terça-feira, 13 de abril de 2021

Pássaros e Peixes




O tempo é na verdade o do retorno.

Pensa como se agora fôssemos argila

E estivéssemos sós e mudos, lado a lado.

Por um momento (se viessem chuvas)

Talvez se misturasse o meu corpo com o teu

E um gosto de terra úmida aproximasse


Brandamente

As nossas bocas.


Que seja assim lembrada a tua ausência:

Como se nunca tivéssemos nascido

Sangue e nervos. Como se nunca tivéssemos

Conhecido a verdade e a beleza do amor.

Pensa como seria se não fôssemos.

E não houvesse o pranto, o ódio, o desencontro.

O tempo é na verdade o do retorno.

Se não for amanhã, será um dia.

O céu azul e limpo, o mar tranqüilo

Pássaros e peixes, pássaros e peixes


Mais nada.



(de Hilda Hilst, in “Roteiro do Silêncio” - DO AMOR CONTENTE E MUITO DESCONTENTE)


+

As    águas,    meu    ódio-amor.     

Uma    boca    de    seixos     
Um    oco    de    palavras     
Um    sumidouro    de    fomes     
        
    
E    de    asas     
Teu    ódio-escama     
Sobre    o    meu    desejo.     
    
As    águas,    meu    ódio-amor.     
Mulheres    afogadas     
Eu-muitas     
De    litígio,    escureza     
E    a    sedução    de    me    pensares     
Presa     
Me    sabendo    invasão.     
E    ungüento    sobre    a    tua    mágoa.     
Flores,    graças     
Para    que    os    nossos    corpos     
Se    lavem    dessas    águas     
    
Caridosos    com    a    carne    e    as    ilusões.    


(de Hilda Hilst, in CANTARES)

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