segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Ficaram-me as penas




O pássaro fugiu,
ficaram-me as penas da sua asa,

nas mãos encantadas.
Mas, que é a vida, afinal?
Um vôo, apenas.
Uma lembrança e outros pequenos nadas.

Passou o vento mau, entre açucenas,

deixou-me só corolas arrancadas...

Despedem-se de mim glórias terrenas.

Fica-me aos pés a poeira das estradas.

A água correu veloz, fica-me a espuma.
Só o tempo não me deixa coisa alguma
até que da própria alma me despoje!
Desfolhados os últimos segredos,
quero agarrar a vida, que me foge,

vão-se-me as horas pelos vãos dos dedos.


de Cassiano Ricardo

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