quarta-feira, 13 de julho de 2011

Uma ave na tempestade





Não há como escapar. Você não pode ser um vagabundo e um artista e ainda ser um cidadão pacato, um homem saudável e forte. Você quer ficar bêbado, então você tem que aceitar a ressaca. Você diz sim à luz do sol e para suas puras fantasias, então você tem que dizer sim para a sujeira e as náuseas. Tudo está dentro de você, o ouro e a lama, felicidade e dor, o riso da infância e da apreensão da morte. Diga sim a tudo, não fuja de nada. Não tente mentir para si mesmo. Você não é um cidadão sólido. Você não é um grego. Você não é harmonioso, ou o mestre de si mesmo. Você é uma ave na tempestade. Deixe Chover! Deixe que ela o guie! Quanto você mentiu! Mil vezes, mesmo em seus poemas e livros, você representou ser o homem harmonioso, o homem sábio, o feliz, o homem iluminado. Da mesma forma, os homens atacando na guerra representaram ser heróis, enquanto as suas entranhas se contorciam. Meu Deus, que macaco pobre, que esgrimista no espelho o homem é - particularmente o artista - particularmente o poeta - particularmente eu mesmo!


de Hermann Hesse in
"Wandering:
Notes and Sketches"
(
Intitulado no Brasil como "Peregrinação").

* Para A.M.R. - o lobo de debaixo dos trópicos, que contraditoriamente tem nome de anjo...
** Tradução encontrada in "O velho".

Um comentário:

Telma Monteiro disse...

Overdose de Hesse, que delícia!

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...