segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Meu Sonho




Parei as águas do meu sonho
para teu rosto se mirar.
Mas só a sombra dos meus olhos
ficou por cima, a procurar...
Os pássaros da madrugada
não têm coragem de cantar,
vendo o meu sonho interminável
e a esperança do meu olhar.
Procurei-te em vão pela terra,
perto do céu, por sobre o mar.
Se não chegas nem pelo sonho,
por que insisto em te imaginar?
Quando vierem fechar meus olhos,
talvez não se deixem fechar.
Talvez pensem que o tempo volta,
e que vens, se o tempo voltar.


de Cecília Meirelles

domingo, 23 de outubro de 2011

Exiladas...




Companheiros, é de lua
A noite que vem chegando.
Para engolir o meu pranto
Que eu não saiba de outras vidas
Nem dos que estão se matando.
Já tive tanta desdita
Que é preciso ir inventando
Caminhos novos, veleiros (Além do mais navegando
Se conhece o marinheiro).
Verdade é o que tu me dizes:
O amor, poeta,
É alegria.

Por isso é que estou tramando
Viagens, vínculos, dádivas
Por isso a noite é de lua
E o coração é de brasa.
Não quero saber de herdeiros
Partilhando o meu encanto.
Inúmeras as viuvezes
Para uma vida tão pouca
E de amor...
Ai, tantas vezes
Minhas asas, exiladas
Incendiaram as estrelas.
E nos sentires, nos tatos
Em todos os meus adeuses
O amor se reinventava
A si mesmo, tanto, tanto.
(Mas afinal é de pranto
O amor que se diz contente?)

Companheiros, é de lua
A noite que vem chegando.
E uma lua nas alturas
Tem tal força, tais ardências...
Senão vejamos: Eu poeta
Nesta e noutras existências,
Cantando o do amor mais triste
(Onde se meteu a lua?)
Cantei-me. De amor contente.


de Hilda Hilst

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Menina seu mundo




I

Corre contra o vento
o cabelo em liberdade,
Flor da infância não toca o tempo no espaço
em que demora
sem medida ou marca.

Só vê o ar que sem olhos se comove em volta.
Cumprimenta os bichos
a água o jardim.
Nas nuvens se extasia
porque têm formas do impossível.
E tudo é um
na trama de seus dias.

II


Menina para onde vais
voando com folhas pássaros
a natureza levando
presa no passo ligeiro?
Corre o vento nos teus cachos
suaves
atalhos castanhos
corre a terra nos teus passos
ágil tentando alcançar-te corre o sol as águas correm
debatendo-se na luz
e quando paras
o passo prossegue
sem que te movas

de Dora Ferreira da Silva

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Amou...




LIII

Cadenciadas
Vão morrendo as palavras
Na minha boca.
Um sudário de asas
Há de ser agasalho
E pátria para o corpo.
Anônimo, calado
O poeta contempla
Espelho e mágoa

Fragmentos de um veio
Berçário de palavras.

Umas lendas volteiam
O poeta vazio de seus meios:
Escombros, escadas

Amou de amor escuro

A fugiu de si mesmo
De sua própria cilada.

O poeta. Mudo.
Aceitável agora para o mundo
No seu sudário de asas.

de Hilda Hilst in Cantares de perda e predileção
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