sábado, 30 de novembro de 2013
Orai àqueles que a fizeram bela
Era ali? Era adiante aquele muro
De claro verde musgo? Era distante?
Os mortos ressurgiram e cantaram:
Se a perfeição é a morte
Talvez por isso imortais
Há muito que existimos.
Mas se algum dentre vós
É sopro divino, encantai-nos:
Árvore, pedra, ar se vos apraz.
Vida perpétua mas paciente e quieta.
Se o que vos guia é a fala de um poeta
Há muitos entre nós. E procuraram
O todo uniforme: Hálito, sudário
E o mais além do homem.
Iguais a vós, a nós nos encontraram.
Eram velozes e límpidos. Asas
Nos pés humanos e por isso frágeis.
E apesar da eloquência que os mantinha
Quando a noite chegava se crispavam
Como a mulher fecunda que é sozinha
E sabe do seu tempo incerto e pouco.
Como os humanos temem suas trevas!
Como temeis em vós a criatura!
E mal sabeis que é sempre na clausura
Que a vida se aproxima e recomeça.
Humildade e abandono. E que a palavra
Se tentar existir, seja singela.
E se for sábia, estranha à vossa lavra
Orai àqueles que a fizeram bela.
Hilda Hilst in Testamento Lírico
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