domingo, 30 de setembro de 2012
A Leitora
A leitora abre o espaço num sopro subtil.
Lê na violência e no espanto da brancura.
Principia apaixonada, de surpresa em surpresa.
Ilumina e inunda e dissemina de arco em arco.
Ela fala com as pedras do livro, com as sílabas da sombra.
Ela adere à matéria porosa, à madeira do vento.
Desce pelos bosques como uma menina descalça.
Aproxima-se das praias onde o corpo se eleva em chama de água.
Na imaculada superfície ou na espessura latejante, despe-se das formas,
branca no ar. É um torvelinho harmonioso, um pássaro suspenso.
A terra ergue-se inteira na sede obscura de palavras verticais.
A água move-se até ao seu princípio puro.
O poema é um arbusto que não cessa de tremer.
de António Ramos Rosa, in "Volante Verde"
domingo, 23 de setembro de 2012
Rascunho
A gente é rascunho de pássaro
Não acabaram de fazer…
de Manoel de Barros, in "Matéria de poesia" (1974)
* Postagem especialmente dedicada a amiga Tel Mont (http://lectusexlibris.blogspot.com.br/ e https://www.facebook.com/ALoucaDaBiblioteca) - que está sempre a voar fora das asas nessas bandas vituais!
quinta-feira, 13 de setembro de 2012
Simplicidade
Queria, queria
Ter a singeleza
Das vidas sem alma
E a lúcida calma
Da matéria presa.
Queria, queria
Ser igual ao peixe
Que livre nas águas
Se mexe;
Ser igual em som,
Ser igual em graça
Ao pássaro leve,
Que esvoaça...
Tudo isso eu queria!
(Ser fraco é ser forte).
Queria viver
E depois morrer
Sem nunca aprender
A gostar da morte.
Pedro Homem de Mello, in "Estrela Morta"
segunda-feira, 3 de setembro de 2012
Z
As formas, as sombras, a luz que descobre a noite
e um pequeno pássaro
e depois longo tempo eu te perdi de vista
meus braços são dois espaços enormes
os meus olhos são duas garrafas de vento
e depois eu te conheço de novo numa rua isolada
minhas pernas são duas árvores floridas
os meus dedos uma plantação de sargaços
a tua figura era ao que me lembro da cor do jardim.
de António Maria Lisboa, in "Ossóptico e Outros Poemas"
Assinar:
Postagens (Atom)



