O poema não voa de asa-delta não mora na Barra não freqüenta o Maksoud. Pra falar a verdade, o poema não voa: anda a pé e acaba de ser expulso da fazenda Itupu pela polícia.
Come mal dorme mal cheira a suor, parece demais com o povo: é assaltante? é posseiro? é vagabundo? frequentemente o detêm para averiguações às vezes o espancam às vezes o matam às vezes o resgatam da merda por um dia e o fazem sorrir diante das câmeras da TV de banho tomado.
O poema se vende se corrompe confia no governo desconfia de repente se zanga e quebra trezentos ônibus nas ruas de Salvador.
O poema é confuso mas tem o rosto da história brasileira: tisnado de sol cavado de aflições e no fundo do olhar, no mais fundo, detrás de todo o amargor, guarda um lampejo um diamante duro como um homem e é isso que obriga o exército a se manter de prontidão.