sábado, 13 de maio de 2017

Nada sabemos do amanhã

'Chance to Fly' - Goli Mahallati

 
Nada sabemos do amanhã.

Colhe, pois, de cada instante a sua graça.

Desperta! A vida se sustenta por um fio.

Pensa em ti porque o Tempo inexoravelmente voa.


de Hafez de Shiraz 

Leia mais sobre Hafez no blog Chá de Lima da Pérsia!


Tara Tiba - Gardanieh



Alireza Ghorbani - Bigharar

quinta-feira, 13 de abril de 2017

A Floresta Mágica

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Que seja assim:
os pássaros chegaram e as pedras
juntaram-se às pedras
assim:
acordo as estradas e as noites
e seguimos na procissão das árvores


Os ramos são malas verdes e os sonhos
uma almofada
numa viagem de férias
onde a manhã continua estranha
onde o seu rosto
permanece como um selo sobre os mistérios

Assim:
Um raio indicou-me o caminho, uma voz chamou-me
do fim mais extremo do muro
 


Ali Ahmad Said Esber  - Adunis (Poeta sírio)
Tradução: Luiz Costa 



quinta-feira, 16 de março de 2017

Ser pássaro


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Ser pássaro
é não temer o voo,
tampouco o risco
do abismo.

Ser pássaro
é cartografar
o invisível
ou caraminholar
rufar de asas.

Ser pássaro
é ser infante:
quem é que sabe
dos desígnios
desse incerto?

de Alfredo Garcia Bragança in @poesiaparaense 
Via TelMont *

* Gratidão a Tel Mont pela preciosura!
** Dedicado às minhas amadas luso-brasileiras!


Voa voa, passarinho - Paulo Zola & Francis Monteiro

segunda-feira, 13 de março de 2017

Pássaro da Lua





O senhor não escutou, em cada anoitecer, a lugugem do canto da mãe-da-lua. O senhor não pode estabelecer em sua idéia a minha tristeza quinhoã. Até os pássaros, consoante os lugares, vão sendo muito diferentes. Ou são os tempos, travessia da gente?

de João Guimarães Rosa, em Grande Sertão: veredas.


* Veja mais sobre Guimarães Rosa no Templo Cultural Delfos.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Mais uma aurora

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Mais uma aurora!
Como a cada manhã,
eu descubro o esplendor do mundo
e aflijo-me por não poder agradecer
ao seu Criador...

Mas tantas rosas me consolam,

mas tantos lábios se oferecem aos meus!...

Deixa o teu alaúde,
ó minha bem-amada,
já que os pássaros começam a cantar...



de Omar Khayyam, in Rubaiyat

Visite também:
www.omarkhayyam.kit.net
www.alfredo-braga.pro.br
http://orubaiyat.wordpress.com

Mais uma aurora - Canto Ondo ("O meu coração é árabe") 

 (Ou seria persa?)



terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Oriente

M. Chagall - Femme au Bouquet 


Oriente

Manda-me verbena ou benjoim no próximo crescente, e um retalho roxo de seda alucinante, e mãos de prata ainda (se puderes).

E se puderes mais, manda violetas (margaridas talvez, caso quiseres).

Manda-me Osíris no próximo crescente e um olho escancarado de loucura (em pentagrama, asas transparentes).

Manda-me tudo pelo vento: envolto em nuvens, selado com estrelas, tingido de arco-íris, molhado de infinito (lacrado de oriente, se encontrares).


de Caio Fernando Abreu, em "Poesias nunca publicadas de Caio Fernando Abreu".




Juan Martin ft. Abdelsalam Khair - Evocacion De Damasco A Cordoba


terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Um dia...

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Um dia a gente vai perceber que 
não se pode prender pássaros 
e nem corações
e que, estar junto, não é estar ao lado, 
mas sim do lado de dentro.


Silvio Rodriguez - Te doy una canción


sábado, 3 de dezembro de 2016

Lampejo

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O poema não voa de asa-delta
não mora na Barra
não freqüenta o Maksoud.
Pra falar a verdade, o poema não voa:
anda a pé
e acaba de ser expulso da fazenda Itupu
pela polícia.

Come mal dorme mal cheira a suor,
parece demais com o povo:
é assaltante?
é posseiro?
é vagabundo?
frequentemente o detêm para averiguações
às vezes o espancam
às vezes o matam
às vezes o resgatam
da merda
por um dia
e o fazem sorrir diante das câmeras da TV
de banho tomado.

O poema se vende
se corrompe
confia no governo
desconfia
de repente se zanga
e quebra trezentos ônibus nas ruas de Salvador.

O poema é confuso
mas tem o rosto da história brasileira:
tisnado de sol
cavado de aflições
e no fundo do olhar, no mais fundo,
detrás de todo o amargor,
guarda um lampejo
um diamante
duro como um homem
e é isso que obriga o exército a se manter de prontidão.


de Ferreira Gullar, in Toda Poesia.

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Canção Azul

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O tempo chegará
a palavra invisível
transformada em pássaro
e que acorde lembranças
há muito esquecidas
no coração sepulto.
O tempo afinal virá
o tempo sem limites
em que os enforcados
mortos e vivos
e uma lua romântica
das noites da infância
voltem a dançar
no ar da manhã.


de Paulo Plínio Abreu, em "Poesia". 2ª ed., Belém: EDUFPA, 2008.



Entre las Huertas Paseando - Mara Aranda e Youssef El Houssaini
"Sefarad en el corazón de Al Andaluz"



* Para Tel Mont, amiga e poeta que me apresentou a Paulo Plínio Abreu!
 

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Dos embruxados e fatais

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Há este céu duro
Empedrado de ventos.
Eternidade és tu, meu ódio-amor
Senhor do meu sentimento.

Há este Nunca-Mais
Ancorado no Tempo.
E uma só tarde num aroma de ruas
De mogorim, de aves.

E há refrões e ágatas
Nas praças
Daquele paraíso de ilusões.
E barcas, pedras roladas

Extensos esgarçados
Eternidade de nós, meu ódio-amor
No SEMPRE-NUNCA MAIS.


***

Garças    e    fardos    
O    vôo    e    o    pesado    
No    meu    coração.    
   
E    lebres    álbidas    
E    cães.    
Correirice    e    caça    
No    meu    coração.    
Torres,    escadas    e    águas    
Nem    barcos,    nem    cordas    
No    meu    coração.    
   
E    lutos    e    garras    
Tua    cara    
No    meu    coração.


de Hilda Hilst, in Cantares de Perda e Predileção.


Hani Mitwasi - Lama Bada Yatathana "live" لما بدا يتثنى

 

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Aproveita o Momento!

http://www.figtreepress.co.uk/TheWildGreenChagallianTarot.htm
The Wild Green Chagallian Tarot

 
Quando a aurora surgiu com suas mãos radiantes,
Escutei na taverna uma voz conhecida:
"Desperta, meu amigo, e encha-se a taça, antes
Que seque em sua taça o vinho desta vida"

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Vem, enche a Taça e à chama azul da Primavera
Atira o Manto frio do arrependimento.
O Pássaro do Tempo ei-lo que não espera.
Está quase a voar! Aproveita o Momento!

de Omar Khayyam, in Rubaiyat
(Tradução de Jamil Almansur Haddad)


Kedem Ensemble - a passionate Sufi Dance

 -

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Peixes


"Um pássaro pode amar um peixe,
mas onde eles poderiam construir uma casa juntos?"
 

de Joseph Stein in "Um Violinista no Telhado"


***
 
Peixes são iguais a pássaros
Só que cantam sem ruído
Som que não vai ser ouvido

Voam águias pelas águas
Nadadeiras como asas
Que deslizam entre nuvens

Nós vivemos como peixes
Com a voz que em nós calamos
Com essa paz que não achamos

Peixes, pássaros, pessoas
Nos aquários, nas gaiolas, pelas salas e sacadas
Afogados no destino
de morrer como decoração das casas

Nós morremos como peixes
O amor que não vivemos
Satisfeitos mais ou menos
Todas iscas que mordemos
Os anzóis atravessados
Nossos gritos abafados


Letra e música da banda The Darma Lovers



terça-feira, 13 de setembro de 2016

Chamar a Si Todo o Céu com um Sorriso

  O Anjo e o Leitor (1930) - M. Chagall


que o meu coração esteja sempre aberto às pequenas
aves que são os segredos da vida
o que quer que cantem é melhor do que conhecer
e se os homens não as ouvem estão velhos

que o meu pensamento caminhe pelo faminto
e destemido e sedento e servil
e mesmo que seja domingo que eu me engane
pois sempre que os homens têm razão não são jovens

e que eu não faça nada de útil
e te ame muito mais do que verdadeiramente
nunca houve ninguém tão louco que não conseguisse
chamar a si todo o céu com um sorriso


E. E. Cummings, in "livrodepoemas"
Tradução de Cecília Rego Pinheiro


Debout sur le Zinc - Un jour ou l'autre


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