quinta-feira, 3 de abril de 2014

Voos mais altos

Le vol (et la chute) d'Icare - de Marc Chagall

Corpo de argila
meu triste corpo
não é verdade 
se te disserem 
minha elegia 
ser mais vaidade 
do que homenagem. 

Por que o seria? 
Me adivinhaste 
quando a palavra 
nada dizia 
e o longo tempo 
(quando se amava) 
havia dias 
em que choravas 
e estremecias. 

Falam de ti. 
Da tua pouca 
felicidade. 

Mas o que importa
a infinidade
dos teus amantes 
se toda vez 
que te entregavas 
extenuado 
te perdias. 

Ah, se a poesia 
me permitisse 
vôos mais altos 
mesmo na morte 
as confidências 
que eu te faria... 

Ainda me tens. 
E bem por isso 
destila em mim 
teu peso enorme. 

E no poema 
que te dedico 
meu triste corpo 
ainda uma vez 
chora comigo 
chora comigo. 


de Hilda Hilst in Balada do Festival



Poemas de Hilda Hilst 
musicados por Zeca Baleiro




2 comentários:

Telma Monteiro disse...

Há um tempo um poema não me bate tão fundo...! Já foi prA LOUCA.

Bluuu disse...

Hilst sempre com o poder de nos imergir e de nos elevar, Tel... Por isso ela passa com suas alas por todo este meu abril despedaçado... Beijo e obrigada por estar sempre a voar por aqui!

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