sexta-feira, 30 de abril de 2010

Estrela Funerária





A jovem abre o cofre
num gesto de silêncio.
Refletem suas pupilas
centelhas que se despedem:
pássaros no poente
- peitos de branda penugem -
onde a vida úmida se abriga.

O cofre se oferece
como se fora um fruto
ao gesto quase pesaroso
de esvaziá-lo de seu mistério…

Mas acrescenta o quase-sorriso
às pedras,
o sopro do infinito.

de Dora Ferreira da Silva

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Partitura com Lua



Notação de pássaros
no fio da rua:
mínimas semínimas pausas.
Sobre o piano rosas estremecem.

Cadências de alma sobressaltam um público
desalento e ao relento ressoam
algumas dissonâncias (tropel de potros

presos numa sala). Mas por acaso em pura sinfonia
pássaros refazem a partitura
no heptacorde dos fios da rua.
Ei-la tão plena do dia findo azulado
a lua soberana e alta
do sono deste outono.

de Dora Ferreira da Silva in Poemas em Fuga (1997)

terça-feira, 13 de abril de 2010

Pequena canção




Pássaro da lua,
que queres cantar,
nessa terra tua,
sem flor e sem mar?

Nem osso de ouvido
Pela terra tua.
Teu canto é perdido,
pássaro da lua...

Pássaro da lua,
por que estás aqui?
Nem a canção tua
precisa de ti!

de Cecília Meireles
in Vaga música

sábado, 3 de abril de 2010

da verdade






A verdade é como o canto de um pássaro, só se percebe quando se presta a devida atenção!

de autor desconhecido

terça-feira, 30 de março de 2010

Humildade

Link


Tanto que fazer!

livros que não se lêem, cartas que não se escrevem,

línguas que não se aprendem,

amor que não se dá,

tudo quanto se esquece.


Amigos entre adeuses,


crianças chorando na tempestade,

cidadãos assinando papéis, papéis, papéis...

até o fim do mundo assinando papéis.


E os pássaros detrás de grades de chuva.

E os mortos em redoma de cânfora.


(E uma canção tão bela!)



Tanto que fazer!

E fizemos apenas isto.

E nunca soubemos quem éramos,

nem para quê.


de Cecília Meirelles

terça-feira, 23 de março de 2010

Cada palavra uma folha



Cada palavra uma folha
no lugar certo.

Uma flor de vez em quando
no ramo aberto.
Um pássaro parecia
pousado e perto.
Mas não: que ia e vinha o verso
pelo universo.



de Cecília Meirelles



sábado, 13 de março de 2010

Alguém...



Alguém desfecha a flecha do vôo:
reflexo no vidro onde a chuva
penteia os cabelos.
Cantiva de muitas lágrimas
dos suspiros do vento
nesta casa pousada na montanha
aguardo criança flor anjo ou pássaro.
Pensamentos alígeros - andorinhas
nos aguaceiros de verão
traçam oblíquas, desaparecem
no céu que escurece.
Abraçada à minha alma
não sinto o tempo latejar por perto.
O incerto longe é a minha vocação.
O longe do longe onde talvez
estás sempre em despedida
do invólucro que não te retém. E eu
sempre atrás do aceno teu
do aroma que te esquece e se esvai.
Se um lenço de fino linho
se desprendesse de teus dedos (sonho meu)
o caçaria como a um pássaro
que longe vivia
e me pertencia.

de Dora Ferreira da silva

quarta-feira, 3 de março de 2010

Pássaro perdido




"Agora que não estás, deixa que rompa
O meu peito em soluços! Te enrustiste
Em minha vida; e cada hora que passa
É mais por que te amar, a hora derrama
O seu óleo de amor, em mim, amada...
E sabes de uma coisa? Cada vez
Que o sofrimento vem, essa saudade
De estar perto, se longe, ou estar mais perto
Se perto, – que é que eu sei! Essa agonia
De viver fraco, o peito extravasado
O mel correndo; essa incapacidade
De me sentir mais eu
(...)
Vai teu caminho que eu vou te seguindo
No pensamento e aqui me deixo rente
Quando voltares, pela lua cheia
Para os braços sem fim do teu amigo!
Vai tua vida, pássaro contente
Vai tua vida que estarei contigo!"

de Vinicius de Morais e de Tom Jobim - in Monólogo de Orfeu

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Pássaro e Mulher




Voltamos ao jardim
ao banco lavado pela chuva.
Pedimos o verde ao verde
a flor à flor
sem quebrar-lhe a haste. Bastaria a manhã.
(Nossa presença
desalinha ar e folhas
num frêmito.)


Mas se nada pedimos
como quem dorme seguindo a linha natural
do corpo
respiramos o puro abandono:
um pássaro alveja o azul (sem par)
ultrapassa o muro do possível
e assim damos um ao outro
a súbita presença
do Céu.

de Dora Ferreira da Silva

sábado, 13 de fevereiro de 2010

Pássaro e Mulher



Quem me prende
mais do que a terra?
Impossível o vôo
agora.
Quente fremente
a intenção de alguém.
Desfez-se a palidez
perdi meu vôo
nas grades de seu peito.
Aprísiona-me - grilhão -
o seio suave e
no calor do instante
a união.

de Dora Ferreira da Silva

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Habitas meu coração




Habitas meu coração: barbas de rei assírio
olhar de extensões alheias
a tempo e medida.
Tua voz tem asas de falcão e pousa
nas torres mais altas do meu ser
onde jamais me aventurei. É minha a tua solidão.
Sirvo-te em silêncio e às vezes
como a uma criança me apertas em teu peito:
acaricio então tua face estranho rei.
Outras vezes ouço passos ecoando
no enlace das colunas em seteiras escadas. Se grito
teu nome - és mil ressonâncias e seu eco em mim.

de Dora Ferreira da Silva



Para ti.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Mulher e Pássaro



Linha invisível
liga-me àquela
andorinha:
tato percorrendo
um trajeto
de comunhão. O pássaro
debate-se em meu peito.
Ou coração? A andorinha
se esvai na tarde. Leva consigo
o que não sei de mim.

de Dora Ferreira da Silva

sábado, 30 de janeiro de 2010

Chamar Pássaros




Chamar pássaros com o alpiste
de amá-los. Eles pousam nos parapeitos. Nem
sombra de medo nessa aproximação.
Quase me sinto gêmea do que são parados
à beira da janela ou saltando no telhado
recém-chegados.

A cordialidade dos pássaros é

sutil:
afloram o coração de quem os ama.


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