terça-feira, 3 de abril de 2018

Aproxima-te, tu que conheces a linguagem dos pássaros...


(...) Conto a história de Sabá ao estilo dos amantes.
Quando a brisa levou as palavras de Salomão para aquele jardim,
Foi como quando os corpos encontram as almas na ressurreição,
Ou quando os meninos voltam para seus amados lares.
O povo do amor está escondido entre os povos,
Como um homem generoso cercado pela insolência dos vis.
As almas são desgraçadas pela união com os corpos,
Os corpos são enobrecidos pela união com as almas.
Levantai-vos, ó amantes; essa brisa doce é vossa;
Vós sois aqueles que perduram; a vida eterna é vossa.
Ó!, vós que buscais, levantai-vos e sede saciados de amor,
Aspirai o perfume de Yussuf (José)!

Aproxima-te, ó Salomão, tu que conheces a linguagem dos pássaros,
Faz soar o trinado de cada pássaro que se aproxima.
Quando Deus enviou-te aos pássaros,
Primeiro ensinou-te os trinados de todos os pássaros.
Ao pássaro que crê na predestinação, fala da predestinação,
Ao pássaro com asas quebradas, prega a paciência,
Ao paciente fazedor do bem, prega consolo e perdão,
Ao espiritual Anka, conta as glórias do Monte Qaf,
Ao pombo, prega que evite o falcão,
Ao nobre falcão, a misericórdia e o autocontrole;
Quanto ao morcego, que vaga impotente na escuridão,
Procura familiarizá-lo com a sociedade da luz;
À perdiz, ensina a paz,
Ao galo, os sinais da alvorada.
Dessa forma, lida com todos, da poupa à águia.


Fragmento de Rumi, in Prédica de Salomão ao Povo de Bilquis

Encontrado em Sigillum Militum Christi.


Tara tiba - Lalaie (Persian Dream) 


terça-feira, 13 de março de 2018

Soneto Antigo



Responder a perguntas não respondo.
Perguntas impossíveis não pergunto.
Só do que sei de mim aos outros conto:
de mim, atravessada pelo mundo.

Toda a minha experiência, o meu estudo,
sou eu mesma que, em solidão paciente,
recolho do que em mim observo e escuto
muda lição, que ninguém mais entende.

O que sou vale mais do que o meu canto.
Apenas em linguagem vou dizendo
caminhos invisíveis por onde ando.

Tudo é secreto e de remoto exemplo.
Todos ouvimos, longe, o apelo do Anjo.
E todos somos pura flor de vento.


de Cecília Meireles


Don't Fade Away

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Na língua dos pássaros




Na língua dos pássaros uma expressão tinge
a seguinte.
Se é vermelha tinge a outra de vermelho.
Se é alva tinge a outra dos lírios da manhã.
É língua muito transitiva a dos pássaros.
Não carece de conjunções nem de abotoaduras.
Se comunica por encantamentos.
E por não ser contaminada de contradições
A linguagem dos pássaros
Só produz gorjeios.

de Manoel de Barros




José Lemos Countertenor - "Páxaro d'hermozura"
 

sábado, 13 de janeiro de 2018

Cantiga do Pressentir

Les Amoureux - M. Chagall


A noite já nos espreita
e permaneço esquecida
à beira do meu destino.
És tardo porque ignoras
que vivo do que adivinho.

Repele a palavra esquiva
não te cubras de distância,
estende um lenço, um soluço,
troca teus olhos de ausente
por dois claros de esperança.

E vem, que te aguardo ainda
nesses linhos de aconchego,
em braços de puro embalo,
em plumagens de mornura,
em claras nuvens de espuma.

Enquanto não me descobres
me perco em falas menores,
me reparto sem vontade,
tropeço pedras amargas,
naufrago secretos mares.


de Lara de Lemos 


Anunciação - Alceu Valença

sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

IDÍLIO



Como eu preciso de campo,

de folhas,brisas, vertentes,

encosto-me a ti, que és árvore,

de onde vão caindo flores

sobre os meus olhos dormentes.


Encosto-me a ti, que és margem

de uma areia de silêncios

que acompanha pelo tempo

verdes rios transparentes:

tua sombra, nos meus braços,

tua frescura, em meus dentes.


Nasce a lua nos meus olhos,

passa pela minha vida...

- e, tudo que era, resvala

para calmos ocidentes.

Caminhos de ar vão levando

pura e nua essa que andava

com as roupas mais diferentes.


Olham pássaros, das nuvens,

entre a luz dos mundos firmes

e a das estrelas cadentes.

E o orvalho da sua música

vai recobrindo o meu rosto

com um tremor que eu conhecia

nos meus olhos já levados,

idos, perdidos, ausentes...


(Leve máscara de pérolas

na minha face não sentes?)



Cecília Meireles

In Vaga Música








À Zefa Liloca pelo seu rejuvelhecimento anual! Felicidades sempre! Bruxonilda manda lembranças... 

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Comprimia no peito

Daria Petrilli (Poppies Lady)


Ah, essas dores! E o voltar contínuo ao silêncio das tardes!
Junto ao muro dos mortos o passeio se fazia longo. Estacávamos.
A tarde empobrecida de luz. O tempo galopava.
Vês? Tenho a alma pesada. Uma avidez no olhar
Antes ingênua, agora se fez grave. Há naquele campo a imutável paisagem:
As papoulas abertas, as ruas estreitas e uma grande e única alameda.
E datas, retratos. E súbito o ocre da terra sob os passos.
A mulher caminhava. Comprimia no peito a sua flor e de humildade
Era o olhar à procura do nome. Se tu visses depois que luminosa altives
Se insinuava, quando voltava leve, sem o peso das dádivas.
E muitas passaram vagarosas. Umas lunares, com seus rostos aduncos.
Outras com a centelha escondida dos sacrários.


de Hilda Hilst, in “Odes maiores ao pai” (série de poemas publicada na coletânea “Trajetória Poética do ser” (1963-1966) - Da Poesia, 2017.)



Dead Can Dance - Arabian Gothic


sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Dile



(...)


quedar suspenso ante el verde de los brotes...
Que parta el que parte,
que llegue el que llega.


* * *
 

Dile al pájaro que sólo hay árboles
en mi corazón.

 

de Clara Janés, in Antología Poética.



Komo el Pasharo ke bola - Yasmin Levy


sábado, 23 de setembro de 2017

No seu voo estrangeiro

http://samparr.co.uk/Paintings


O    pássaro    desenha    
No    seu    voo    estrangeiro    
(Porque    nada    sabemos    
De    pássaros    e    voos    
E    do    impulso    alheio)    
Um    círculo    de    luz.    
E    retoma    depois    
Num    azul    claridade    
Seus    píncaros    azuis.   


de Hilda Hilst, in Da Poesia - Bufólicas - Ode Fragmentária


Avre Tu Puerta Cerrada - Los Desterados



quinta-feira, 3 de agosto de 2017

A Flor do Sonho

Christian Schloe - Jungle

A Flor do Sonho alvíssima, divina
Miraculosamente abriu em mim,
Como se uma magnólia de cetim
Fosse florir num muro todo em ruína.

Pende em meu seio a haste branda e fina.
E não posso entender como é que, enfim,
Essa tão rara flor abriu assim!…
Milagre… fantasia… ou talvez, sina…

Ó Flor que em mim nasceste sem abrolhos,
Que tem que sejam tristes os meus olhos
Se eles são tristes pelo amor de ti?!…

Desde que em mim nasceste em noite calma,
Voou ao longe a asa da minh’alma
E nunca, nunca mais eu me entendi…

de Florbela Espanca, in O Livro das Mágoas.

Ya Zahratan Fi Khayali



(Música de Farid El Atrash)

sexta-feira, 7 de julho de 2017

Só Chagall

"Só o amor me interessa.
Estou em contato
apenas com as coisas que têm a ver
com o amor."







Só é meu

O país que trago dentro da alma.
Entro nele sem passaporte
Como em minha casa.
Ele vê a minha tristeza
E a minha solidão.
Me acalanta.
Me cobre com uma pedra perfumada.


Dentro de mim florescem jardins.
Minhas flores são inventadas.
As ruas me pertencem
Mas não há casas nas ruas.
As casas foram destruídas desde a minha infância.
Os seus habitantes vagueiam no espaço
À procura de um lar.
Instalam-se em minha alma.


Eis porque sorrio
Quando mal brilha o meu sol.


Ou choro
Como uma chuva leve
Na noite.


Houve tempo em que eu tinha duas cabeças.
Houve tempo em que essas duas caras
Se cobriam de um orvalho amoroso.
Se fundiam como o perfume de uma rosa.


Hoje em dia me parece
Que até quando recuo
Estou avançando
Para uma alta portada
Atrás da qual se estendem muralhas
Onde dormem trovões extintos
E relâmpagos partidos.


Só é meu
O mundo que trago dentro da alma.


de Marc Chall, in Poèmes

Tradução de Manuel Bandeira


The Weepies - Painting by Chagall

sexta-feira, 16 de junho de 2017

ALÉM DO ESQUECIMENTO

 
 Ismail Nery

alguma vez de uma borda da lua
verás cair os beijos que brilham em mim
as sombras sorrirão altivas
brilhando o segredo que geme vagando
virão as folhas impávidas que
algum dia foram o que meus olhos
virão as murchas fragrâncias que
inatas descenderam do alado ser
virão as rubras alegrias que
borbulham intensas no sol que
redondeia as harmonias equidistantes
na fumaça dançante do cachimbo de meu amor. 

de Alejandra Pizarnik 



La mar enfortuna - La rosa


terça-feira, 13 de junho de 2017

O OLVIDO

Ismael Nery - Namoro com a Lua


na outra margem da noite
o amor é possível

leva-me

leva-me entre as doces substâncias
que morrem a cada dia em tua memória


de Alejandra Pizarnik



 Yo me enamore de un aire - Flamenco Sefardí

sábado, 13 de maio de 2017

Nada sabemos do amanhã

'Chance to Fly' - Goli Mahallati

 
Nada sabemos do amanhã.

Colhe, pois, de cada instante a sua graça.

Desperta! A vida se sustenta por um fio.

Pensa em ti porque o Tempo inexoravelmente voa.


de Hafez de Shiraz 

Leia mais sobre Hafez no blog Chá de Lima da Pérsia!


Tara Tiba - Gardanieh



Alireza Ghorbani - Bigharar
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