quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Preparação para a morte




A vida é um milagre.
Cada flor,
com sua forma, sua cor, seu aroma,
cada flor é um milagre.
Cada pássaro,
com sua plumagem, seu vôo, seu canto,
cada pássaro é um milagre.
O espaço, infinito,
o espaço é um milagre.
O tempo, infinito,
o tempo é um milagre.
A memória é um milagre.
A consciência é um milagre.
Tudo é milagre.
Tudo, menos a morte.
— Bendita a morte, que é o fim de todos os milagres.


de Manuel Bandeira in Poesias Reunidas


* Para minha amada imortal.

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Eu luminoso não sou




Eu luminoso não sou. Nem sei que haja
Um poço mais remoto, e habitado
De cegas criaturas, de histórias e assombros.
Se, no fundo poço, que é o mundo
Secreto e intratável das águas interiores,
Uma roda de céu ondulando se alarga,
Digamos que é o mar: como o rápido canto
Ou apenas o eco, desenha no vazio irrespirável
O movimento de asas. O musgo é um silêncio,
E as cobras-d´água dobram rugas no céu,
Enquanto, devagar, as aves se recolhem.


de José Saramago in PROVAVELMENTE ALEGRIA

domingo, 13 de outubro de 2013

Ismália

Qualquer semelhança é mera coincidência...



Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar…

Viu uma lua no céu,

Viu outra lua no mar.


No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar…
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar…

E, no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar…
Estava perto do céu,
Estava longe do mar…

E como um anjo pendeu
As asas para voar…
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar…

As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par…
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar…





Cotovia



— Alô, cotovia!
Aonde voaste,
Por onde andaste,
Que saudades me deixaste?

— Andei onde deu o vento.
Onde foi meu pensamento
Em sítios, que nunca viste,
De um país que não existe . . .
Voltei, te trouxe a alegria.

— Muito contas, cotovia!
E que outras terras distantes
Visitaste? Dize ao triste.

— Líbia ardente, Cítia fria,
Europa, França, Bahia . . .

— E esqueceste Pernambuco,
Distraída?

— Voei ao Recife, no Cais
Pousei na Rua da Aurora.

— Aurora da minha vida
Que os anos não trazem mais!

— Os anos não, nem os dias,
Que isso cabe às cotovias.
Meu bico é bem pequenino
Para o bem que é deste mundo:
Se enche com uma gota de água.
Mas sei torcer o destino,
Sei no espaço de um segundo
Limpar o pesar mais fundo.
Voei ao Recife, e dos longes
Das distâncias, aonde alcança
Só a asa da cotovia,
— Do mais remoto e perempto
Dos teus dias de criança
Te trouxe a extinta esperança,
Trouxe a perdida alegria.

de Manuel Bandeira 

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Um pássaro que levante o céu



Neste espaço a si próprio condenado 

Dum movimento para o outro pode entrar

Um pássaro que levante o céu

E sustente o olhar 

…………………………………………

Com a tristeza acender a alegria 

Com a miséria atear a felicidade

E no céu inocente da visão

Fazer pulsar um pássaro por vir

Fazer voar um novo coração


de Alexandre O'Neill, epígrafe do livro "No Reino da Dinamarca"


segunda-feira, 30 de setembro de 2013

O Voo

L'Oiseau de Feu (de M. Chagall)


Goza a euforia do voo do anjo perdido em ti.
Não indagues se nossas estradas, tempo e vento,
desabam no abismo.
Que sabes tu do fim?
Se temes que teu mistério seja uma noite, enche-o
de estrelas.
Conserva a ilusão de que teu voo te leva sempre
para o mais alto.
No deslumbramento da ascensão
se pressentires que amanhã estarás mudo
esgota, como um pássaro, as canções que tens
na garganta.
Canta. Canta para conservar a ilusão de festa e de vitória. 
Talvez as canções adormeçam as feras
que esperam devorar o pássaro.

Desde que nasceste não és mais que um voo no tempo.
Rumo ao céu?
Que importa a rota.
Voa e canta enquanto resistirem as asas.






segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Tempos de Sussuarão

Contes de Boccace (M. Chagall)



Como vou achar ordem para dizer ao senhor a continuação do martírio, em desde que as barras quebraram, no seguinte, na brumalva daquele falecido amanhecer, sem esperança em uma, sem o simples de passarinhos faltantes?


de Guimarães Rosa in Grande Sertão: Veredas

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Tempo não é

The Blue Bird (M. Chagall)


A noite não consente a veleidade
De retomar na memória e no tempo
O tempo em que eu senhora de vaidades,
Dissipava no verso o meu lamento.

Tempo não é, senhora, de inocências. 
Nem de ternuras vãs, nem de cantigas. 
Antes de desamor, de impermanência. 

Tempo não é, senhora de alvoradas. 
Nem de coisas afins, toques, clarins. 
Antes, da baioneta nas muradas. 

Tempo não é, senhora, de pastores. 
Nem de roseiras, madrigais, violas. 

Nem é tempo, vos digo, de ter pássaros 
Azuis em vossas douradas gaiolas. 

(Não houvesse paredes, língua e som, 
Apartando de nós, coisas antigas. 
A palavra na boca, o falar neste tom 
Dá-me tanta saudade da cantiga: 

Persegues 

Te persigo 

Vais e vens

E nas idas e voltas te bendigo) 


de Hilda Hilst in Ode Fragmentária


terça-feira, 3 de setembro de 2013

O Tempo, o tempo, o tempo...

Couple Avec Un Oiseau (de M. Chagall)

(…) nos intervalos da angústia, se colhe, de um áspero caule, na palma da mão, a rosa branca do desespero (…) o tempo, o tempo, o tempo me pesquisava na sua calma, o tempo me castigava… que súbito espanto, que atropelos, vendo o coração me surgir assim de repente feito um pássaro ferido, gritando aos saltos na minha palma! (…)


de Raduan Nassar in Lavoura Arcaica


sábado, 31 de agosto de 2013

Guardar

Tribute to Elsa Triolet (de M. Chagall)


Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la.
Em cofre não se guarda coisa alguma.
Em cofre perde-se a coisa à vista.

Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por
admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.

Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por
ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela,
isto é, estar por ela ou ser por ela.

Por isso melhor se guarda o vôo de um pássaro
Do que um pássaro sem vôos.

Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica,
por isso se declara e declama um poema:
Para guardá-lo:
Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda:
Guarde o que quer que guarda um poema:
Por isso o lance do poema:
Por guardar-se o que se quer guardar.



de Antonio Cícero in Guardar - Poemas escolhidos


sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Prece Sufi



Ah, meu coração!

Renuncia um pouco a esse corpo feito de barro e de água, e depois chama para o amor divino todos os que vivem pelo coração. Acende a chama da alma na luz do amor, aprende assim de seu Bem-Amado o salmo do amor sagrado. Revela seus segredos como o rouxinol, que não pode falar como nós.


de Farid ud-Din Attar in A Linguagem dos Pássaros

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Canto Cigano




Seus cabelos,
Balançavam com o vento.
Ela dançava,
Dançava de dia,
Dançava de tarde,
Dançava à noite.

À noite,
Enquanto os archotes brilhavam,
E punham nela muitos fulgores,
Ela sorria e sorria...

Para quem sorria?
Para ninguém.
Bastava, para ela,
Sorrir para si mesma.

Sorria...
Sufocando o pranto,
Que lhe inundava a alma.
Porque, se ela chorasse,
Todos choravam também.

E ela tinha que sorrir,
Cantar,
Dançar.
Bailando,
Como baila o vento,
Cantando,
Como cantam as aves,
Só, tão só...

E, no entanto, dona absoluta,
De todos os olhares,
De todas as mentes,
Que estavam ali.
Cada um achando,
Que era para eles que ela sorria,
Quando, na verdade,
Ela não sorria para ninguém,
Ela sorria para si mesma.

O tempo passou...
E, no vento tão forte,
Que muda a vida,
Mudando as pessoas de lugar,
Daqui para acolá.

Um dia,
Ela deixou de dançar,
Mas não deixou de cantar.
Mesmo na solidão dos pinheiros gelados,
Fazia, com os rouxinóis,
Um dueto encantado.

O rouxinol cantava de tristeza,
Ela cantava de saudade,
De dor...

Por onde andará?
Como estará a terra dos meus amores?
Aonde estarão aqueles,
Que pisam, firme, o chão?
Aonde estará o meu povo?
Será que estão como eu...
Na solidão?

Canta, cigana,
Canta...
Deixa que o vento da vida te carregue,
Que a brisa te abrace
E que as folhas te teçam arpejos,
Nos ninhos dos pássaros.

A solidão nos faz
Aprender a viver,
Dentro de nós,
Num castelo encantado.

Onde se é possível,
Chorar sozinha
E rir, feliz,
Para todos os passantes,
Caminhantes,
Andantes de muitas terras,
De muitos sonhos,
De muitas estradas.

Deixa voar,
O seu sonho de paz,
Porque, um dia, você terá.

Não chore,
Não chore, cigana,
Cante.
Porque, mesmo sem cantar,
Você encanta.
E, mesmo chorando,
Você sorri.

Deixa o tempo passar,
Deixa a folha voar,
Voar...
Porque, um dia,
Paz você terá!


de Cecília Meireles*



*Atribuído a Cecilia Meireles, mas não tenho certeza, uma vez que encontrei na rede... E ao pesquisar, não encontrei referência ao livro em que foi publicado. http://www.correioespirita.org.br/categorias/poesias/89-cec%C3%ADlia-meireles
Não conheço a obra da poeta, apenas li uma ou duas coletâneas. No entanto, apesar de me parecer que fuja aqui e ali ao seu estilo, não resisti ao lamento cigano. 
Ah, e a foto encontrei no Flickr quando pesquisava sobre os irresistíveis filmes de Tony Gatlif! 



terça-feira, 13 de agosto de 2013

Dia na Serra


Canta, coração meu: é hoje o teu momento!

Amanhã estás morto:
estrelas brilham e tu não vês,
pássaros cantam e tu não ouves.
Canta, coração meu, que é teu este momento:
o teu fugaz momento!

Sobre a neve irisada e resplendente sorri o sol, 
nuvens ao longe pairam coroando a várzea, 
tudo é novo, tudo é calor e brilho, 
não há sombra que pese nem aflição que doa. 
Respirar é tão bom: respirar é um dom,
é prece e cântico.
Alma, respira: abre-te bem ao sol, 
enquanto dura o teu fugaz momento!

É doce a vida, a dor é doce, e o enlevo:
feliz de cada floco em pó ao vento,
feliz de mim - cerne da Criação, 
dileto filho da Terra e do Sol,
por um momento, 
por um risonho momento, 
até que o floco se dissipe ao vento!

Canta, coração meu: é hoje o teu momento!
amanhã estás morto:
estrelas brilham e tu não vês, 
pássaros cantam e tu não ouves.
Canta, coração meu, que é teu este momento:
o teu fugaz momento!



de Hermann Hesse, in Andares - Antologia Poética




* Com quase um mês de atraso a procurar um escrito... e este me veio também como prece... e soube bem! Eis que encontrei num dos livros que te enviei quando nos reencontramos nestas bandas virtuais... 
Deixo especialmente para você, filha do Eterno Sol..., e que de novo voou... Aonde pousará a amada de Rá? Adelandeyo! 
Bis bald! Ma'as-salama! Inch'Allah!



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