sábado, 13 de julho de 2013

Que devo fazer hoje?





Que devo fazer hoje?
Irei à taverna?
Irei sentar-me num jardim,
ou passarei o dia curvado
sobre um livro?


Um pássaro voa. Aonde irá?
Perdi-o já de vista.
Ó embriaguez de um pássaro
no azul morno do céu!
Ó melancolia de um homem
na sombra fresca de uma mesquita!...


de Omar Khayyam


Fontes:



quarta-feira, 3 de julho de 2013

Guia para viajar pelas florestas do sentido




O que é o caminho?
anúncio de partida
escrito em folhas que o pó desenhou.

O que é a árvore?
lagoa verde cujas ondas são o vento.
 
O que é o vento?
alma que não quer
habitar o corpo.
 
O que é a morte?
carro que leva
do útero da mulher
ao útero da terra.
 
O que é a lágrima?
guerra perdida pelo corpo.
 
O que é o desespero?
descrição da vida na língua da morte.
 
O que é o horizonte?
espaço que se move sem parar.
 
O que é a coincidência?
fruto na árvore do vento
caindo entre as mãos
sem se saber.
 
O que é o não sentido?
doença que mais se propaga.
 
O que é a memória?
casa habitada só
por coisas ausentes.
 
O que é a poesia?
navios que navegam, sem portos.
 
O que é a metáfora?
asa aliviando
no peito das palavras.
 
O que é o fracasso?
musgo boiando no lago da vida.
 
O que é a surpresa?
pássaro
que escapou da gaiola da realidade.
 
O que é a história?
cego a tocar tambor.
 
O que é a sorte?
dado
na mão do tempo.
 
O que é a linha reta?
soma de linhas tortas
invisíveis.
 
O que é o umbigo?
meio caminho
entre
dois paraísos.
 
O que é o tempo?
veste que usamos
sem poder tirar.
 
O que é a melancolia?
anoitecer
no espaço do corpo.
 
O que é o sentido?
início do não sentido
e seu fim.
 
***

de
Adunis
(Ali Ahmad Said Esber -  excertos do livro POEMAS - trad. de Michel Sleiman, editora Companhia das Letras.) 

domingo, 30 de junho de 2013

2





Carrega de ouro as asas do pássaro 
e ele nunca mais voará pelo céu.

de Rabindranath Tagore


domingo, 23 de junho de 2013

Pássaro e Pedra





O pássaro imagina que é bom para a pedra 
dar um passeio pelo ar.


de Rabindranath Tagore in Pássaros Perdidos



quinta-feira, 13 de junho de 2013

Os dois pássaros



O pássaro domesticado vivia na gaiola e, o pássaro livre, na floresta. Mas o destino deles era se encontrarem, e a hora finalmente havia chegado.

O pássaro livre cantou:

- Meu amor, voemos para o bosque.

O pássaro preso sussurrou:

- Vem cá, e vivamos juntos nesta gaiola.

O pássaro livre respondeu:

- Entre as grades não há espaço para abrir as asas.

- Ah, lamentou o pássaro engaiolado - no céu não saberia onde pousar.

O pássaro livre cantou:


- Amor querido, canta as canções do campo.

Mas o pássaro preso respondeu:

- Fica junto comigo, e eu te ensinarei as palavras dos sábios.

O pássaro da floresta retrucou:

- Não, não! As canções não podem ser ensinadas!

E o pássaro engaiolado gemeu:

- Ai de mim! Eu não conheço as canções do campo.

Entre eles o amor era sem limites, mas eles não podiam voar asa com asa. Olhavam-se através das grades da gaiola, mas em vão desejavam se conhecer. Batiam as asas ansiosamente, e cantavam:

- Chega mais perto, meu amor!

Mas o pássaro livre dizia:

- Não posso! Tenho medo de tua gaiola com portas fechadas.

E o pássaro engaiolado sussurrava:

- Ai de mim! As minhas asas ficaram fracas e morreram.


de Rabindranath Tagore in O Jardineiro

segunda-feira, 3 de junho de 2013

1



Pássaros perdidos do verão vêm à minha janela, cantam e vão embora, voando. E as folhas amarelas do outono, que não sabem cantar, flutuam e nela caem suspirando.



de Rabindranath Tagore in Pássaros Perdidos

sexta-feira, 31 de maio de 2013

Para fazer o retrato de um pássaro



Pinta primeiro uma gaiola
com a porta aberta
pinta a seguir
qualquer coisa bonita
qualquer coisa simples
qualquer coisa bela
qualquer coisa útil
para o pássaro.
Agora encosta a tela a uma árvore
num jardim
num bosque
ou até numa floresta.
Esconde-te atrás da árvore
sem dizeres nada
sem te mexeres…
Às vezes o pássaro não demora
mas pode também levar anos
antes que se decida.
Não deves desanimar
espera
espera anos se for preciso
a rapidez ou a lentidão da chegada
do pássaro não tem qualquer relação
com o acabamento do quadro.
Quando o pássaro chegar
se chegar
mergulha no mais fundo silêncio
espera que o pássaro entre na gaiola
e quando tiver entrado
fecha a porta devagarinho
com o pincel.
Depois
apaga uma a uma todas as grades
com cuidado não vás tocar nalguma das penas
Faz a seguir o retrato da árvore
escolhendo o mais belo dos ramos
para o pássaro
pinta também o verde da folhagem a frescura do vento
e agora espera que o pássaro se decida a cantar.
Se o pássaro não cantar
é mau sinal
é sinal que o quadro não presta
mas se cantar é bom sinal
sinal de que podes assinar.
Então arranca com muito cuidado
uma das penas do pássaro
e escreve o teu nome num canto do quadro.


de Jacques Prévert
(tradução de Eugénio de Andrade do original “Pour faire le portrait d’un oiseau”)


quinta-feira, 23 de maio de 2013

Outono



Outono:
velhos parecem até
os pássaros e as chuvas


Trevos roxos
ondulam sem deixarem cair
uma só gota de orvalho


Cai uma castanha...
Calam-se de súbito os insectos
entre as ervas


Crepúsculo:
as ervas parecem seguir
os rebanhos que recolhem


Vento de Outono —
até as pedras do Monte Assama
voam


Ah este caminho
que já ninguém percorre
a não ser o crepúsculo


Admirável aquele
cuja vida é um contínuo
relâmpago


Na escuridão do mar
brancos
gritos de gaivotas


No outono nos separamos
como duas conchas
da amêijoa


Outono —
empoleirado num ramo seco
um corvo



segunda-feira, 13 de maio de 2013

Tudo é triste



Tudo é triste. Triste em nós
Vivos ausentes, a cada dia esperando
O imutável presente. Tudo é triste.

Triste como eu, antiga de carícias
De olhos e lamentos, lenta no andar,
Lenta, irmã de algum canto de ave,
Do silêncio na nave, irmã.


de Hilda Hilst


sexta-feira, 3 de maio de 2013

Science-fiction I



Talvez o nosso mundo se convexe 
Na matriz positiva doutra esfera.

Talvez no interespaço que medeia
Se permutem secretas migrações.

Talvez a cotovia, quando sobe,
Outros ninhos procure, ou outro sol.

Talvez a cerva branca do meu sonho
Do côncavo rebanho se perdesse.

Talvez do eco dum distante canto
Nascesse a poesia que fazemos.

Talvez só amor seja o que temos,
Talvez a nossa coroa, o nosso manto.


de José Saramago In OS POEMAS POSSÍVEIS


* A minha amiga Odete! 


terça-feira, 30 de abril de 2013

Boda Espiritual




E te amo como se ama um passarinho morto.



de Manuel Bandeira in A cinza das horas (1917)

terça-feira, 23 de abril de 2013

Minha grande ternura



Minha grande ternura
Pelos passarinhos mortos;
Pelas pequeninas aranhas.


Minha grande ternura

Pelas mulheres que foram meninas bonitas
E ficaram mulheres feias;
Pelas mulheres que foram desejáveis
E deixaram de o ser.
Pelas mulheres que me amaram
E que eu não pude amar.


Minha grande ternura

Pelos poemas que
Não consegui realizar.


Minha grande ternura

Pelas amadas que
Envelheceram sem maldade.


Minha grande ternura

Pelas gotas de orvalho que
São o único enfeite de um túmulo.



de Manuel Bandeira



sábado, 13 de abril de 2013

Paisagem Noturna




A sombra imensa, a noite infinita enche o vale…

E lá no fundo vem a voz
Humilde e lamentosa
Dos pássaros da treva. Em nós,
- Em noss’alma criminosa,
O pavor se insinua…

Um carneiro bale.
Ouvem-se pios funerais.
Um como grande e doloroso arquejo
Corta a amplidão que a amplidão continua…
E cadentes, metálicos, pontuais,
Os tanoeiros do brejo,
- Os vigias da noite silenciosa,
Malham nos aguaçais.

Pouco a pouco, porém, a muralha de treva
Vai perdendo a espessura, e em breve se adelgaça
Como um diáfano crepe, atrás do qual se eleve
A sombria massaDas serranias.

O plenilúnio vai romper… Já da penumbra
Lentamente reslumbra
A paisagem de grandes árvores dormentes.
E cambiantes sutis, tonalidades fugidias,
Tintas deliquescentes
Mancham para o levante as nuvens langorosas.

Enfim, cheia, serena, pura,
Como uma hóstia de luz erguida no horizonte,
fazendo levantar a fronte
Dos poetas e das almas amorosas,
Dissipando o temor nas consciências medrosas
E frustrando a emboscada a espiar na noite escura,
- A Lua
Assoma à crista da montanha.

Em sua luz se banha
A solidão cheia de vozes que segredam…
Em voluptuoso espreguiçar de forma nua
As névoas enveredam
No vale. São como alvas, longas charpas
Suspensas no ar ao longo das escarpas.
Lembram os rebanhos de carneiros
Quando,
fugindo ao sol a pino,
Buscam oitões, adros hospitaleiros
E lá quedam tranqüilos ruminando…
Assim a névoa azul paira sonhando…
As estrelas sorriem de escutar
As baladas atrozes
Dos sapos.
E o luar úmido… fino…
Amávico… tutelar…
Anima e transfigura a solidão cheia de vozes…


de Manuel Bandeira


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