O poema não voa de asa-delta não mora na Barra não freqüenta o Maksoud. Pra falar a verdade, o poema não voa: anda a pé e acaba de ser expulso da fazenda Itupu pela polícia.
Come mal dorme mal cheira a suor, parece demais com o povo: é assaltante? é posseiro? é vagabundo? frequentemente o detêm para averiguações às vezes o espancam às vezes o matam às vezes o resgatam da merda por um dia e o fazem sorrir diante das câmeras da TV de banho tomado.
O poema se vende se corrompe confia no governo desconfia de repente se zanga e quebra trezentos ônibus nas ruas de Salvador.
O poema é confuso mas tem o rosto da história brasileira: tisnado de sol cavado de aflições e no fundo do olhar, no mais fundo, detrás de todo o amargor, guarda um lampejo um diamante duro como um homem e é isso que obriga o exército a se manter de prontidão.
O tempo chegará a palavra invisível transformada em pássaro e que acorde lembranças há muito esquecidas no coração sepulto. O tempo afinal virá o tempo sem limites em que os enforcados mortos e vivos e uma lua romântica das noites da infância voltem a dançar no ar da manhã. dePaulo Plínio Abreu, em "Poesia". 2ª ed., Belém: EDUFPA, 2008.
Entre las Huertas Paseando - Mara Aranda e Youssef El Houssaini "Sefarad en el corazón de Al Andaluz"
* Para Tel Mont, amiga e poeta que me apresentou a Paulo Plínio Abreu!
Há este céu duro Empedrado de ventos. Eternidade és tu, meu ódio-amor Senhor do meu sentimento.
Há este Nunca-Mais Ancorado no Tempo. E uma só tarde num aroma de ruas De mogorim, de aves.
E há refrões e ágatas Nas praças Daquele paraíso de ilusões. E barcas, pedras roladas
Extensos esgarçados Eternidade de nós, meu ódio-amor No SEMPRE-NUNCA MAIS.
*** Garças e fardos O vôo e o pesado No meu coração. E lebres álbidas E cães. Correirice e caça No meu coração. Torres, escadas e águas Nem barcos, nem cordas No meu coração. E lutos e garras Tua cara No meu coração. de Hilda Hilst, in Cantares de Perda e Predileção.
Hani Mitwasi - Lama Bada Yatathana "live" لما بدا يتثنى
que o meu coração esteja sempre aberto às pequenas aves que são os segredos da vida o que quer que cantem é melhor do que conhecer e se os homens não as ouvem estão velhos que o meu pensamento caminhe pelo faminto e destemido e sedento e servil e mesmo que seja domingo que eu me engane pois sempre que os homens têm razão não são jovens e que eu não faça nada de útil e te ame muito mais do que verdadeiramente nunca houve ninguém tão louco que não conseguisse chamar a si todo o céu com um sorriso E. E. Cummings, in "livrodepoemas" Tradução de Cecília Rego Pinheiro
O corpo no cavalete é um pássaro que agoniza exausto do próprio grito. As vísceras vasculhadas principiam a contagem regressiva.
No assoalho o sangue se decompõe em matizes que a brisa beija e balança: o verde – de nossas matas o amarelo – de nosso ouro o azul – de nosso céu o branco o negro o negro
de Cacaso. (Fonte: Hollanda, H. B., org. 2001 [1976]. 26 poetas hoje, 4ª edição. RJ, Aeroplano. )
Onde estás, minha amada? Estás naquele pequeno Paraíso, a regar as flores que te olham como as crianças olham para as suas mães? Ou estás em teu quarto, onde um santuário de Virtude foi erguido em tua honra, e sobre o qual ofereces meu coração e minha alma em sacrifício? Ou entre teus livros, à procura da sabedoria humana, enquanto estás repleta de sabedoria divina?
Onde estás, ò companheira da minha alma?
Estás no templo a orar, ou no campo, dialogando com a natureza, receptáculo de teus sonhos, ou nos casebres dos necessitados, animando os desesperados com a doçura de tua alma e a generosidade de tuas mãos?
Estás em todos os lugares, pois, fazes parte do espírito de Deus em todos os tempos, pois és mais durável que as eras.
Lembras-te do dia em que nos conhecemos? A luz da tua alma envolvia-nos como um halo; os espíritos do amor volitavam à nossa volta a cantar os feitos da alma.
Lembras-te dos dias em que nos sentávamos à sombra dos ramos que pareciam querer esconder-nos do mundo, como as costelas protegem o divino segredo do coração?
Lembras-te das trilhas e florestas que percorremos juntos, nossas mãos tão apertadas, uma na outra, como se fossem uma só?
Lembras-te da despedida? Abraçaste-me e me deste um beijo tão celestial que me convenci que, quando os lábios se unem, revelam segredos que a língua é incapaz de expressar. Depois, suspiraste, como talvez Deus tenha suspirado quando soprou a alma no primeiro homem. Suspirei também. E quem sabe? Talvez nosso duplo suspiro nos tenha precedido ao mundo dos espíritos onde aguardará nossa chegada, proclamando a glória de nossas almas… Depois, beijaste-me de novo várias vezes e disseste com palavras e lágrimas misturadas:
"Os corpos seguem leis desconhecidas. Separam-se por intenções mundanas. Mas as almas permanecem aconchegadas no aperto do amor até que chegue a morte e as leve a Deus. Parte, meu amado. A vida te chama. Obedece-lhe. Ela recompensa os que lhe obedecem com taças cheias de doce elixir. Quanto aos meus braços vazios, terei, no teu amor, um companheiro permanente; e, na tua lembrança, bodas prolongadas."
Onde estás agora, meu outro eu? Aguardas na quietude da noite a brisa a quem confio as batidas do meu coração e os segredos da minha alma?
Ou contemplas o retrato do ausente? Este retrato não mais corresponde ao modelo. A tristeza estendeu seu véu sobre uma fronte que era radiante na tua presença; e as lágrimas abateram as pálpebras que refletiam tua beleza; e a saudade ressecou a boca que teus beijos refrescavam.
Onde estás, minha amada? Ouves, através dos mares, meus apelos e meus suspiros? Vês meu enfraquecimento e minha humilhação? Sentes a minha constância e resignação? Ou existe no ar espíritos que transmitam os prantos dos agonizantes? E não há entre as almas liames invisíveis que conduzam as queixas dos enamorados?
Minha linda estrela, onde estás? A escuridão me envolve e a saudade me derrota. Sorri no vento: tomarei alento. Sopra no éter: reencontrarei a vida.
Onde estás, minha amada? Oh, como é grande o amor! E quão pequeno eu sou!
de Khalil Gibran, in Um Sorriso e Uma Lágrima, 1914.
Em que língua se diz, em que nação, Em que outra humanidade se aprendeu A palavra que ordene a confusão Que neste remoinho se teceu? Que murmúrio de vento, que dourados Cantos de ave pousada em altos ramos Dirão, em som, as coisas que, calados, No silêncio dos olhos confessamos? de José Saramago, in Os Poemas Possíveis
Se a tua vida se estender Mais do que a minha Lembra-te, meu ódio-amor, Das cores que vivíamos Quando o tempo do amor nos envolvia. Do ouro. Do vermelho das carícias. Das tintas de um ciúme antigo Derramado Sobre o meu corpo suspeito de conquistas. Do castanho de luz do teu olhar Sobre o dorso das aves. Daquelas árvores: Estrias de um verde-cinza que tocávamos.
E folhas da cor das tempestades contornando o espaço De dor e afastamento.
Tempo turquesa e prata Meu ódio-amor, senhor da minha vida. Lembra-te de nós. Em azul. Na luz da caridade. de Hilda Hilst in Cantares de Perda e Predileção