sábado, 31 de dezembro de 2011


Fé é o pássaro que sente a luz e canta quando a madrugada é ainda escura.

de Rabindranath Tagore

Feliz 2012, passareiros!


Não esquecer que:“é dentro de nós que o Ano Novo/cochila e espera desde sempre”.
*Cartãozito enviado pela passareira MadeinBrazil. Gracias!

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Procuro



Procuro uma alegria
uma mala vazia
do final de ano
e eis que tenho na mão
- flor do cotidiano -
é vôo de um pássaro
é uma canção.

de Carlos Drummond de Andrade

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

TELEGR/AMOR



(Para Mario Quintana)

Viajo em ventos
de saudade.
A distância
é ponte alada.
Vôo alto.
Busco o encontro
como quem abrisse uma porta fechada.
Há muito.


de Lara de Lemos

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Entre o voar e o arrastar


Pássaro e lesma, o homem oscila entre o desejo de voar e o desejo de arrastar.

de Gustavo Corção

sábado, 3 de dezembro de 2011

Não



O canário já não canta.
Não canta o canário já.
Aquilo que em ti me encanta
Talvez não me encantará.

de Fernando Pessoa

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Sonho



IV


Dirás que sonho o dementado sonho de um poeta

Se digo que me vi em outras vidas

Entre claustros, pássaros, de marfim uns barcos?

Dirás que sonho uma rainha persa

Se digo que me vi dolente e inaudita

Entre amoras negras, nêsperas, sempre-vivas?

Mas não.
Alguém gritava: acorda, acorda Vida.

E se te digo que estavas a meu lado

E eloqüente e amante e de palavras ávido

Dirás que menti?
Mas não.
Alguém gritava:

Palavras... apenas sons e areia.
Acorda.
Acorda Vida.


de Hilda Hilst

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Às vezes




Às vezes se tenho uma tristeza,
as andorinhas me namoram mais de perto.

Fico enamorado.
É uma bênção.


de Manoel de Barros

domingo, 13 de novembro de 2011

Pássaros




Olha como, cortando os leves ares,
Passam do vale ao monte as andorinhas;
Vão pousar na verdura dos palmares,
Que à tarde, cobre transparente véu;

Voam também como essas avezinhas
Meus sombrios, meus tristes pensamentos;
Zombam da fúria dos contrários ventos,
Fogem da terra, acercam-se do céu.

Porque o céu é também aquela estância
Onde respira a doce criatura,
Filha de nosso amor, sonho da infância,
Pensamento dos dias juvenis.

Lá, como esquiva flor, formosa e pura,
Vives tu escondida entre a folhagem,
Ó rainha do ermo, ó fresca imagem
Dos meus sonhos de amor calmo e feliz!

Vão para aquela estância, enamorados,
Os pensamentos de minha alma ansiosa;
Vão contar-lhe os meus dias mal gozados
E estas noites de lágrimas e dor;

Na tua fronte pousarão, mimosa,
Como as aves no cimo da palmeira;
Dizendo aos ecos a canção primeira
De um livro escrito pela mão do amor.

Dirão também como conservo ainda
No fundo de minha alma essa lembrança
Da tua imagem vaporosa e linda,
Único alento que me prende aqui.

E dirão mais que estrelas de esperança
Enchem a escuridão das noites minhas.
Como sobem ao monte as andorinhas,
Meus pensamentos voam para ti.

de Machado de Assis

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Os poemas são pássaros




Os poemas são pássaros que chegam não se sabe de onde e pousam no livro que lês. Quando fechas o livro, eles alçam vôo como de um alçapão. Eles não têm pouso nem porto; alimentam-se um instante em cada par de mãos e partem. E olhas, então, essas tuas mãos vazias, no maravilhado espanto de saberes que o alimento deles já estava em ti...

de Mário Quintana

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Meu Sonho




Parei as águas do meu sonho
para teu rosto se mirar.
Mas só a sombra dos meus olhos
ficou por cima, a procurar...
Os pássaros da madrugada
não têm coragem de cantar,
vendo o meu sonho interminável
e a esperança do meu olhar.
Procurei-te em vão pela terra,
perto do céu, por sobre o mar.
Se não chegas nem pelo sonho,
por que insisto em te imaginar?
Quando vierem fechar meus olhos,
talvez não se deixem fechar.
Talvez pensem que o tempo volta,
e que vens, se o tempo voltar.


de Cecília Meirelles

domingo, 23 de outubro de 2011

Exiladas...




Companheiros, é de lua
A noite que vem chegando.
Para engolir o meu pranto
Que eu não saiba de outras vidas
Nem dos que estão se matando.
Já tive tanta desdita
Que é preciso ir inventando
Caminhos novos, veleiros (Além do mais navegando
Se conhece o marinheiro).
Verdade é o que tu me dizes:
O amor, poeta,
É alegria.

Por isso é que estou tramando
Viagens, vínculos, dádivas
Por isso a noite é de lua
E o coração é de brasa.
Não quero saber de herdeiros
Partilhando o meu encanto.
Inúmeras as viuvezes
Para uma vida tão pouca
E de amor...
Ai, tantas vezes
Minhas asas, exiladas
Incendiaram as estrelas.
E nos sentires, nos tatos
Em todos os meus adeuses
O amor se reinventava
A si mesmo, tanto, tanto.
(Mas afinal é de pranto
O amor que se diz contente?)

Companheiros, é de lua
A noite que vem chegando.
E uma lua nas alturas
Tem tal força, tais ardências...
Senão vejamos: Eu poeta
Nesta e noutras existências,
Cantando o do amor mais triste
(Onde se meteu a lua?)
Cantei-me. De amor contente.


de Hilda Hilst

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Menina seu mundo




I

Corre contra o vento
o cabelo em liberdade,
Flor da infância não toca o tempo no espaço
em que demora
sem medida ou marca.

Só vê o ar que sem olhos se comove em volta.
Cumprimenta os bichos
a água o jardim.
Nas nuvens se extasia
porque têm formas do impossível.
E tudo é um
na trama de seus dias.

II


Menina para onde vais
voando com folhas pássaros
a natureza levando
presa no passo ligeiro?
Corre o vento nos teus cachos
suaves
atalhos castanhos
corre a terra nos teus passos
ágil tentando alcançar-te corre o sol as águas correm
debatendo-se na luz
e quando paras
o passo prossegue
sem que te movas

de Dora Ferreira da Silva
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