sábado, 13 de novembro de 2021

Sonhamos o voo mas tememos a altura




Os homens dizem amar a liberdade, mas, de posse dela, são tomados por um grande medo e fogem para abrigos seguros. A liberdade dá medo. Os homens são pássaros que amam o voo, mas têm medo dos abismos. Por isso abandonam o voo e se trancam em gaiolas.

Somos assim: sonhamos o voo mas tememos a altura. Para voar é preciso ter coragem para enfrentar o terror do vazio. Porque é só no vazio que o voo acontece. O vazio é o espaço da liberdade, a ausência de certezas. Mas é isso o que tememos: o não ter certezas. Por isso trocamos o voo por gaiolas. As gaiolas são o lugar onde as certezas moram.

É um engano pensar que os homens seriam livres se pudessem, que eles não são livres porque um estranho os engaiolou, que eles voariam se as portas estivessem abertas. A verdade é oposto. Não há carcereiros. Os homens preferem as gaiolas aos voos. São eles mesmos que constroem as gaiolas em que se aprisionam…

Fiódor Dostoievsky


Canção do Mar by Pelageya & Elmira kalimulina





quarta-feira, 13 de outubro de 2021

Não te rendas



Não te rendas, ainda estás a tempo
de alcançar e começar de novo,
aceitar as tuas sombras
enterrar os teus medos,
largar o lastro,
retomar o voo.

de A.D.


Ana Moura - Andorinhas 






segunda-feira, 13 de setembro de 2021

Um exercício



Viver, às vezes, é tão isto: um exercício ora encantado ora mordaz de equilíbrio. Se nos falhar o chão, é nos fios invisíveis da Alma que retomamos o alento. E quando o percurso for acompanhado de nuvens e sombras, acreditem que na frente se estenderão corações, cujas ASAS se abrem ao vento a indicar um novo caminho.

de Feliz Mente

Zélia Duncan - Quem Canta Seus Males Espanta (Itamar Assumpção) 



sexta-feira, 13 de agosto de 2021

Canção Matinal dos Pássaros



Em cada fibra, nessa canção, meu coração vibra,
percute o ritmo em que pulsa a vida, meu coração.
Se ouço e marco cada compasso dessa cantiga,
que é tão antiga, que é mesmo eterna e rompe a ilusão,
sei que só então eu entenderei, falarei a língua
desse que foi e sempre será meu Supremo Rei.
Vendo o poema que rima o mundo até seus extremos,
sinto o segredo de cada verso, de cada Lei.
E sei que é assim é que se celebra a humana magia,
pois que, um dia, não sofrerei mais por dor ou medo.
Já somarei o meu coração a essa sinfonia,
e a harmonia irá, então, tecer seu enredo.
Em sintonia com a Lei do Mundo, em um novo dia,
a cada gesto, seguir a vida, em seu andamento.
Na marcação do Senhor do Mundo, Maior Maestro,
na intuição das vozes da vida a cada momento.


de Lúcia Helena Galvão Maya, in Poesia para Despertar Sophia


Rosa Zaragoza - Canto carnático

terça-feira, 13 de julho de 2021

Da amizade



A amizade é como um pássaro
Gosta de liberdade, de ir e vir
Sem amarras e grilhões

A amizade é como um pássaro
Gosta de pousar mansinho
No ninho do coração
Aquecer-se com abraços
Alimentar-se de ternura

A amizade é como um pássaro
Quando há confiança
Ela sempre volta e cresce
E enaltece ainda mais
Um sentimento chamado amor



de Denise Severgnini




domingo, 13 de junho de 2021

CANCIÓN OTOÑAL



Hoy siento en el corazón
un vago temblor de estrellas,
pero mi senda se pierde
en el alma de la niebla.
La luz me troncha las alas
y el dolor de mi tristeza
va mojando los recuerdos
en la fuente de la idea.

Todas las rosas son blancas,
tan blancas como mi pena,
y no son las rosas blancas,
que ha nevado sobre ellas.
Antes tuvieron el iris.
También sobre el alma nieva.
La nieve del alma tiene
copos de besos y escenas
que se hundieron en la sombra
o en la luz del que las piensa.

La nieve cae de las rosas,
pero la del alma queda,
y la garra de los años
hace un sudario con ellas.

¿Se deshelará la nieve
cuando la muerte nos lleva?
¿O después habrá otra nieve
y otras rosas más perfectas?

¿Será la paz con nosotros
como Cristo nos enseña?
¿O nunca será posible
la solución del problema?

¿Y si el amor nos engaña?
¿Quién la vida nos alienta
si el crepúsculo nos hunde
en la verdadera ciencia
del Bien que quizá no exista,
y del Mal que late cerca?

¿Si la esperanza se apaga
y la Babel se comienza,
qué antorcha iluminará
los caminos en la Tierra?

¿Si el azul es un ensueño,
qué será de la inocencia?
¿Qué será del corazón
si el Amor no tiene flechas?

¿Si la muerte es la muerte,
qué será de los poetas
y de las cosas dormidas
que ya nadie las recuerda?
¡Oh sol de las esperanzas!
¡Agua clara! ¡Luna nueva!
¡Corazones de los niños!
¡Almas rudas de las piedras!
Hoy siento en el corazón
un vago temblor de estrellas
y todas las rosas son
tan blancas como mi pena.


De Federico García Lorca


Cucurucucu - Lilla Downs



quinta-feira, 13 de maio de 2021

Un consejo



Un pájaro que murió me dio un consejo: ten siempre en la mente el vuelo.

de Forugh Farrokhzad


Moseme Gol_Tara Tiba _موسم گل_تارا تیبا


terça-feira, 13 de abril de 2021

Pássaros e Peixes




O tempo é na verdade o do retorno.

Pensa como se agora fôssemos argila

E estivéssemos sós e mudos, lado a lado.

Por um momento (se viessem chuvas)

Talvez se misturasse o meu corpo com o teu

E um gosto de terra úmida aproximasse


Brandamente

As nossas bocas.


Que seja assim lembrada a tua ausência:

Como se nunca tivéssemos nascido

Sangue e nervos. Como se nunca tivéssemos

Conhecido a verdade e a beleza do amor.

Pensa como seria se não fôssemos.

E não houvesse o pranto, o ódio, o desencontro.

O tempo é na verdade o do retorno.

Se não for amanhã, será um dia.

O céu azul e limpo, o mar tranqüilo

Pássaros e peixes, pássaros e peixes


Mais nada.



(de Hilda Hilst, in “Roteiro do Silêncio” - DO AMOR CONTENTE E MUITO DESCONTENTE)


+

As    águas,    meu    ódio-amor.     

Uma    boca    de    seixos     
Um    oco    de    palavras     
Um    sumidouro    de    fomes     
        
    
E    de    asas     
Teu    ódio-escama     
Sobre    o    meu    desejo.     
    
As    águas,    meu    ódio-amor.     
Mulheres    afogadas     
Eu-muitas     
De    litígio,    escureza     
E    a    sedução    de    me    pensares     
Presa     
Me    sabendo    invasão.     
E    ungüento    sobre    a    tua    mágoa.     
Flores,    graças     
Para    que    os    nossos    corpos     
Se    lavem    dessas    águas     
    
Caridosos    com    a    carne    e    as    ilusões.    


(de Hilda Hilst, in CANTARES)

quarta-feira, 3 de março de 2021

Em segredo, não vá

Em segredo, não vá
Qualquer cousa erguer
O vulto de onde está
A esquecer…

Em segredo, não seja
Verdade o mundo, e vão
Tudo quanto deseja
O coração…

Em segredo, em segredo
Que o mais que há seja a alada
Cousa que entre o arvoredo
Não era nada.


(de Fernando Pessoa)


Ayshe wa7da balak


sábado, 13 de fevereiro de 2021

SEIS OU TREZE COISAS QUE EUAPRENDI SOZINHO


Com cem anos de escória uma lata aprende a rezar.
Com cem anos de escombros um sapo vira árvore e cresce por cima das pedras até dar leite.
Insetos levam mais de cem anos para uma folha sê-los.
Uma pedra de arroio leva mais de cem anos para ter murmúrios.
Em seixal de cor seca estrelas pousam despidas.
Mariposas que pousam em osso de porco preferem melhor as cores tortas.
Com menos de três meses mosquitos completam a sua eternidade.
Um ente enfermo de árvore, com menos de cem anos, perde o contorno das folhas.
Aranha com olho de estame no lodo se despedra.
Quando chove nos braços da formiga o horizonte diminui.
Os cardos que vivem nos pedrouços têm a mesma sintaxe que os escorpiões de areia.
A jia, quando chove, tinge de azul o seu coaxo.
Lagartos empernam as pedras de preferência no inverno.
O vôo do jaburu é mais encorpado do que o vôo das horas.
Besouro só entra em amavios se encontra a fêmea dele vagando por escórias...
A quinze metros do arco-íris o sol é cheiroso.
Caracóis não aplicam saliva em vidros; mas, nos brejos, se embutem até o latejo.
Nas brisas vem sempre um silêncio de garças.
Mais alto que o escuro é o rumor dos peixes.
Uma árvore bem gorjeada, com poucos segundos, passa a fazer parte dos pássaros que a gorjeiam.
Quando a rã de cor palha está para ter — ela espicha os olhinhos para Deus.
De cada vinte calangos, enlanguescidos por estrelas, quinze perdem o rumo das grotas.
Todas estas informações têm soberba desimportância científica — como andar de costas.


de Manoel de Barros

A Rã - Ithamara Koorax


terça-feira, 12 de janeiro de 2021

Como eu iria saber?



Pergunto-me, pergunto-me:

"Para quem e por que, esta insanidade deve acontecer?" 

Mas o que sei eu? Como eu iria saber?”


Pergunto-me, pergunto-me:

"Para que serve essa devastação, por que esse desespero deve ocorrer?"

Mas o que sei eu? Como eu iria saber?”


Pergunto-me, pergunto-me:

“O que tu te tornas depois? Qual é a tua finalidade?

Salve o reino das luzes, o que estás a pretender?

Mas o que sei eu? Como eu iria saber? Como eu poderia saber?”


Pergunto-me, pergunto-me:

“Tu disseste que és um pássaro indomável!

Então, para que serve esta gaiola? Então, para que servem estas correntes? ”

Mas o que sei eu? Como eu iria saber? O que sei eu?



de Jalal-ad-Dīn Muhammad Rumi - a partir da tradução de Maryam Dilmaghani.



Mohsen Namjoo - Maryam
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