de achados. O poeta - e seu vocábulo. O cavalo - e seu pedaço de terra Mais nas alturas, De brisa, de solidão e hortaliça. Entrelaçadas aspiram Respiram juntos.
E vistos em direção Às cordilheiras do espanto
Quase sempre se confundem. Sonhando reter no flanco Exaltação e delírio, Nas noites de grande lua (Entre ciprestes e lírios) O cavalo me acompanha Às profundezas guardadas Onde flutuam palavras. E lá mergulho e anoiteço. E encontro coisas do medo Mandalas de cor, rosáceas E malmequeres antigos Sobre algum livro encantado De pergaminho, de prata E de pensamentos idos.
- Querer voar, Samsara? Queres trocar o moroso das pernas Pela magia das penas e planar coruscante Acima da demência? Porque te vejo às tardes desejosa De ser uma das aves retardatárias do pomar. Aquela ali talvez, rumo ao poente.
Pois pode ser, lhe disse. Santos e lobos Devem ter tido o meu mesmo pensar. Olhos no céu Orando, uivando aos corvos.
Então aproximou-se rente ao meu pescoço:
- Esquece texto e sabença: as cadeias do gozo. E labaredas do intenso te farão o voo.
Amigo! O campo é o ninho do poeta...
Deus fala, quando a turba está quieta,
Às campinas em flor.
— Noivo — Ele espera que os convivas saiam...
E n’alcova onde as lâmpadas desmaiam
Então murmura — amor —
Vem comigo cismar risonho e grave...
A poesia — é uma luz... e alma — uma ave...
Querem — trevas e ar.
A andorinha, que é a alma — pede o campo
A poesia quer sombra — é o pirilampo...
Pra voar... pra brilhar.
Meu Deus! Quanta beleza nessas trilhas...
Que perfume nas doces maravilhas,
Onde o vento gemeu!...
Que flores d’ouro pelas veigas belas!
... Foi um anjo co’a mão cheia de estrelas
Que na terra as perdeu.
Aqui o éter puro se adelgaça...
Não sobe esta blasfêmia de fumaça
Das cidades para o céu.
E a terra é como um inseto friorento
Dentro da flor azul do firmamento,
Cujo cálice pendeu!...
Qual no fluxo e refluxo, o mar em vagas
Leva a concha dourada... e traz das plagas
Corais em turbilhão,
A mente leva a prece a Deus — por pérolas
E traz, volvendo após das praias cérulas,
— Um brilhante — o perdão!
A alma fica melhor no descampado...
O pensamento indômito, arrojado
Galopa no sertão,
Qual nos estepes o corcel fogoso
Relincha e parte turbulento, estoso,
Solta a crina ao tufão.
Vem! Nós iremos na floresta densa,
Onde na arcada gótica e suspensa
Reza o vento feral.
Enorme sombra cai da enorme rama...
É o Pagode fantástico de Brama
Ou velha catedral.
Irei contigo pelos ermos — lento —
Cismando, ao pôr-do-sol, num pensamento
Do nosso velho Hugo.
— Mestre do mundo! Sol da eternidade!...
Para ter por planeta a humanidade,
Deus num cerro o fixou.
Ao longe, na quebrada da colina,
Enlaça a trepadeira purpurina
O negro mangueiral...
Como no Dante a pálida Francesca,
Mostra o sorriso rubro e a face fresca
Na estrofe sepulcral.
O povo das formosas amarílis
Embala-se nas balsas, como as Wilis
Que o Norte imaginou.
O antro — fala... o ninho s’estremece...
A dríade entre as folhas aparece...
Pã na flauta soprou!...
Mundo estranho e bizarro da quimera,
A fantasia desvairada gera
Um paganismo aqui.
Melhor eu compreendo então Virgílio...
E vendo os Faunos lhe dançar no idílio,
Murmuro crente: — eu vi! —
Quando penetro na floresta triste,
Qual pela ogiva gótica o antiste,
Que procura o Senhor,
Como bebem as aves peregrinas
Nas ânforas de orvalho das boninas,
Eu bebo crença e amor!...
E à tarde, quando o sol — condor sangrento —,
No ocidente se aninha sonolento,
Como a abelha na flor...
E a luz da estrela trêmula se irmana
Co’a fogueira noturna da cabana,
Que acendera o pastor,
A lua — traz um raio para os mares...
A abelha — traz o mel... um treno aos lares
Traz a rola a carpir...
Também deixa o poeta a selva escura
E traz alguma estrofe, que fulgura,
Pra legar ao porvir!...
Vem! Do mundo leremos o problema
Nas folhas da floresta, ou do poema,
Nas trevas ou na luz...
Não vês?... Do céu a cúpula azulada,
Como uma taça sobre nós voltada,
Lança a poesia a flux!...
Muitas vezes te esperei, perdi a conta,
longas manhãs te esperei tremendo
no patamar dos olhos. Que me importa
que batam à porta, façam chegar
jornais, ou cartas, de amizade um pouco
— tanto pó sobre os móveis tua ausência.
Se não és tu, que me pode importar?
Alguém bate, insiste através da madeira,
que me importa que batam à porta,
a solidão é uma espinha
insidiosamente alojada na garganta.
Um pássaro morto no jardim com neve.
Nada me importa; mas tu enfim me importas.
Importa, por exemplo, no sedoso
cabelo poisar estes lábios aflitos.
Por exemplo: destruir o silêncio.
Abrir certas eclusas, chover em certos campos.
Importa saber da importância
que há na simplicidade final do amor.
Comunicar esse amor. Fertilizá-lo.
«Que me importa que batam à porta...»
Sair de trás da própria porta, buscar
no amor a reconciliação com o mundo.
Longas manhãs te esperei, perdi a conta.
Ainda bem que esperei longas manhãs
e lhes perdi a conta, pois é como se
no dia em que eu abrir a porta
do teu amor tudo seja novo,
um homem uma mulher juntos pelas formosas
inexplicáveis circunstâncias da vida.
Que me importa, agora que me importas,
que batam, se não és tu, à porta?
de Fernando Assis Pacheco, in “A Musa Irregular”
Foi um momento
O em que pousaste
Sobre o meu braço,
Num movimento
Mais de cansaço
Que pensamento,
A tua mão
E a retiraste.
Senti ou não?
Não sei. Mas lembro
E sinto ainda
Qualquer memória
Fixa e corpórea
Onde pousaste
A mão que teve
Qualquer sentido
Incompreendido.
Mas tão de leve!...
Tudo isto é nada,
Mas numa estrada
Como é a vida
Há muita coisa Incompreendida...
Sei eu se quando
A tua mão
Senti pousando
‘Sobre o meu braço,
E um pouco, um pouco,
No coração,
Não houve um ritmo
Novo no espaço?
Como se tu,
Sem o querer,
Em mim tocasses
Para dizer
Qualquer mistério,
Súbito e etéreo,
Que nem soubesses
Que tinha ser.
Assim a brisa
Nos ramos diz
Sem o saber
Uma imprecisa
Coisa feliz.
I — Tu não existes, eu bem sei, mas sei eu ao certo se existo? Eu,
que te existo em mim, terei mais vida real do que tu, do que a própria
vida que te vive?
Chama tornada auréola, presença ausente, silêncio rítmico e
fêmea, crepúsculo de vaga carne, taça esquecida para o festim, vitral
pintado por um pintor-sonho numa idade média doutra Terra. Cálice e hóstia de requinte casto, altar abandonado de santa ainda
viva, corola de lírio sonhado do jardim onde nunca ninguém entrou... És a única forma que não causa tédio porque és sempre mudável com o
nosso sentimento, porque, como beijas a nossa alegria, embalas a nossa
dor, e ao nosso tédio, és-lhe o ópio que conforta e o sono que descansa,
e a morte que cruza e junta as mãos. Anjo (...), de que matéria é feita a tua matéria alada? que vida te
prende a que terra, a ti que és voo nunca erguido, ascensão estagnada,
gesto de enlevo e de descanso?
Conta
uma velha lenda que antigamente os Ciganos eram pássaros. Um dia, em
pleno voo
sobre a terra, viram um palácio dourado brilhando ao sol e desceram para
ver
melhor.
O palácio era habitado por perus, galinhas e patos que,
maravilhados
pela beleza dos ciganos-pássaros, começaram a oferecer-lhes todo o tipo
de
jóias e guloseimas, suplicando-lhes que não partissem.
Em breve, todos
os
pássaros estavam cobertos de correntes de ouro, dos pés à cabeça. Apenas
um resistira à tentação daquelas riquezas, incitando os outros a
retomar o
voo.
No entanto, ninguém lhe prestou atenção. Então, com o coração
pesaroso, elevou-se
no ar e atirou-se sobre as pedras, desde o alto dos céus. Só nesse
momento é que
os ciganos-pássaros começaram a acordar do seu entorpecimento, batendo
as
asas. Mas o ouro puxava-os para baixo e não conseguiam erguer-se e voar.
Perus, galinhas e patos cantaram vitória. Manteriam para sempre aqueles
belos
pássaros encerrados nas suas gaiolas de ouro. De repente, uma pequena
pena vermelha
deslizou para dentro do palácio, indo aterrar aos pés dos pássaros. O
ouro caiu
dos seus corpos, mas as suas asas já não lhes obedeciam e não
conseguiram
voar. A pequena pena vermelha, suavemente levantada pelo vento, saiu do
palácio e foi errar pelos caminhos poeirentos. Os ciganos seguiram-na e
foram
perdendo as suas penas, uma por uma, transformando-se assim pouco a
pouco em humanos. Com
corpos de homem e almas de pássaro, esqueceram-se para sempre de como
voar.
Conto Tradicional "We Used To Be Birds Before", traduzido por Mónica Roncon in Outrora Fomos Pássaros
Se viverdes em mim, vereis até onde me estendo. Pássaro que estende em arco seu claro movimento Um dia há de pousar e estender-se em raiz. Ares De um tempo colaram-se nas asas e um só tempo Pretendo. Abriu-se minha mão. E toda a terra De sua pequena superfície não se colou ao vento.
de Hilda Hilst in Júbilo Memória Noviciado da Paixão (1974)
Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano Vive uma louca chamada Esperança E ela pensa que quando todas as sirenas Todas as buzinas Todos os reco-recos tocarem Atira-se E — ó delicioso vôo! Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada, Outra vez criança… E em torno dela indagará o povo: — Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes? E ela lhes dirá (É preciso dizer-lhes tudo de novo!) Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam: — O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA… de Mário Quintana in "Nova Antologia Poética".
Sou um estrangeiro, e há na vida do estrangeiro uma solidão pesada e
um isolamento doloroso. Sou assim levado a pensar sempre numa pátria
encantada que não conheço, e a sonhar com os sortilégios de uma terra
longínqua que nunca visitei.
Sou um estrangeiro para minha alma.
Quando minha língua fala, meu ouvido estranha-lhe a voz. Quando meu Eu
interior ri ou chora, ou se entusiasma, ou treme, meu outro Eu estranha o
que ouve e vê, e minha alma interroga minha alma. Mas permaneço
desconhecido e oculto, velado pelo nevoeiro, envolto no silêncio.
Sou
um estrangeiro para o meu corpo. Todas as vezes que me olho num
espelho, vejo no meu rosto algo que minha alma não sente, e percebo nos
meus olhos algo que minhas profundezas não reconhecem.
Quando
caminho nas ruas da cidade, os meninos me seguem gritando: “Eis o cego,
demos-lhe um cajado que o ajude.” Fujo deles. Mas encontro outro grupo
de moças que me seguram pelas abas da roupa, dizendo: “É surdo como a
pedra. Enchamos seus ouvidos com canções de amor e desejo.” Deixo-as
correndo. Depois, encontro um grupo de homens que me cercam, dizendo: “É
mudo como um túmulo, vamos endireitar-lhe a língua.” Fujo deles com
medo. E encontro um grupo de anciãos que apontam para mim com dedos
trêmulos, dizendo: “É um louco que perdeu a razão ao freqüentar as fadas
e os feiticeiros.”
Sou um estrangeiro neste mundo.
Sou um
estrangeiro e já percorri o mundo do Oriente ao Ocidente sem encontrar
minha terra natal, nem quem me conheça ou se lembre de mim.
Acordo
pela manhã, e acho-me prisioneiro num antro escuro, freqüentado por
cobras e insetos. Se sair à luz, a sombra de meu corpo me segue, e as
sombras de minha alma me precedem, levando-me aonde não sei,
oferecendo-me coisas de que não preciso, procurando algo que não
entendo. E quando chega a noite, volto para a casa e deito-me numa cama
feita de plumas de avestruz e de espinhos dos campos.
Idéias
estranhas atormentam minha mente, e inclinações diversas, perturbadoras,
alegres, dolorosas, agradáveis. À meia-noite, assaltam-me fantasmas de
tempos idos. E almas de nações esquecidas me fitam. Interrogo-as,
recebendo por toda resposta um sorriso. Quando procuro segura-las, fogem
de mim e desvanecem-se como fumaça.
Sou um estrangeiro neste mundo.
Sou um estrangeiro e não há no mundo quem conheça uma única palavra do idioma de minha alma...
Caminho
na selva inabitada e vejo os rios correrem e subirem do fundo dos vales
ao cume das montanhas. E vejo as árvores desnudas se cobrirem de folhas
num só minuto. Depois, suas ramas caem no chão e se transformam em
cobras pintalgadas.
E as aves do céu voam, pousam, cantam,
gorgeiam e depois param, abrem as asas e viram mulheres nuas, de cabelos
soltos e pescoços esticados. E olham para mim com paixão e sorriem com
sensualidade. E estendem suas mãos brancas e perfumadas. Mas, de
repente, estremecem e somem como nuvens, deixando o eco de risos
irônicos.
Sou um estrangeiro neste mundo.
Sou um poeta que
põe em prosa o que a vida põe em versos, e em versos o que a vida põe
em prosa. Por isto, permanecerei um estrangeiro até que a morte me rapte
e me leve para minha pátria.
de Khalil Gibran ***Robbie Basho - Khalil Gibran
Traduçao livre
Khalil Gibran, Deus inflingiu sofrimento aos cedros do Líbano; - Allah Nazul, Allah Rahim (Deus Misericordioso) Senhor, olhai para baixo e reparai as nossas asas quebradas. Na Tua Hora Sombria, quando a ira de Satanás encarou e furtou as Tuas Sagradas Flores; - Allah Nazul, Allah Rahim; Senhor, olhai para baixo, reparai as nossas asas quebradas. E quando o Rouxinol cantar a sua canção de amor à Rosa, Ela virá novamente, mais clara do que ela aparece agora, Envolta em azul, aos pés da Lua. Que o Teu Reino chegue; assim na Terra como no Céu Será feita a Tua Vontade, Allah Nazul, Allah Rahim, Senhor, olhai para baixo e reparai as nossas asas quebradas. YA ABUI, YA ABUI (Oh, Pai) E quando o rouxinol cantar sua canção de amor para a Rosa, Ele virá novamente, mais claro do que Ele aparece agora Vestido de branco, a volitar como se estivesse numa nuvem - YA ABUI, YA ABUI (Oh, Pai) Oh, meu coração.
Adotarei o amor por companheiro e o escutarei cantando, e o beberei como vinho, e o usarei como vestimenta.
Na aurora, o amor me acordará e me conduzirá aos prados distantes.
Ao meio dia, conduzir-me-á à sombra das árvores onde me protegerei do sol como os pássaros.
Ao entardecer conduzir-me-á ao poente, onde ouvirei a melodia da natureza despedindo-se da luz, e contemplarei as sombras da quietude adejando no espaço.
À noite, o amor abraçar-me-á, e sonharei com os mundos superiores onde moram as almas dos enamorados e dos poetas.
Na primavera, andarei com o amor, lado a lado, e cantaremos juntos entre as colinas; e seguiremos as pegadas da vida, que são as violetas e as margaridas; e beberemos a água da chuva, acumulada nos poços, em taças feitas de narciso e lírios.
No verão, deitar-me-ei ao lado do amor sobre camas feitas com feixes de espigas, tendo o firmamento por cobertor e a lua e as estrelas por companheiras.
No outono, irei com o amor aos vinhedos e nos sentaremos no lagar, e contemplaremos as árvores se despindo das suas vestimentas douradas e os bandos de aves migratórias voando para as costas do mar.
No inverno, sentar-me-ei com o amor diante da lareira e conversaremos sobre os acontecimentos dos séculos e os anais das nações e povos.
O amor será meu tutor na juventude, meu apoio na maturidade, e meu consolo na velhice.
O amor permanecerá comigo até o fim da vida, até que a morte chegue, e a mão de Deus nos reuna de novo.
de Khalil Gibran
Fairuz فيروز - Al Mahabba (Do Amor - trecho de O profeta de Khalil Gibran)
* Para minhas queridas gibranetes: Raquel, Isa e Telma...