sexta-feira, 30 de novembro de 2012
Antiqüíssima ave
IX
Uma mulher suspensa entre as linhas e os dentes.
Antiqüíssima ave, marionete de penas
As asas que pensou lhe foram arrancadas.
Lavado de luzes, um deus me movimenta.
Indiferente. Bufo.
de Hilda Hilst
sexta-feira, 23 de novembro de 2012
Todos os Dias
Todos os dias
nascem pequeninas nuvens,
róseas umas,
aniladas outras,
nacaradas espumas...
Todos os dias
nascem rosas,
também róseas
ou cor de chá, de veludo...
Todos os dias
nascem violetas,
as eleitas
dos pobres corações...
Todos os dias
nascem risos, canções...
Todos os dias
os pássaros acordam
nos seus ninhos de lãs...
Todos os dias
nascem novos dias,
nascem novas manhãs...
de Saúl Dias, in "Essência"
terça-feira, 13 de novembro de 2012
Há um tempo
Há um tempo de subir as ruas, as árvores,
as serras. Tempo de asas, de respiros,
de pérolas na nuca. De desordem,
desassossego. De corrida sem espora
nem freio, de amor e desamor na mesma
cama, de fome sem mesa, de mesa
sem fome, de calor sempre. Subimos e
tomamos rédeas invisíveis de cavalos
brancos, de cavalos negros, de potros
nunca amansados. É um galope sobre
terras e águas, caminhos aprendidos
quando aportámos ao cais do corpo,
ainda luminoso, quente. Um dia vem
o pó e o cansaço amarra-nos os pulsos
do desejo. Não nos reconhecemos
nos espelhos e as palavras que dizemos
não fazem eco nas esferas. O esmorecer
do fogo é um requiem pelo amor envelhecido
nas escarpas violadas em silêncio,
no avesso dos ventos, no separar das águas.
de Licínia Quitério, em OS SÍTIOS
sábado, 3 de novembro de 2012
Asas de Pássaro
O luto daquilo que perdeste soergue um espelho
em direção ao teu trabalho mais destemido.
Observador do mundo, estás sempre à espera do pior. Mas ao invés
disso, encontras a face jubilosa que tanto desejavas encontrar.
Tuas mãos se abrem e se fecham, se abrem e se fecham.
Se fossem sempre punho ou se estivessem sempre abertas,
estarias paralisado.
Tua presença mais profunda emana de toda contração
e de toda expansão,
ambas esplendidamente equilibradas e coordenadas,
como as asas de um pássaro.
de Jalal Ud-Din Rumi (Tradução de Lucas Haas Cordeiro)
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