O tempo é na verdade o do retorno.
Pensa como se agora fôssemos argila
E estivéssemos sós e mudos, lado a lado.
Por um momento (se viessem chuvas)
Talvez se misturasse o meu corpo com o teu
E um gosto de terra úmida aproximasse
Brandamente
As nossas bocas.
Que seja assim lembrada a tua ausência:
Como se nunca tivéssemos nascido
Sangue e nervos. Como se nunca tivéssemos
Conhecido a verdade e a beleza do amor.
Pensa como seria se não fôssemos.
E não houvesse o pranto, o ódio, o desencontro.
O tempo é na verdade o do retorno.
Se não for amanhã, será um dia.
O céu azul e limpo, o mar tranqüilo
Pássaros e peixes, pássaros e peixes
Mais nada.
(de Hilda Hilst, in “Roteiro do Silêncio” - DO AMOR CONTENTE E MUITO DESCONTENTE)
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As águas, meu ódio-amor.
Uma boca de seixosUm oco de palavras
Um sumidouro de fomes
E de asas
Teu ódio-escama
Sobre o meu desejo.
As águas, meu ódio-amor.
Mulheres afogadas
Eu-muitas
De litígio, escureza
E a sedução de me pensares
Presa
Me sabendo invasão.
E ungüento sobre a tua mágoa.
Flores, graças
Para que os nossos corpos
Se lavem dessas águas
Caridosos com a carne e as ilusões.
(de Hilda Hilst, in CANTARES)

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