domingo, 30 de março de 2014

Pássaros que não voam



Viver é essa gaiola aberta: o medo da liberdade. 



de Eltânia André in Manhãs adiadas, Dobra Editorial (Portugal).


domingo, 23 de março de 2014

A Prisão Dourada



Tenta fazer esta experiência, construindo um palácio. Equipa-o com mármore, quadros, ouro, pássaros do paraíso, jardins suspensos, todo o tipo de coisas... e entra lá para dentro. Bem, pode ser que nunca mais desejasses sair daí. Talvez, de facto, nunca mais saisses de lá. Está lá tudo!

"Estou muito bem aqui sozinho!". 

Mas, de repente - uma ninharia! O teu castelo é rodeado por muros, e é-te dito: 

'Tudo isto é teu! Desfruta-o! Apenas não podes sair daqui!". 

Então, acredita-me, nesse mesmo instante quererás deixar esse teu paraíso e pular por cima do muro. Mais! Tudo esse luxo, toda essa plenitude, aumentará o teu sofrimento. Sentir-te-ás insultado como resultado de todo esse luxo... Sim, apenas uma coisa te falta... um pouco de liberdade.


de Fiodor Dostoievski, in "O Movimento de Liberação"



quinta-feira, 13 de março de 2014

Metade pássaro



A mulher do fim do mundo
Dá de comer às roseiras,
Dá de beber às estátuas,
Dá de sonhar aos poetas.

A mulher do fim do mundo
Chama a luz com assobio,
Faz a virgem virar pedra,
Cura a tempestade,
Desvia o curso dos sonhos,
Escreve cartas aos rios,
Me puxa do sono eterno
Para os seus braços que cantam.


de Murilo Mendes in O Visionário (1941)

segunda-feira, 3 de março de 2014

HORA ABSURDA



O TEU SILÊNCIO é uma nau com todas as velas pandas... 
Brandas, as brisas brincam nas flâmulas, teu sorriso... 
E o teu sorriso no teu silêncio é as escadas e as andas 
Com que me finjo mais alto e ao pé de qualquer paraíso... 

Meu coração é uma ânfora que cai e que se parte... 
O teu silêncio recolhe-o e guarda-o, partido, a um canto... 
Minha ideia de ti é um cadáver que o mar traz à praia..., e entanto 
Tu és a tela irreal em que erro em cor a minha arte... 

Abre todas as portas e que o vento varra a ideia 
Que temos de que um fumo perfuma de ócio os salões... 
Minha alma é uma caverna enchida p'la maré cheia, 
E a minha ideia de te sonhar uma caravana de histriões... 

Chove ouro baço, mas não no lá-fora... É em mim...Sou a Hora, 
E a Hora é de assombros e toda ela escombros dela... 
Na minha atenção há uma viúva pobre que nunca chora... 
No meu céu interior nunca houve uma única estrela... 

Hoje o céu é pesado como a ideia de nunca chegar a um porto... 
A chuva miúda é vazia...A Hora sabe a ter sido... 
Não haver qualquer coisa como leitos para as naus!...Absorto 
Em se alhear de si, teu olhar é uma praga sem sentido... 

Todas as minhas horas são feitas de jaspe negro, 
Minhas ânsias todas talhadas num mármore que não há, 
Não é alegria nem dor esta dor com que me alegro, 
E a minha bondade inversa não é nem boa nem má... 

Os feixes dos lictores abriram-se à beira dos caminhos... 
Os pendões das vitórias medievais nem chegaram às cruzadas... 
Puseram in-fólios úteis entre as pedras das barricadas... 
E a erva cresceu nas vias férreas com viços daninhos... 

Ah, como esta hora é velha!... E todas as naus partiram! 
Na praia só um cabo morto e uns restos de vela falam 
 De longe, das horas do Sul, de onde os nossos sonhos tiram 
Aquela angústia de sonhar mais que até para si calam... 

O palácio está em ruínas... Dói ver no parque o abandono 
Da fonte sem repuxo... Ninguém ergue o olhar da estrada 
E sente saudade de si ante aquele lugar-outono...
Esta paisagem é um manuscrito com a frase mais bela cortada... 

A doida partiu todos os candelabros glabros, 
Sujou de humano o lago com cartas rasgadas, muitas... 
E a minha alma é aquela luz que não mais haverá nos candelabros... 
E que querem ao lago aziago minhas ânsias, brisas fortuitas?... 

Por que me aflijo e me enfermo?... Deitam-se nuas ao luar 
Todas as ninfas... Veio o sol e já tinham partido... 
O teu silêncio que me embala é a ideia de naufragar, 
E a ideia de a tua voz soar a lira dum Apolo fingido... 

Já não há caudas de pavões todas olhos nos jardins de outrora... As próprias sombras estão mais tristes...Ainda Há rastros de vestes de aias (parece) no chão, e ainda chora Um como que eco de passos pela alameda que eis finda... 

Todos os ocasos fundiram-se na minha alma... 
As relvas de todos os prados foram frescas sob meus pés frios... 
Secou em teu olhar a ideia de te julgares calma, 
E eu ver isso em ti é um porto sem navios... 

Ergueram-se a um tempo todos os remos... pelo ouro das searas 
Passou uma saudade de não serem o mar...
Em frente Ao meu trono de alheamento há gestos com pedras raras...
Minha alma é uma lâmpada que se apagou e ainda está quente... 

Ah, e o teu silêncio é um perfil de píncaro ao sol! 
Todas as princesas sentiram o seio oprimido... 
Da última janela do castelo só um girassol
Se vê, e o sonhar que há outros põe brumas no nosso sentido... 

Sermos, e não sermos mais!... Ó leões nascidos na jaula!...
Repique de sinos para além, no Outro Vale... Perto?...
Arde o colégio e uma criança ficou fechada na aula...
Por que não há de ser o Norte e Sul?... O que está descoberto?... 

E eu deliro... De repente pauso no que penso...Fito-te...
E o teu silêncio é uma cegueira minha... Fito-te e sonho...
Há coisas rubras e cobras no modo como medito-te,
E a tua ideia sabe à lembrança de um sabor de medonho... 

Para que não ter por ti desprezo? Por que não perdê-lo?...
Ah, deixa que eu te ignore...O teu silêncio é um leque --- 
Um leque fechado, um leque que aberto seria tão belo, tão belo, 
Mas mais belo é não o abrir, para que a Hora não peque... 

Gelaram todas as mãos cruzadas sobre todos os peitos....
Murcharam mais flores do que as que havia no jardim...
O meu amar-te é uma catedral de silêncio eleitos,
E os meus sonhos uma escada sem princípio mas com fim... 

Alguém vai entrar pela porta...Sente-se o ar sorrir...
Tecedeiras viúvas gozam as mortalhas de virgens que tecem...
Ah, o teu tédio é uma estátua de uma mulher que há de vir,
O perfume que os crisântemos teriam, se o tivessem... 

É preciso destruir o propósito de todas as pontes,
Vestir de alheamento as paisagens de todas as terras,
Endireitar à força a curva dos horizontes,
E gemer por ter de viver, como um ruído brusco de serras... 

Há tão pouca gente que ame as paisagens que não existem!...
Saber que continuará a haver o mesmo mundo amanhã --- como nos desalegra!... 
Que o meu ouvir o teu silêncio não seja nuvens que atristem 
O teu sorriso, anjo exilado, e o teu tédio, auréola negra... 

Suave, como ter mãe e irmãs, a tarde rica desce...
Não chove já, e o vasto céu é um grande sorriso imperfeito...
A minha consciência de ter consciência de ti é uma prece,
E o meu saber-te a sorrir é uma flor murcha a meu peito... 

Ah, se fôssemos duas figuras num longínquo vitral!...
Ah, se fôssemos as duas cores de uma bandeira de glória!...
Estátua acéfala posta a um canto, poeirenta pia batismal,
Pendão de vencidos tendo escrito ao centro este lema --- Vitória! 

O que é que me tortura?... Se até a tua face calma
Só me enche de tédios e de ópios de ócios medonhos... 
Não sei... Eu sou um doido que estranha a sua própria alma...
Eu fui amado em efígie num país para além dos sonhos... 


4-7-1913


de Fernando Pessoa in POESIAS 
(Seleção de Sueli Barros Cassal, Ed. L&PM Pocket)

sábado, 1 de março de 2014

Leva-me, ó coração



Não vês? Minh’alma é como a pena branca
Que o vento amigo da poeira arranca
E vai com ela assim, de ramo em ramo,
Para um ninho gentil de gaturamo...
Leva-me, ó coração, como esta pena,
De dor em dor, até a paz serena.


de Auta de Souza in Horto (1900)




domingo, 23 de fevereiro de 2014

Ansiava ser pássaro



Ao homem andando
com a esperança no peito
o horizonte é perto

A pedra chorava
a imobilidade eterna
- ansiava ser pássaro.

Momento bendito
o que me entregou aos livros
afastando as pedras. 


de Leonilda Hilgenberg Justus 



in   http://terebess.hu/english/haiku/haikais.html


quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

La Carencia



Yo no se de pájaros, 

no conozco la historia del fuego. 

Pero creo que mi soledad debería tener alas 


de Alejandra Pizarnik in Las Aventuras Perdidas

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Bebe, e esquece





Olha, a rosa estremece ao sopro do vento;

um pássaro entoa um hino; uma nuvem paira.

Bebe, e esquece que o vento vai ressecar a rosa,

levar a nuvem refrescante e o canto do rouxinol.


       de Omar Khayyam in Rubaiyat

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Por este teu ser sem nome



De montanhas e barcas nada sei.
Mas sei a trajetória de uma altura
E certa fundura de águas
E há de me levar a ti uma das duas.
De ares e asas não percebo nada.
Mas atravesso abismos e um vazio de avessos
Para tocar a luz do teu começo.

Das pedras só conheço as ágatas.
Mas arranco do xisto as esmeraldas
Se me disseres que é o verde a dádiva
Que responde as perguntas da Ilusão.
E posso me ferir no gelo das espadas
Se me quiseres banhada de vermelho.

Em minhas muitas vidas hei de te perseguir.
Em sucessivas mortes hei de chamar este teu ser sem nome
Ainda que por fadiga ou plenitude, destruas o poeta
Destruindo o Homem.


de Hilda Hilst In Sobre A Tua Grande Face, 1986

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Duas


Deus te joga de um sentimento ao outro e te ensina por meio de opostos, de modo que terás duas asas para voar, não uma.  

de Jalal ad-Din Muhammad Rumi in Masnavi 

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Basta que despertes



Ouvi-nos, ó Liberdade. Basta que fales pela boca e um só indivíduo entre nós, pois uma centelha basta para incendiar a palha seca. Basta que despertes, com o roçar de tuas asas, a alma de um só entre nós, pois de um só contato nasce o relâmpago que ilumina o fundo dos vales e o cume das montanhas.


Khalil Gibran in Almas Rebeldes



sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Alegria


Amigos, peçam alegria a Deus. 
Sejam alegres como as crianças e 
como os pássaros no céu.

de Fiodor Dostoievski



terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Alada palavra




Que nada nos defina. 
Que nada nos sujeite. 
Que a liberdade seja 
a nossa própria substância.


de Simone de Beauvoir


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