O pássaro desenha No seu voo estrangeiro (Porque nada sabemos De pássaros e voos E do impulso alheio) Um círculo de luz. E retoma depois Num azul claridade Seus píncaros azuis.
de Hilda Hilst, in Da Poesia - Bufólicas - Ode Fragmentária
A Flor do Sonho alvíssima, divina Miraculosamente abriu em mim, Como se uma magnólia de cetim Fosse florir num muro todo em ruína. Pende em meu seio a haste branda e fina. E não posso entender como é que, enfim, Essa tão rara flor abriu assim!… Milagre… fantasia… ou talvez, sina… Ó Flor que em mim nasceste sem abrolhos, Que tem que sejam tristes os meus olhos Se eles são tristes pelo amor de ti?!… Desde que em mim nasceste em noite calma, Voou ao longe a asa da minh’alma E nunca, nunca mais eu me entendi… de Florbela Espanca, in O
Livro das Mágoas.
O país que trago dentro da alma. Entro nele sem passaporte Como em minha casa. Ele vê a minha tristeza E a minha solidão. Me acalanta. Me cobre com uma pedra perfumada.
Dentro de mim florescem jardins. Minhas flores são inventadas. As ruas me pertencem Mas não há casas nas ruas. As casas foram destruídas desde a minha infância. Os seus habitantes vagueiam no espaço À procura de um lar. Instalam-se em minha alma.
Eis porque sorrio Quando mal brilha o meu sol.
Ou choro Como uma chuva leve Na noite.
Houve tempo em que eu tinha duas cabeças. Houve tempo em que essas duas caras Se cobriam de um orvalho amoroso. Se fundiam como o perfume de uma rosa.
Hoje em dia me parece Que até quando recuo Estou avançando Para uma alta portada Atrás da qual se estendem muralhas Onde dormem trovões extintos E relâmpagos partidos.
alguma vez de uma borda da lua verás cair os beijos que brilham em mim as sombras sorrirão altivas brilhando o segredo que geme vagando virão as folhas impávidas que algum dia foram o que meus olhos virão as murchas fragrâncias que inatas descenderam do alado ser virão as rubras alegrias que borbulham intensas no sol que redondeia as harmonias equidistantes na fumaça dançante do cachimbo de meu amor. deAlejandra Pizarnik
Nada sabemos do amanhã. Colhe, pois, de cada instante a sua graça. Desperta! A vida se sustenta por um fio. Pensa em ti porque o Tempo inexoravelmente voa.
Que seja assim: os pássaros chegaram e as pedras juntaram-se às pedras assim: acordo as estradas e as noites e seguimos na procissão das árvores
Os ramos são malas verdes e os sonhos uma almofada numa viagem de férias onde a manhã continua estranha onde o seu rosto permanece como um selo sobre os mistérios
Assim: Um raio indicou-me o caminho, uma voz chamou-me do fim mais extremo do muro
O senhor não escutou, em cada anoitecer, a lugugem do canto da mãe-da-lua. O senhor não pode estabelecer em sua idéia a minha tristeza quinhoã. Até os pássaros, consoante os lugares, vão sendo muito diferentes. Ou são os tempos, travessia da gente?
de João Guimarães Rosa, em Grande Sertão: veredas. * Veja mais sobre Guimarães Rosa no Templo Cultural Delfos.