quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Inquérito



Pergunta às árvores da rua  
que notícia têm desse dia  
filtrado em betume da noite;  
se por acaso pressentiram  
nas aragens conversadeiras,  
ágil correio do universo,  
um calar mais informativo  
que toda grave confissão.  

Pergunta aos pássaros, cativos  
do sol e do espaço, que viram  
ou bicaram de mais estranho,  
seja na pele das estradas  
seja entre volumes suspensos  
nas prateleiras do ar, ou mesmo  
sobre a palma da mão de velhos  
profissionais de solidão.   

Pergunta às coisas, impregnadas  
de sono que precede a vida  
e a consuma, sem que a vigília  
intermédia as liberte e faça  
conhecedoras de si mesmas,  
que prisma, que diamante fluido  
concentra mil fogos humanos  
onde era ruga e cinza e não.   

Pergunta aos hortos que segredo  
de clepsidra, areia e carocha  
se foi desenrolando, lento,  
no calado rumo do infante  
a divagar por entre símbolos  
de símbolos outros, primeiros,  
e tão acessíveis aos pobres  
como a breve casca do pão.   

Pergunta ao que, não sendo, resta  
perfilado à porta do tempo,  
aguardando vez de possível;  
pergunta ao vago, sem propósito  
de captar maiores certezas  
além da vaporosa calma  
que uma presença imaginária  
dá aos quartos do coração.   

A ti mesmo, nada perguntes.   


de Carlos Drummond de Andrade, in 'A Vida Passada a Limpo'

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