Caminho. E a verdade
É que vejo alguns portais
E entre as grades uns pássaros a leste.
Não sabem de seus passos os meus pés
Nem de mim mesma sei
Mas tantas timidezes se esvaíram
E este meu corpo agora não as tem.
E atravessando os mármores e os muros
Como se fossem mais muros de vento,
Passeio nos jazigos
E um cordeiro de pedra eu apascento.
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Também nos claros, na manhã mais plena,
A retina ferida nesse vôo que passa além do verde,
É sempre a morte o sopro de um poema.
Entre uma pausa e outra ela ressurge
Ilharga de sol. Ah, diante do efêmero
Hei de cantar mais alto, sem o freio
De uns cantares longínquos, assustados.
Rafal Olbinski - Still Life, Calendar of Yesterdays Wishes
Vai-se a primeira pomba despertada... Vai-se outra mais... mais outra... enfim dezenas De pombas vão-se dos pombais, apenas Raia sanguínea e fresca a madrugada... E à tarde, quando a rígida nortada Sopra, aos pombais de novo elas, serenas, Ruflando as asas, sacudindo as penas, Voltam todas em bando e em revoada... Também dos corações onde abotoam, Os sonhos, um por um, céleres voam, Como voam as pombas dos pombais; No azul da adolescência as asas soltam, Fogem... Mas aos pombais as pombas voltam, E eles aos corações não voltam mais... de Raimundo da Mota de Azevedo Correia
Dame La Mano, Palomba - Ladino Music (Jewish Music)
Corta o Ar do Ar — Divide a Luz, se puderes — Eles se acharão Cubos numa Gota Ou Grãos num Vaso Vão Névoas não anulam Odores volvem Força a Flama E com um Louro impulso Ante a tua impotência Voa a Chama. ** Escondo-me na minha flor, Para que, murchando em teu Vaso, tu, insciente, me procures – Quase uma solidão.
***
O Abrir e o Fechar Do Ser é igual e Desigual, se o for, À Flor no Caule.
(...)Conto a história de Sabá ao estilo dos amantes. Quando a brisa levou as palavras de Salomão para aquele jardim, Foi como quando os corpos encontram as almas na ressurreição, Ou quando os meninos voltam para seus amados lares. O povo do amor está escondido entre os povos, Como um homem generoso cercado pela insolência dos vis. As almas são desgraçadas pela união com os corpos, Os corpos são enobrecidos pela união com as almas. Levantai-vos, ó amantes; essa brisa doce é vossa; Vós sois aqueles que perduram; a vida eterna é vossa. Ó!, vós que buscais, levantai-vos e sede saciados de amor, Aspirai o perfume de Yussuf (José)! Aproxima-te, ó Salomão, tu que conheces a linguagem dos pássaros, Faz soar o trinado de cada pássaro que se aproxima. Quando Deus enviou-te aos pássaros, Primeiro ensinou-te os trinados de todos os pássaros. Ao pássaro que crê na predestinação, fala da predestinação, Ao pássaro com asas quebradas, prega a paciência, Ao paciente fazedor do bem, prega consolo e perdão, Ao espiritual Anka, conta as glórias do Monte Qaf, Ao pombo, prega que evite o falcão, Ao nobre falcão, a misericórdia e o autocontrole; Quanto ao morcego, que vaga impotente na escuridão, Procura familiarizá-lo com a sociedade da luz; À perdiz, ensina a paz, Ao galo, os sinais da alvorada. Dessa forma, lida com todos, da poupa à águia. Fragmento de Rumi, in Prédica de Salomão ao Povo de Bilquis Encontrado em Sigillum Militum Christi.
Responder a perguntas não respondo. Perguntas impossíveis não pergunto. Só do que sei de mim aos outros conto: de mim, atravessada pelo mundo. Toda a minha experiência, o meu estudo, sou eu mesma que, em solidão paciente, recolho do que em mim observo e escuto muda lição, que ninguém mais entende. O que sou vale mais do que o meu canto. Apenas em linguagem vou dizendo caminhos invisíveis por onde ando. Tudo é secreto e de remoto exemplo. Todos ouvimos, longe, o apelo do Anjo. E todos somos pura flor de vento. de Cecília Meireles
Na língua dos pássaros uma expressão tinge
a seguinte. Se é vermelha tinge a outra de vermelho. Se é alva tinge a outra dos lírios da manhã. É língua muito transitiva a dos pássaros. Não carece de conjunções nem de abotoaduras. Se comunica por encantamentos.
E por não ser contaminada de contradições A linguagem dos pássaros Só produz gorjeios.
A noite já nos espreita
e permaneço esquecida
à beira do meu destino.
És tardo porque ignoras
que vivo do que adivinho.
Repele a palavra esquiva
não te cubras de distância,
estende um lenço, um soluço,
troca teus olhos de ausente
por dois claros de esperança.
E vem, que te aguardo ainda
nesses linhos de aconchego,
em braços de puro embalo,
em plumagens de mornura,
em claras nuvens de espuma.
Enquanto não me descobres
me perco em falas menores,
me reparto sem vontade,
tropeço pedras amargas,
naufrago secretos mares. de Lara de Lemos