segunda-feira, 23 de março de 2009

Bem leve leve




Trovas de muito amor para um amado senhor

Nave
Ave
Moinho
E tudo mais serei
Para que seja leve
Meu passo
Em vosso caminho.

***

Dizeis que tenho vaidades.
E que no vosso entender
Mulheres de pouca idade
Que não se queiram perder

É preciso que não tenham
Tantas e tais veleidades.

Senhor, se a mim me acrescento
Flores e renda, cetins,
Se solto o cabelo ao vento
É bem por vós, não por mim.

Tenho dois olhos contentes
E a boca fresca e rosada.
E a vaidade só consente
Vaidades, se desejada.

E além de vós
Não desejo nada.


de Hilda Hilst in Trovas de Amor para um muito Amado Senhor


sábado, 21 de março de 2009

Pássaro do Outono



Pássaro do Outono

Vem ao meu chamado
Conhece a minha voz
Sabe meu lugar
Vem então veloz

Folhas cor de Sol
Flores cor de Lua
Caem devagar
Estrelas sobre a rua

Vou queimar a peste
Fogo de minha fé
Princesa das ervas
Venha a minha sé

Sombra de minhas asas
Óléos de minha paz
Chuva entre raios
Bem que a água faz

Vou para a floresta
Ter com meus irmãos
Vou a mesma fonte
Para erguer as mãos

de
Euler Negreiros

sexta-feira, 13 de março de 2009

Mais leve que a asa de um pássaro




Poema de Arseni Tarkovski*


Agora o verão se foi
E poderia nunca ter vindo.
No sol está quente.
Mas tem de haver mais.

Tudo aconteceu,
Tudo caiu em minhas mãos
Como uma folha de cinco pontas,
Mas tem de haver mais.

A vida me recolheu
À segurança de suas asas,
Minha sorte nunca falhou,
Mas tem de haver mais.

Nem uma folha queimada,
Nem um graveto partido.
Claro como um vidro é o dia,
Mas tem de haver mais.

Cai a noite sobre as montanhas da Geórgia;
À minha frente ruge o Aragva.
Estou em paz e triste; há um lampejo em meus suspiros,
Meus suspiros são todos teus,
Teus, e de mais ninguém... Minha melancolia
Está insensível a angústias e apreensões,
E meu coração arde e ama mais uma vez,
Pois nada pode fazer além de amar.

Todo instante que passávamos juntos
Era uma celebração, uma Epifania,
No mundo inteiro, nós os dois sozinhos.
Eras mais audaciosa, mais leve que a asa de um pássaro,
Estonteante como uma vertigem, corrias escada abaixo
Dois degraus por vez, e me conduzias
Por entre lilases úmidos, até teu domínio
No outro lado, para além do espelho.

Enquanto isso o destino seguia nossos passos
Como um louco de navalha na mão.

*Pouco conhecido aqui no Brasil, como suas obras disponibilizadas no mercado são encontradas em inglês, infelizmente, apenas alguns de seus raros poemas foram traduzidos para o português. Ainda assim podemos conferir muitos deles nos filmes realizados pelo seu filho, o grande cineasta Andrei Tarkovsky (dica do pássaro pousado...).

terça-feira, 10 de março de 2009

do desencontro com a liberdade de ser... (?)



Árabe


Estou tão triste, hoje, especialmente hoje, tristemente hoje, estou
sem pássaros no sangue, ou rios
escadas para ti
hoje estou sem escadas para ti
beija-me ainda, para que saiba em que degrau me encontro
neste desencontro
diz que me habitas
que me divides e unes
todo o edifício que sou
ruínas e braços
restaurando o amor
diz-me que sou, de novo
na tua boca
os ombros que o mar amou
diz-me
em que oceano te encontras sepultada
para que eu um destes dias
também morra feliz
diz-me
as horas de viver
contigo
diz-me antes que enlouqueça
onde estão os beijos
perdidos no emprego
na jaula do macaco
diz-me o sitio exacto do tempo
antes do fim do abraço
para que fique contigo
a árabe identidade e mais nada.

de Miguel Patrício





Da síntese sobre o amor



Amar é ter um pássaro pousado no dedo.
Quem tem um pássaro pousado no dedo sabe que, a qualquer momento, ele pode voar.


sábado, 7 de março de 2009

Das contradiçoes do amor...



Soneto do Pássaro

Amar um passarinho é coisa louca.
Gira livre na longa azul gaiola
que o peito me constringe, enquanto a pouca
liberdade de amar logo se evola.

É amor meação? pecúlio? esmola?
Uma necessidade urgente e rouca
de no amor nos amarmos se desola
em cada beijo que não sai da boca.

O passarinho baixa a nosso alcance,
e na queda submissa um vôo segue,
e prossegue sem asas, pura ausência,
outro romance ocluso no romance.

Por mais que amor transite ou que se negue,
é canto (não é ave) sua essência.



de Carlos Drummond de Andrade


sexta-feira, 6 de março de 2009

Amor de longe


O Pássaro Pousado no Fio (II)*


Tão longe,
tão distante,
e ao mesmo tempo,
tão perto,
aqui, decerto,
dentro do peito,
no coração.

Sinto que não saiba
que estou aqui
do lado de cá do fio,
derramando uma lágrima
que agora,
agorinha surgiu.

Ah! se ele soubesse,
Que em suas penas
passei a mão,
que já o beijei
com meus olhos,
e não foi ilusão.

Ah! se ele soubesse,
que estou tão perto,
do outro lado do vidro,
quase posso tocá-lo,
sentir seu calor,
sua ânsia, ouví-lo,
dizer que sente-se só.

Não devia,
pois estou aqui,
tão perto, lá.
Mesmo que longe,
minha alma,
com ele, no fio está.


*Ao pássaro pousado

terça-feira, 3 de março de 2009

Da palavra numa perspectiva à altura do olho d'um pássaro, como os ingleses costumam dizer...



Passer > Passere > Passaru > Pássaro >>>

Oriundo do latim culto passer ou passere >que era utilizado para se referir a aves de pequeno porte> e modificado pelo latim vulgar passaru, sendo que na nossa língua conservou-se o vocábulo pássaro. E deste uma infinidade de derivações e significados:


passarinhar>passarinho>passarada>passaredo

>passarinhada>passarinheiro

>piu piuuuu...


^.^..., bem como outras derivações e expressões sinonímicas, e onomatopéias que tentarei reunir e organizar para alimentar minha doidice passareira!!! Por mencionar isso, em minhas andanças pela vizinhança, deparei-me com uma legítima preciosidade sobre pássaros e línguas (outro pequeno interesse que tenho)... Eis que o texto, ricamente tecido, vai além da simples origem e definição desta palavra voadora que é pássaro... Espero que o raro autor não se importe por destacá-lo aqui nesta pobre coletânea passeriforme...:


Os passarinhos, ó Céus!

Foi quando eu lia O mundo como vontade e representação, do Schopenhauer, que me deparei com um ditado em italiano: L’uccello nella gabbia canta, non de piacere, ma dia rabbia. Vi que a tradução seria: “o pássaro na gaiola canta, não de prazer, mas de raiva”... (texto integral...)

domingo, 1 de março de 2009

Do introíto a coletânea passeri+forme


Pássaro no peito

Da minha admiração desde a infância, um tanto terna e um tanto obsessiva, por pássaros, criei este blog para adicionar de quando em vez, principalmente, textos diversos, poemas e artes relacionadas a estas criaturas aladas e sonoras, que suscitam mistérios e inspiram a humanidade desde a antiguidade.




Para começar bem o ano (sim, porquê não só para mim, mas para muitos, o ano tem início em março, de fato... *_*), trago o pequeno e famoso cântico do poeta que buscava inspiração nos pássaros e nas coisas simples para espantar, passarinhamente, os males...:

POEMINHO DO CONTRA



Todos estes que aí estão
Atravancando o meu caminho,
Eles passarão.
Eu passarinho!



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