segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Fábula - O pássaro e a flor

Era num dia sombrio
Quando um pássaro erradio
Veio parar num jardim.
Aí fitando uma rosa,
Sua voz triste e saudosa,
Pôs-se a improvisar assim.

"ó Rosa, ó Rosa bonita!
Ó Sultana favorita
Deste serralho de azul:
Flor que vives num palácio,
Como as princesas de Lácio,
Como as filhas de 'Stambul.

Corno és feliz! Quanto eu dera
Pela eterna primavera
Que o teu castelo contém...
Sob o cristal abrigada,
Tu nem sentes a geada
Que passa raivosa além.

Junto às estátuas de pedra
Tua vida cresce, medra,
Ao fumo dos narguillés,
No largo vaso da China
Da porcelana mais fina
Que vem do Império Chinês.

O Inverno ladra na rua,
Enquanto adormeces nua
Na estufa até de manhã.
Por escrava — tens a aragem
O sol — é teu louro pajem.
Tu és dele — a castelã.

Enquanto que eu desgraçado,
Pelas chuvas ensopado,
Levo o tempo a viajar,
— Boêmio da média idade,
Vou do castelo à cidade,
Vou do mosteiro ao solar!

Meu capote roto e pobre
Mal os meus ombros encobre
Quanto à gorra... tu bem vês! ...
Ai! meu Deus! se Rosa fora
Como eu zombaria agora
Dos louros dos menestréis!. . .

............................................

Então por entre a folhagem
Ao passarinho selvagem
A rosa assim respondeu:
"Cala-te, bardo dos bosques!
Ai! não troques os quiosques
Pela cúpula do céu.

Tu não sabes que delírios
Sofrem as rosas e os lírios
Nesta dourada prisão.
Sem falar com as violetas.
Sem beijar as borboletas,
Sem as auras do sertão.

Molha-te a fria geada...
Que importa? A loura alvorada
Virá beijar-te amanhã.
Poeta, romperás logo,
A cada beijo de fogo,
Na cantilena louçã.

Mas eu?! Nas salas brilhantes
Entre as tranças deslumbrantes
A virgem me enlaçará
Depois cadáver de rosa
A valsa vertiginosa
Por sobre mim rolará.

Vai, Poeta... Rompe os ares
Cruza a serra, o vale, os mares
Deus ao chão não te amarrou!
Eu calo-me — tu descansas,
Eu rojo — tu te levantas,
Tu és livre — escrava eu sou! ...

de Castro Alves

terça-feira, 23 de novembro de 2010

que era de asas



Oh, quanto me pesa
este coração, que é de pedra!
Este coração que era de asas
de música e tempo de lágrimas.

Mas agora é sílex e quebra
qualquer dura ponta de seta.

Oh, como não me alegra
ter este coração de pedra!

Dizei por que assim me fizestes,
vós todos a quem amaria,
mas não amarei, pois sois estes
que assim me deixastes, amarga,
sem asas, sem música e lágrimas,

assombrada, triste e severa
e com meu coração de pedra!

Oh, quanto me pesa
ver meu próprio amor que se quebra!
O amor que era mais forte e voava
mais que qualquer seta!


de Cecília Meireles

sábado, 13 de novembro de 2010

em eterna fusão





Há um pássaro enraizado na pedra,
Que vive dentro do meu coração,
Seu canto agudo e torturado medra,
Amor ao peito do mais severo capitão.
Meu imperfeito olhar castanho redra,
No azul do céu as nuvens da escuridão,
Bico adunco, eu afasto camadas da esfera,
E vejo o universo em toda amplidão.
Ah, visão em constante inversão!
As asas rastejam na vida em queda,
Nada afasta a dor e a consternação,
Do pássaro sofrido sobre a pedra,
Que está com ela em eterna fusão.

de
Betha Costa

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Ouvir os pássaros cantar



Deixe-me ir
Preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir prá não chorar
Deixe-me ir
Preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir prá não chorar...

Quero assistir ao sol nascer
Ver as águas dos rios correr
Ouvir os pássaros cantar
Eu quero nascer
Quero viver...

Deixe-me ir
Preciso andar

Vou por aí a procurar

Rir prá não chorar

Se alguém por mim perguntar

Diga que eu só vou voltar

Depois que me encontrar...



de Cartola


sábado, 30 de outubro de 2010

Eles sabem que possuem asas




Sede como os pássaros que, ao pousarem um instante sobre ramos muito leves, sentem-nos ceder, mas cantam! Eles sabem que possuem asas.

de Victor Hugo

sábado, 23 de outubro de 2010

estranha companhia




Aqui - calçada de pássaros -
veem-se coisas que poderiam não pousar

nos olhos.

Sem perturbá-las

caminha-se
na mesma direção

e passada a surpresa de termos nascido

nós
nelas e
elas em nós
vê-se que esta simples comunhão
muda o sentido dos dias.
O ensimesmar-se com o impresvito:

estranha companhia.


de Dora Ferreira da Silva (in Poemas da Estrangeira)

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Ano Novo



Prepara-se o jardim.

Há um movimento do botão à flor

Em câmara lenta.

O rosto pequeno das violetas

Esconde seu perfume nas folhas

Sussurrando segredos

salta o sabiá na aragem

e suplica à rosa de ontem

que não desfolhe seu rubor.


Promete a nova noite

a estrela que quisermos.

O CISNE – constelação que amamos –

cintila noutro céu.

Entre ar e folhagem

o pedido calado alcança

um pássaro estelar.


de Dora Ferreira da Silva (in Poemas da Estrangeira, 1995)

domingo, 3 de outubro de 2010

O Sabiá e a Rosa



Minha vida imprimo-a no vento
das horas ligeiras.

Quando a lua vier
já não terei segredos;
meu vestido será branco e longo
como lágrimas de um violino
que suspira e passa

Nos amores me amei
vendo-me nua de todo humano calor.

O sabiá calou-se.
Ir de branco tendo o coração ferido.


de Dora Ferreira da Silva (in Jardins, 1979)

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Apelo a um pássaro:




Giro em círculos concêntricos.
Concêntricos e inúteis

Empresta-me tuas asas

Um momento.

Quero voar com
simetria.


de Lara de Lemos

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Celas




Ainda se sobressalta

o coração do pássaro
quando ao acaso retorna
da inércia das horas
tecidas de tédio e desdita,
e recebe a réstia de sol,
num abraço

de Lara de Lemos

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Do perecível



Passa o rio, passa a voz
a face e o vento.
A concha é areia.
O peixe, pedra.
O muro, nada.

Passa o pássaro.

O homem é um nome
no túmulo,
um coração vazio
de conjugar futuros.
O amor uma onda
a refluir, um engano
de espera.

O tempo desenha
novas geometrias
para cada estação.
E as flores passam.

E nesse passo de passar
já somos outros e outro
é nosso abraço.


de Lara de Lemos

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Rima torta



aves
.......de ramo
....................em ramo

meu pensamento

............................de rima

.........................................em rima

.......................................................erra


até uma

..............que diz

...........................te amo

de Paulo leminski

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

O ausente




O inverno é que não estejas
senão nos olhos áridos da insônia
ai, que não estejas e o Sol já não aquece
e o mar não dança entre rochedos
e o pássaro é um triste voo
que adormece.

de Dora Ferreira da Silva

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Recado para um beija- flor



Pássaro que pousas de leve
não quero perder teu canto,
teu segredo. Quero-te assim efêmero.
Ainda que nossa vida seja breve
nada digas de tua sorte:
por que, quando e como vou perder-te.
Revela-me só teu levitar no vento
e onde te levará, um dia, a morte.


de Lara de Lemos

sábado, 31 de julho de 2010

Bastar-me-ia um...




“Bastar-me-ia um pássaro,
um só pássaro neste céu de inverno,
para que eu me fizesse alegria”.

de Lara de Lemos

sexta-feira, 23 de julho de 2010

A modo de pássaro precário




Foi sempre a distância mestra severa;

e o refúgio, nas árvores.
O Amor nas frondes,
o abrigo no vento,
lentos remos sulcando espaços: sua água, seu chão.
A modo de pássaro precário
sobreviveu à noite.
Partindo, completou-se.



Dora Ferreira da Silva
in Poesia Reunida
(São Paulo -1918-2006)

terça-feira, 13 de julho de 2010

Pássaros convulsos



chocam-se contra os postes
os pássaros
destilados pela noite
destroçam-se em vôo inatural

batem contra os ossos
surdos
contra os batentes
que não escutam o sangue
jorrar no escuro

de Vera Lúcia de Oliveira

sábado, 3 de julho de 2010

Valsas de Esquina de Mignone



Só um pássaro
e seu peso de orvalho tocando
o chão como se foram teclas.
Passa onde a graça
ilumina a cidade de ferro
subitamente atenta a essa beleza.

Nos jardins teimam rosas
delicadamente.
Violetas africanas
salpicam de ouro
muros escuros
e as princesas purpúreas
espiam dos balcões verdes
nas paredes florescidas:
dançam pétalas
dança a vida
nos jardins contentes
não termina a partitura
que se repete
sempre.

de Dora Ferreira da Silva

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Um pássaro em forma de coração?



Um coração e uma moça a voar?
Um sol a esperar ali embaixo.
Ou seria um ovo cozido, bem cortadinho, em pé?
A vida pressupõe tantas visões de um mesmo evento...
São possíveis tantas versões de um mesmo fato... Tudo pode.
Nada impede o que quer ser.

É questão de escolher.
A vida nada mais é que uma seqüência de escolhas.
E como faz pra viver quem tem dificuldade de escolher?
A vida pode te escolher. Ou não.
Melhor, então, é arregaçar as mangas e escolher você mesmo.
Afinal, é um pássaro, um coração ou uma moça? Você sabe?
E você escolhe o quê?
Nesta noite eu escolho a Paz.

de Felicidade

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Que é mais real?



Que é mais real,

O pássaro que voa e cruza o pátio como um suspiro de água
Ou o pássaro suspiro que imagino voando agora mesmo
— eu escritor —tão longe deste pátio?
Que é mais real,
O pássaro que voa em minha imaginação como um suspiro de água
Ou o que voa na água rubra que marcas estas linhas
Desenhando este pássaro?
Que é mais real,
a cauda aérea deste pássaro que meu sonho pinta
ou esta tinta rubra que reproduz o pensamento que o cria?
Que é mais real,
as asas do pássaro que canta enquanto cruza o ar deste pátio
ou o âmago do texto que o sonho e pinta?
Que é mais real?
Enfim, que é mais real?
O pássaro voador criado por minha pluma
ou tu, meu bom leitor, imaginado pelo pássaro?

de Carlos Trujillo

domingo, 13 de junho de 2010

Pássaro rebelde




Quando eu te amarei?
Meu Deus, não sei,
Talvez nunca, talvez amanhã.
Mas não hoje, isso é certo.

O amor é um pássaro rebelde
Que nada pode aprisionar
E é simplesmente em vão chamá-lo
Se para ele é conveniente recusar.
Nada pode ser feito, ameaçar ou suplicar
um fala, o outro cala;
E é o outro que prefiro
Não diz nada; mas me agrada.
Amor!

O amor é uma criança cigana,
que nunca, nunca conheceu lei alguma
Se não me amas, eu te amo,
Se eu te amo, proteja-te
Se não me amas,
Se não me amas, eu te amo!
Mas, se eu te amo,
Se eu te amo, proteja-te!

O pássaro que você pensou ter surpreendido
Bateu as asas e voou
O amor está longe, podes esperar por ele
Se não esperares mais por ele, ele chega!
Ao teu redor, depressa, depressa,
Ele vem, vai e depois vem de novo
Pensas em segurá-lo, ele te evita
Pensas em evitá-lo, ele te segura
Amor, amor, amor, amor!


De Georges Bizet in Carmen (Habanera)


quinta-feira, 3 de junho de 2010

Os pássaros de Vera




os pássaros de pedra dilatam as oferendas
os pássaros de carne batem-se contra as grades
os pássaros de lata arrulham nas ferrovias dos nervos
os pássaros de madeira mascam o macio dos músculos
os pássaros de papel voam para dentro das crases
os pássaros de carvão rabiscam suas asas no ventre
os pássaros de fogo puxam os pássaros de chuva
os pássaros de pano acalentam os pássaros de pranto

de Vera Lúcia de Oliveira

domingo, 30 de maio de 2010

Pássaro



Aquilo que ontem cantava
já não canta.
Morreu de uma flor na boca:
não do espinho na garganta.

Ele amava a água sem sede,
e, em verdade,
tendo asas, fitava o tempo,
livre de necessidade.

Não foi desejo ou imprudência:
não foi nada.
E o dia toca em silêncio
a desventura causada.

Se acaso isso é desventura:
ir-se a vida
sobre uma rosa tão bela,
por uma tênue ferida.

de Cecília Meirelles

domingo, 23 de maio de 2010

da vida



Este encontrei sem querer, voandim por aí, aresolvi postar:

Pru qui num voa do ninho
Solitário passarinho
Pra pudê si libertá?
Bate as asas cum mais força
Pensano naquela moça
Qui prometeu lhi esperá.

Parece qui tá amarrado
Cum aqueles nó apertado
Mariêiro sabe dá
Ô é visgo de jaquêra
grudado na plumagêra
lh’impidino di vúa?

(...)

de Guigo F.G.


P.S.: Sim, este é pra ti!

quinta-feira, 13 de maio de 2010

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Pájaro Bandido



Eleva a pluma, pássaro bandido

E imagina teu vôo na escritura

Essa dama que voa e que consola

E é mirada de luz lá nas alturas.



Traça raios em tinta

Que a aurora

Puríssima senhora

Torna suspiro a voz desnuda



de Carlos trujillo

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Estrela Funerária





A jovem abre o cofre
num gesto de silêncio.
Refletem suas pupilas
centelhas que se despedem:
pássaros no poente
- peitos de branda penugem -
onde a vida úmida se abriga.

O cofre se oferece
como se fora um fruto
ao gesto quase pesaroso
de esvaziá-lo de seu mistério…

Mas acrescenta o quase-sorriso
às pedras,
o sopro do infinito.

de Dora Ferreira da Silva

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Partitura com Lua



Notação de pássaros
no fio da rua:
mínimas semínimas pausas.
Sobre o piano rosas estremecem.

Cadências de alma sobressaltam um público
desalento e ao relento ressoam
algumas dissonâncias (tropel de potros

presos numa sala). Mas por acaso em pura sinfonia
pássaros refazem a partitura
no heptacorde dos fios da rua.
Ei-la tão plena do dia findo azulado
a lua soberana e alta
do sono deste outono.

de Dora Ferreira da Silva in Poemas em Fuga (1997)

terça-feira, 13 de abril de 2010

Pequena canção




Pássaro da lua,
que queres cantar,
nessa terra tua,
sem flor e sem mar?

Nem osso de ouvido
Pela terra tua.
Teu canto é perdido,
pássaro da lua...

Pássaro da lua,
por que estás aqui?
Nem a canção tua
precisa de ti!

de Cecília Meireles
in Vaga música

sábado, 3 de abril de 2010

da verdade






A verdade é como o canto de um pássaro, só se percebe quando se presta a devida atenção!

de autor desconhecido

terça-feira, 30 de março de 2010

Humildade

Link


Tanto que fazer!

livros que não se lêem, cartas que não se escrevem,

línguas que não se aprendem,

amor que não se dá,

tudo quanto se esquece.


Amigos entre adeuses,


crianças chorando na tempestade,

cidadãos assinando papéis, papéis, papéis...

até o fim do mundo assinando papéis.


E os pássaros detrás de grades de chuva.

E os mortos em redoma de cânfora.


(E uma canção tão bela!)



Tanto que fazer!

E fizemos apenas isto.

E nunca soubemos quem éramos,

nem para quê.


de Cecília Meirelles

terça-feira, 23 de março de 2010

Cada palavra uma folha



Cada palavra uma folha
no lugar certo.

Uma flor de vez em quando
no ramo aberto.
Um pássaro parecia
pousado e perto.
Mas não: que ia e vinha o verso
pelo universo.



de Cecília Meirelles



sábado, 13 de março de 2010

Alguém...



Alguém desfecha a flecha do vôo:
reflexo no vidro onde a chuva
penteia os cabelos.
Cantiva de muitas lágrimas
dos suspiros do vento
nesta casa pousada na montanha
aguardo criança flor anjo ou pássaro.
Pensamentos alígeros - andorinhas
nos aguaceiros de verão
traçam oblíquas, desaparecem
no céu que escurece.
Abraçada à minha alma
não sinto o tempo latejar por perto.
O incerto longe é a minha vocação.
O longe do longe onde talvez
estás sempre em despedida
do invólucro que não te retém. E eu
sempre atrás do aceno teu
do aroma que te esquece e se esvai.
Se um lenço de fino linho
se desprendesse de teus dedos (sonho meu)
o caçaria como a um pássaro
que longe vivia
e me pertencia.

de Dora Ferreira da silva

quarta-feira, 3 de março de 2010

Pássaro perdido




"Agora que não estás, deixa que rompa
O meu peito em soluços! Te enrustiste
Em minha vida; e cada hora que passa
É mais por que te amar, a hora derrama
O seu óleo de amor, em mim, amada...
E sabes de uma coisa? Cada vez
Que o sofrimento vem, essa saudade
De estar perto, se longe, ou estar mais perto
Se perto, – que é que eu sei! Essa agonia
De viver fraco, o peito extravasado
O mel correndo; essa incapacidade
De me sentir mais eu
(...)
Vai teu caminho que eu vou te seguindo
No pensamento e aqui me deixo rente
Quando voltares, pela lua cheia
Para os braços sem fim do teu amigo!
Vai tua vida, pássaro contente
Vai tua vida que estarei contigo!"

de Vinicius de Morais e de Tom Jobim - in Monólogo de Orfeu

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Pássaro e Mulher




Voltamos ao jardim
ao banco lavado pela chuva.
Pedimos o verde ao verde
a flor à flor
sem quebrar-lhe a haste. Bastaria a manhã.
(Nossa presença
desalinha ar e folhas
num frêmito.)


Mas se nada pedimos
como quem dorme seguindo a linha natural
do corpo
respiramos o puro abandono:
um pássaro alveja o azul (sem par)
ultrapassa o muro do possível
e assim damos um ao outro
a súbita presença
do Céu.

de Dora Ferreira da Silva

sábado, 13 de fevereiro de 2010

Pássaro e Mulher



Quem me prende
mais do que a terra?
Impossível o vôo
agora.
Quente fremente
a intenção de alguém.
Desfez-se a palidez
perdi meu vôo
nas grades de seu peito.
Aprísiona-me - grilhão -
o seio suave e
no calor do instante
a união.

de Dora Ferreira da Silva

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Habitas meu coração




Habitas meu coração: barbas de rei assírio
olhar de extensões alheias
a tempo e medida.
Tua voz tem asas de falcão e pousa
nas torres mais altas do meu ser
onde jamais me aventurei. É minha a tua solidão.
Sirvo-te em silêncio e às vezes
como a uma criança me apertas em teu peito:
acaricio então tua face estranho rei.
Outras vezes ouço passos ecoando
no enlace das colunas em seteiras escadas. Se grito
teu nome - és mil ressonâncias e seu eco em mim.

de Dora Ferreira da Silva



Para ti.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Mulher e Pássaro



Linha invisível
liga-me àquela
andorinha:
tato percorrendo
um trajeto
de comunhão. O pássaro
debate-se em meu peito.
Ou coração? A andorinha
se esvai na tarde. Leva consigo
o que não sei de mim.

de Dora Ferreira da Silva
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