segunda-feira, 13 de junho de 2016

Invocação



Onde estás, minha amada? Estás naquele pequeno Paraíso, a regar as flores que te olham como as crianças olham para as suas mães?
Ou estás em teu quarto, onde um santuário de Virtude foi erguido em tua honra, e sobre o qual ofereces meu coração e minha alma em sacrifício? Ou entre teus livros, ​à procura da sabedoria humana, enquanto estás repleta de sabedoria divina?

Onde estás, ò companheira da minha alma?
Estás no templo a orar, ou no campo, dialogando com a natureza, receptáculo de teus sonhos, ou nos casebres dos ​necessitados, animando os desesperados com a doçura de tua alma e a generosidade de tuas mãos?

Estás em todos os lugares, pois, fazes parte do espírito de Deus em todos os tempos, pois és mais durável que as eras.

​Lembra​s​-​te​​ do dia em que nos conhecemos? A luz da tua alma envolvia-nos como um halo; os ​espíritos do amor​​ ​volitavam à nossa volta​ a cantar os feitos da alma.​


​L​embra​s-te dos dias em que nos sentávamos à sombra dos ​r​amos​ que pareciam querer esconder-nos ​​do mundo, como as costelas protegem o divino segredo do coração?

Lembras-te das trilhas e florestas que percorremos juntos, nossas mãos tão apertadas, uma na outra, como se fossem uma só?

​Lembras-te da despedida? Abraçaste-me e me deste um beijo tão celestial que me convenci que, quando os lábios se unem, revelam segredos que a língua é incapaz de expressar. Depois, suspiraste, como talvez Deus tenha suspirado quando soprou a alma no primeiro homem. Suspirei também. E quem sabe? Talvez nosso duplo suspiro nos tenha precedido ao mundo dos espíritos onde aguardará nossa chegada, proclamando a glória de nossas almas… Depois, beijaste-me de novo várias vezes e disseste com palavras e lágrimas misturadas:

"​Os corpos ​seguem leis desconhecidas. Separam-se por intenções mundanas. ​Mas as almas permanecem aconchegadas no aperto do amor até que chegue a morte e as leve a Deus. Parte, meu amado. A vida te chama. Obedece-lhe. Ela recompensa os que lhe obedecem com taças cheias de doce elixir. Quanto aos meus braços vazios, terei, no teu amor, um companheiro permanente; e, na tua lembrança, bodas prolongadas."


Onde​ estás agora, meu outro eu? Aguardas na quietude da noite a brisa a quem confio as batidas do meu coração e os segredos da minha alma?

Ou contemplas o retrato do ausente? Este retrato não mais corresponde ao modelo. A tristeza estendeu seu véu sobre uma fronte que era radiante na tua presença; e as lágrimas abateram as pálpebras que refletiam tua beleza; e a saudade ressecou a boca que teus beijos refrescavam.

Onde estás, minha amada? Ouves, através dos mares, meus apelos e meus suspiros? Vês meu enfraquecimento e minha humilhação? Sentes a minha constância e resignação? Ou existe no ar espíritos que transmitam os prantos dos agonizantes? E não há entre as almas liames invisíveis que conduzam as queixas dos enamorados?

Minha linda estrela, onde estás? A escuridão me envolve e a saudade me derrota. Sorri no vento: tomarei alento. Sopra no éter: reencontrarei a vida.

Onde estás, minha amada? Oh, como é grande o amor! E quão ​pequeno eu sou! 


de Khalil Gibran, in Um Sorriso e Uma Lágrima, 1914.


 Ya Qalbi Khalli l'Hal 




segunda-feira, 30 de maio de 2016

No silêncio dos olhos



Em que língua se diz, em que nação,
Em que outra humanidade se aprendeu
A palavra que ordene a confusão
Que neste remoinho se teceu?
Que murmúrio de vento, que dourados
Cantos de ave pousada em altos ramos
Dirão, em som, as coisas que, calados,
No silêncio dos olhos confessamos?


de José Saramago, in Os Poemas Possíveis


Madredeus - Pregão





sexta-feira, 29 de abril de 2016

Se a tua vida se estender

 
Studio Light, 1976 - M. Chagall
 

Se a tua vida se estender
Mais do que a minha
Lembra-te, meu ódio-amor,
Das cores que vivíamos
Quando o tempo do amor nos envolvia.
Do ouro. Do vermelho das carícias.
Das tintas de um ciúme antigo
Derramado
Sobre o meu corpo suspeito de conquistas.
Do castanho de luz do teu olhar
Sobre o dorso das aves. Daquelas árvores:
Estrias de um verde-cinza que tocávamos.

E folhas da cor das tempestades
contornando o espaço
De dor e afastamento.

Tempo turquesa e prata
Meu ódio-amor, senhor da minha vida.

Lembra-te de nós. Em azul. Na luz da caridade.


de Hilda Hilst in Cantares de Perda e Predileção 


Oleo de una Mujer con Sombrero - Silvio Rodriguez


quinta-feira, 31 de março de 2016

RÚTILOS



Muros agudos
Iguais à fome de certos pássaros
Descendo das alturas.
Muros loucos, desabados:
Poetas da Utopia e da Quimera.
Muro máscara disfarçado de heras.
Muros acetinados iguais a frutos.
Muros devassos vomitando palavras.
Muros taciturnos. Severos.
Como os lúcidos pensadores
De um sonhado mundo.



de Hilda Hilst in 

quinta-feira, 3 de março de 2016

Nem menos, nem mais

http://www.palestineposterproject.org/artist/burhan-karkoutly

Sou uma mulher. Nem menos, nem mais.
Vivo a minha vida como ela é
fio a fio
e fio a minha lã para vesti-la, não
para acabar a história de Homero ou o seu Sol
e vejo o que vejo
tal como é, na sua aparência.
e no entanto fixo o olhar uma
e outra vez na sua sombra
para sentir o pulso da perda,
e escrevo um amanhã
sobre as folhas de um ontem: não há voz
apenas o eco.
Gosto da ambiguidade necessária nas
palavras daquele que viaja de noite em direcção ao que já se foi
da ave sobre as colinas das palavras
sobre as açoteias das aldeias.
Sou uma mulher, nem menos, nem mais.

Faz-me voar a flor de amendoeira,
no mês de Março, da minha varanda,
saudosa de um dizer distante:
– Toca-me, para que eu leve os meus cavalos à água das nascentes.
Choro sem razão aparente, e amo-te
a ti como és, sem obrigação
sem ser em vão.
e dos meus ombros levanta-se o dia sobre ti
e quando te abraça desce uma noite sobre ti
e eu não sou isto nem aquilo
não, não sou Sol nem Lua
sou uma mulher, nem menos, nem mais.

Sê tu o Qays da nostalgia
se assim queres.

É que eu gosto de ser amada como sou
não uma imagem
colorida no jornal, ou uma ideia
entoada no poema entre os cervos...
ouço o grito de Laila longínquo
a partir do quarto de dormir: – Não me deixes
prisioneira de uma rima nas minhas noites das tribos
não me deixes com eles como uma história...
sou uma mulher, nem menos, nem mais.

Eu sou quem sou, como
tu és quem és: moras em mim
e eu moro em ti sobre ti para ti
amo a claridade necessária no nosso mistério partilhado
sou tua quando transbordo da noite
mas não sou uma terra
não sou uma viagem
sou uma mulher, nem menos, nem mais.

Cansa-me
o ciclo da Lua mulher
adoece a minha guitarra
corda
a corda
sou uma mulher,
nada menos
nada mais!

de Mahmûd Darwîsh, in O leito de uma estranha (1999)
Tradução: André Simões


Fonte: http://sobreasruinas.blogspot.com.br 

Encontrado na página: Presença Árabe no Brasil

Dorsaf Hamdani - La Grande Nouba

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Certo voo



Cada pássaro
Sabe a rota
Do retorno

Cada pássaro
Sabe a rota
De si

Cada pássaro
Na rota
Sabe-se
Pássaro.


de Damário da Cruz in Segredos das Pipas


domingo, 3 de janeiro de 2016

Um pássaro no ombro


O NÁUFRAGO TRAZIA UM PÁSSARO NO OMBRO


Sei que trazia um pássaro no ombro.
De um reino vinha carregado de sonhos
Na mão trazia as marcas da viagem
Ainda giravam em torno do seu corpo
os ventos do mar.
No olhar o horizonte carregado de bruma,
No ouvido o pio das gaivotas,
Trazia o mar no corpo,
As medusas do mar.
No peito trazia marcada em tatuagem
a palavra amor.
Vinha do mar e trazia um pássaro no ombro.


de Paulo Plínio Abreu in XX Poemas.


*****Agradecimento imenso à amiga Tel Mont (que tem voz de rouxinol!).



domingo, 13 de dezembro de 2015

Se eu puder

vacioesformaformaesvacio.blogspot.com


Se eu puder evitar que um coração se parta
Não viverei em vão.
Se eu puder suavizar a aflição de uma vida
Aplacar uma dor,

Ou ajudar um frágil passarinho
A retornar ao ninho,
Não viverei em vão.


 
de Emily Dickinson





sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Anseios

https://br.pinterest.com/pin/474848354437273908/


Meu doido coração aonde vais,
No teu imenso anseio de liberdade?
Toma cautela com a realidade;
Meu pobre coração olha cais!

Deixa-te estar quietinho! Não amais
A doce quietação da soledade?
Tuas lindas quimeras irreais
Não valem o prazer duma saudade!

Tu chamas ao meu seio, negra prisão!...
Ai, vê lá bem, ó doido coração,
Não te deslumbre o brilho do luar!

Não estendas tuas asas para o longe...
Deixa-te estar quietinho, triste monge,
Na paz da tua cela, a soluçar!...



de Florbela Espanca, in "A Mensageira das Violetas"

Mais sobre Florbela Espanca no site: Templo de Delfos
Vale a pena visitar!

terça-feira, 3 de novembro de 2015

Mistério

https://br.pinterest.com/pin/527202700099389723/


Gosto de ti, ó chuva, nos beirados,
Dizendo coisas que ninguém entende!
Da tua cantilena se desprende
Um sonho de magia e de pecados.

Dos teus pálidos dedos delicados
Uma alada canção palpita e ascende,
Frases que a nossa boca não aprende
Murmúrios por caminhos desolados.

Pelo meu rosto branco, sempre frio,
Fazes passar o lúgubre arrepio
Das sensações estranhas, dolorosas...

Talvez um dia entenda o teu mistério...
Quando, inerte, na paz do cemitério,
O meu corpo matar a fome às rosas!

de Florbela Espanca, in "Charneca em Flor"





sábado, 31 de outubro de 2015

Amáveis mas indomáveis



Amáveis    
Mas    indomáveis    
O    poeta    e    seu    cavalo.    
Um    arcabouço    pensado    
Para    limitar-se    ao    pouso    
E    do    vôo,    alimentar-se.    
Sente    os    espaços    mas    sabe    
Até    onde    irá    seu    passo.    
Sente    a    beleza    do    salto    
Mas    conhece    sua    lhaneza:    
A    própria,    inerte    beleza    
De    saber-se    aprisionado    
E    contentar-se    de    sonhos    
Maravilhar-se    de    achados.    
O    poeta    -    e    seu    vocábulo.    
O    cavalo    -    e    seu    pedaço    de    terra    
Mais    nas    alturas,    
De    brisa,    de    solidão    e    hortaliça.    
Entrelaçadas    aspiram    
Respiram    juntos.    
   
E    vistos    em    direção    
Às    cordilheiras    do    espanto    
       
   Quase    sempre    se    confundem.    
Sonhando    reter    no    flanco    
Exaltação    e    delírio,    
Nas    noites    de    grande    lua    
(Entre    ciprestes    e    lírios)    
O    cavalo    me    acompanha    
Às    profundezas    guardadas    
Onde    flutuam    palavras.    
E    lá    mergulho    e    anoiteço.    
E    encontro    coisas    do    medo    
Mandalas    de    cor,    rosáceas    
E    malmequeres    antigos    
Sobre    algum    livro    encantado    
De    pergaminho,    de    prata    
E    de    pensamentos    idos.   
 


de Hilda Hilst, in Bucólicas

Yma Sumac - Magic


terça-feira, 13 de outubro de 2015

Querer voar




- Querer voar, Samsara? Queres trocar o moroso das pernas
 Pela magia das penas e planar coruscante
Acima da demência? Porque te vejo às tardes desejosa
De ser uma das aves retardatárias do pomar.
Aquela ali talvez, rumo ao poente.

Pois pode ser, lhe disse. Santos e lobos
Devem ter tido o meu mesmo pensar. Olhos no céu
Orando, uivando aos corvos.

Então aproximou-se rente ao meu pescoço:

- Esquece texto e sabença: as cadeias do gozo.
E labaredas do intenso te farão o voo.

de Hilda Hilst in Amavisse (1989)
 

Suíte dos Orixás - Iansã



quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Sob a sombra da faia

 


Amigo! O campo é o ninho do poeta...
Deus fala, quando a turba está quieta,
Às campinas em flor.
— Noivo — Ele espera que os convivas saiam...
E n’alcova onde as lâmpadas desmaiam
Então murmura — amor —

Vem comigo cismar risonho e grave...
A poesia — é uma luz... e alma — uma ave...
Querem — trevas e ar.
A andorinha, que é a alma — pede o campo
A poesia quer sombra — é o pirilampo...
Pra voar... pra brilhar.

Meu Deus! Quanta beleza nessas trilhas...
Que perfume nas doces maravilhas,
Onde o vento gemeu!...
Que flores d’ouro pelas veigas belas!
... Foi um anjo co’a mão cheia de estrelas
Que na terra as perdeu.

Aqui o éter puro se adelgaça...
Não sobe esta blasfêmia de fumaça
Das cidades para o céu.
E a terra é como um inseto friorento
Dentro da flor azul do firmamento,
Cujo cálice pendeu!...

Qual no fluxo e refluxo, o mar em vagas
Leva a concha dourada... e traz das plagas
Corais em turbilhão,
A mente leva a prece a Deus — por pérolas
E traz, volvendo após das praias cérulas,
— Um brilhante — o perdão!

A alma fica melhor no descampado...
O pensamento indômito, arrojado
Galopa no sertão,
Qual nos estepes o corcel fogoso
Relincha e parte turbulento, estoso,
Solta a crina ao tufão.

Vem! Nós iremos na floresta densa,
Onde na arcada gótica e suspensa
Reza o vento feral.
Enorme sombra cai da enorme rama...
É o Pagode fantástico de Brama
Ou velha catedral.

Irei contigo pelos ermos — lento —
Cismando, ao pôr-do-sol, num pensamento
Do nosso velho Hugo.
— Mestre do mundo! Sol da eternidade!...
Para ter por planeta a humanidade,
Deus num cerro o fixou.

Ao longe, na quebrada da colina,
Enlaça a trepadeira purpurina
O negro mangueiral...
Como no Dante a pálida Francesca,
Mostra o sorriso rubro e a face fresca
Na estrofe sepulcral.

O povo das formosas amarílis
Embala-se nas balsas, como as Wilis
Que o Norte imaginou.
O antro — fala... o ninho s’estremece...
A dríade entre as folhas aparece...
Pã na flauta soprou!...

Mundo estranho e bizarro da quimera,
A fantasia desvairada gera
Um paganismo aqui.
Melhor eu compreendo então Virgílio...
E vendo os Faunos lhe dançar no idílio,
Murmuro crente: — eu vi! —

Quando penetro na floresta triste,
Qual pela ogiva gótica o antiste,
Que procura o Senhor,
Como bebem as aves peregrinas
Nas ânforas de orvalho das boninas,
Eu bebo crença e amor!...

E à tarde, quando o sol — condor sangrento —,
No ocidente se aninha sonolento,
Como a abelha na flor...
E a luz da estrela trêmula se irmana
Co’a fogueira noturna da cabana,
Que acendera o pastor,

A lua — traz um raio para os mares...
A abelha — traz o mel... um treno aos lares
Traz a rola a carpir...
Também deixa o poeta a selva escura
E traz alguma estrofe, que fulgura,
Pra legar ao porvir!...

Vem! Do mundo leremos o problema
Nas folhas da floresta, ou do poema,
Nas trevas ou na luz...
Não vês?... Do céu a cúpula azulada,
Como uma taça sobre nós voltada,
Lança a poesia a flux!...
 

Castro Alves, in Espumas Flutuantes (1870)


 Djelem, Djelem


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