terça-feira, 29 de dezembro de 2020
Nunca he visto a un pájaro celebrando el fin de año
terça-feira, 3 de novembro de 2020
Ansiedade
Sonho, e estranhos poderes difusos
Ajudam ao meu sonho iluminado;
Um som como o de chuva iminente
Rasteja ao meu encontro, alto silvando;
E eis que todas as horas esquecidas
Me cercam como uma névoa envolvente.
Os fantasmas dos meus perdidos eus
Tecem à minha volta falsa malha;
Vagos elfos, meus sonhos insonhados,
Fazem parte agora da minha carne;
E todo eu sou arquivos de sonhos
De não-ser de mim distanciados.
Posso tocar as coisas impalpáveis,
Sinto-me ao sol de passados dias;
Sons remotos como asas a voar,
Rodeiam os caminhos do espírito;
E do outro lado da grande colina
Um sino toca e chama p'ra rezar.
Mas eu estou cansado de sonhar,
Cansado de ser eu mesmo sempre
Sobre espaços desertos de parecer,
Jogador involuntário de um jogo
Com a vida, astro distante a brilhar
Em terras mortas, sem um nome ter.
De Fernando Pessoa, in Poesia Inglesa (I), pág.175, Assírio & Alvim
Madredeus - O Pastor
terça-feira, 13 de outubro de 2020
Como a flecha que sai do arco
Como a flecha que sai do arco,
Como o pássaro que voa da tua imaginação,
O absoluto há de fugir sempre
Do que é incerto.
“Escapo daqui e ali,
Para que minha beleza
Não se prenda a isso ou aquilo.
Como o vento, sei voar,
E por amor à rosa, sou como a brisa;
Também a rosa há de escapar do outono.”
Vê como se eclipsa este ser:
Até seu nome se desfaz
Ao sentir tua ânsia de pronunciá-lo.
Ele te escapará à menor tentativa
De fixar sua forma numa imagem:
A pintura sumirá da tela,
Os signos fugirão de teu coração.
de Rumi, Jalal ud-Din. In Poemas Místicos, Divan de Shams de Tabriz
domingo, 13 de setembro de 2020
Não feche as asas
Não há para ti palavras nem gritos, nem lar, nem minho.
Tens apenas duas asas e o céu sem caminhos!
Meu pássaro, escuta-me e não feches as asas!
de Rabindranath Tagore, in O Coração da Primavera
segunda-feira, 3 de agosto de 2020
Próverbios do Inferno
No tempo da semeadura, aprende; na colheita, ensina; no inverno, desfruta.
Conduz teu carro e teu arado por sobre os ossos dos mortos.
A estrada do excesso leva ao palácio da sabedoria.
A Prudência é uma solteirona rica e feia, cortejada pela Impotência.
Quem deseja, mas não age, gera a pestilência.
O verme partido perdoa ao arado.
Mergulha no rio quem gosta de água.
O tolo não vê a mesma árvore que o sábio.
Aquele, cujo rosto não se ilumina, jamais há de ser uma estrela.
A Eternidade anda apaixonada pelas produções do tempo.
A abelha atarefada não tem tempo para tristezas.
As horas de loucura são medidas pelo relógio; mas nenhum relógio mede as de sabedoria.
Os alimentos sadios não são apanhados com armadilhas ou redes.
Torna do número, do peso e da medida em ano de escassez.
Nenhum pássaro se eleva muito, se se eleva com as próprias asas.
Um cadáver não vinga as injúrias.
O ato mais sublime é colocar outro diante de ti.
Se o louco persistisse em sua loucura, acabaria se tornando Sábio.
A loucura é o manto da velhacaria.
O manto do orgulho é a vergonha.
As Prisões se constróem com as pedras da Lei, os Bordéis, com os tijolos da Religião.
O orgulho do pavão é a glória de Deus.
A luxúria do bode é a glória de Deus.
A fúria do leão é a sabedoria de Deus.
A nudez da mulher é a obra de Deus.
O excesso de tristeza ri; o excesso de alegria chora.
O rugir de leões, o uivar dos lobos, o furor do mar tempestuoso e da espada destruidora são fragmentos de eternidade grandes demais para os olhos humanos.
A raposa condena a armadilha, não a si própria.
Os júbilos fecundam. As tristezas geram.
Que o homem use a pele do leão; a mulher a lã da ovelha.
O pássaro, um ninho; a aranha, uma teia; o homem, a amizade.
O sorridente tolo egoísta e o melancólico tolo carrancudo serão ambos julgados sábios para que sejam flagelos.
O que hoje se prova, outrora era apenas imaginado.
A ratazana, o camundongo, a raposa, o coelho olham as raízes;
o leão, o tigre, o cavalo, o elefante olham os frutos.
A cisterna contém; a fonte derrama.
Um só pensamento preenche a imensidão.
Dizei sempre o que pensas, e o homem torpe te evitará.
Tudo o que se pode acreditar já é uma imagem da verdade.
A águia nunca perdeu tanto o seu tempo como quando resolveu aprender com a gralha.
A raposa provê para si, mas Deus provê para o leão.
De manhã, pensa; ao meio-dia, age; no entardecer, come; de noite, dorme.
Quem permitiu que dele te aproveitasses, esse te conhece.
Assim como o arado vai atrás de palavras, assim Deus recompensa orações.
Os tigres da ira são mais sábios que os cavalos da educação.
Da água estagnada espera veneno.
Nunca se sabe o que é suficiente até que se saiba o que é mais que suficiente.
Ouve a reprovação do tolo! É um elogio soberano!
Os olhos, de fogo; as narinas, de ar; a boca, de água; a barba, de terra.
O fraco na coragem é forte na esperteza.
A macieira jamais pergunta à faia como crescer; nem o leão, ao cavalo, como apanhar sua presa.
Ao receber, o solo grato produz abundante colheita.
Se os outros não fossem tolos, nós teríamos que ser.
A essência do doce prazer jamais pode ser maculada.
Ao veres uma Águia, vês uma parcela da Genialidade. Levanta a cabeça!
Assim como a lagarta escolhe as mais belas folhas para deitar seus ovos, assim o sacerdote lança sua maldição sobre as alegrias mais belas.
Criar uma florzinha é o labor de séculos.
A maldição aperta. A benção afrouxa.
O melhor vinho é o mais velho; a melhor água, a mais nova.
Orações não aram! Louvores não colhem! Júbilos não riem! Tristezas não choram!
A cabeça, o Sublime; o coração, o Sentimento; os genitais, a Beleza; as mãos e os pés, a Proporção.
Como o ar para o pássaro ou o mar para o peixe, assim é o desprezo para o desprezível.
A gralha gostaria que tudo fosse preto; a coruja, que tudo fosse branco.
A Exuberância é a Beleza.
Se o leão fosse aconselhado pela raposa, seria ardiloso.
O Progresso constrói estradas retas; mas as estradas tortuosas, sem o Progresso, são estradas da Genialidade.
Melhor matar uma criança no berço do que acalentar desejos insatisfeitos.
Onde o homem não está a natureza é estéril.
A verdade nunca pode ser dita de modo a ser compreendida sem ser acreditada.
É suficiente! ou Basta.
de William Blake
Dead Can Dance - Tell me about the Forest
sexta-feira, 3 de julho de 2020
A Luz que vem das Pedras
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tu a colhes, mulher, a distribuis
tão generosa e à janela do mundo.
O sal do mar percorre a tua língua;
não são de mais em ti as coisas mais.
Melhor que tudo, o voo dos insectos,
o ritmo nocturno do girar dos bichos,
a chave do momento em que começa o canto
da ave ou da cigarra
— a mão que tal comanda no mesmo gesto fere
a corda do que em ti faz acordar
os olhos densos de cada dia um só.
Quem está salvando nesta respiração
boca a boca real com o universo?
de Pedro Tamen, in "Agora, Estar"
quarta-feira, 3 de junho de 2020
O mundo além das palavras
Dentro deste mundo há outro mundo
impermeável às palavras.
Nele, nem a vida teme a morte,
nem a primavera dá lugar ao outono.
Histórias e lendas surgem dos tetos e paredes,
até mesmo as rochas e árvores exalam poesia.
Aqui, a coruja transforma-se em pavão,
o lobo, em belo pastor.
Para mudar a paisagem,
basta mudar o que sentes;
E se queres passear por esses lugares,
basta expressar o desejo.
Fixa o olhar no deserto de espinhos.
– Já é agora um jardim florido!
Vês aquele bloco de pedra no chão?
– Já se move e dele surge a mina de rubis!
Lava tuas mãos e teu rosto
nas águas deste lugar,
que aqui te preparam um fausto banquete.
Aqui, todo o ser gera um anjo;
e quando me veem subindo aos céus
os cadáveres retornam à vida.
Decerto vistes as árvores crescendo da terra,
mas quem há de ter visto o nascimento do Paraíso?
Viste também as águas dos mares e dos rios,
mas quem há de ter visto nascer
de uma única gota d’água
uma centúria de guerreiros?
Quem haveria de imaginar essa morada,
esse céu, esse jardim do paraíso?
Tu, que lês este poema, traduze-o.
Diz a todos o que aprendeste
sobre este lugar.
de Jalâl ad-Din Rûmî, em “Poemas Místicos: Divan de Shams de Tabriz”. [seleção, introdução e tradução José Jorge de Carvalho]. São Paulo: Attar Editorial, 1996.
Leia mais sobre Rumi em: Revista Prosa Verso e Arte
domingo, 3 de maio de 2020
La campana está llena de viento
La campana está llena de viento,
aunque no suene.
El pájaro está lleno de vuelo,
aunque esté quieto.
El cielo está lleno de nubes,
aunque esté solo.
La palabra está llena de voz,
aunque nadie la diga.
Toda cosa está llena de fugas,
aunque no haya caminos.
Todas las cosas huyen
hacia su presencia.
***
O sino está cheio de vento,
ainda que não ressoe.
O pássaro está cheio de voo,
ainda que esteja quieto.
O céu está cheio de nuvens,
ainda que esteja só.
A palavra está cheia de voz,
ainda que ninguém a diga.
Cada coisa está cheia de fugas,
ainda que não haja caminhos.
Todas as coisas fogem
rumo à sua presença.
de Roberto Juarroz, in Poesía Vertical
sexta-feira, 3 de abril de 2020
Anjo Louco
Deitei-me sobre um tempo que viria
E um ciclo de visões me revelava
Que no ódio dos deuses fui lembrada
.
Em alto voo de ave, a esquecida.
.
E porque paz e voo me faltavam
Eu desejei perder-me mais e tanto
Quanto fossem as perdas destinadas
Àqueles incapazes de algum pranto.
.
Perenidade e vida: Onde estavas?
.
(de Hilda Hilst, in Sete Cantos do Poeta para o Anjo)
.
*Let's play - Torquato Neto -
** "O Anjo Louco" - de Farnese de Andrade
terça-feira, 3 de março de 2020
O pensamento é uma ave do espaço
O pensamento é uma ave do espaço que, numa gaiola de palavras, pode abrir as asas, mas não pode voar.
Há entre vós aqueles que procuram os faladores por medo da solidão. A quietude da solidão revela-lhes seu Eu desnudo, e eles preferem escapar-lhe.
E há aqueles que falam e, sem o saber ou prever, traem uma verdade que eles próprios não compreendem.
E há aqueles que possuem a verdade dentro de si, mas não a expressam em palavras. No íntimo de tais pessoas, o espírito habita num silêncio rítmico.
de Khalil Gibran
segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020
É preciso transver o mundo
Não use o traço acostumado.
A força de um artista vem de suas derrotas.
Só a alma atormentada pode trazer para a voz um
formato de pássaro.
Arte não tem pensa:
O olho vê, a lembrança revê, e a imaginação transvê.
É preciso transver o mundo.
Isto seja:
Deus deu a forma. Os artistas desformam.
É preciso desformar o mundo:
Tirar da natureza as naturalidades.
segunda-feira, 13 de janeiro de 2020
TUDO DEPENDE DA VONTADE DE DEUS
Por isso Deus ordenou: "Faz uma ressalva,
Agrega as palavras 'se Deus quiser' a teus votos. (Alcorão XVIII.24.)
Porque o controle das ações está em Minhas mãos,
As vontades de todos estão sujeitas à Minha vontade.
A todo momento, transmito uma nova influência ao coração,
A todo instante ponho uma nova marca no coração;
A cada dia, dedico-Me a uma nova obra,
Não há nada que se desvie de Meu propósito". (Alcorão LV.29.)
Há uma tradição: "O coração é como uma pena
No deserto, que nasceu prisioneira dos ventos;
0 vento a leva por toda parte ao acaso,
Ora para a direita, ora para a esquerda, em direções opostas". (Freytag, Arabum Proverbia, vol.III.p.490.)
De acordo com outra tradição, sabe que o coração é como
A água em uma chaleira fervendo ao fogo.
Assim, a cada momento, um novo propósito ocorre ao coração,
Que não procede de si mesmo, mas de sua situação.
Por que, então, confias nos propósitos do coração?
Por que fazes votos só para te cobrires de vergonha?
Todas essas mudanças provêm do efeito da vontade de Deus;
Embora vejas o fosso, não podes evitá-lo.
A coisa estranha não é que a ave alada
Caia na armadilha mortal sem vê-la,
Mas que ela veja a armadilha e o ramo com visco,
E ainda assim caia nela, queira ou não queira;
Seus olhos e ouvidos estão abertos, e a armadilha está diante
dela,
E no entanto, ela voa para a armadilha com suas próprias asas!
de Jalaluddin Rumi in MASNAVI










