terça-feira, 13 de novembro de 2012

Há um tempo



Há um tempo de subir as ruas, as árvores,
as serras. Tempo de asas, de respiros,
de pérolas na nuca. De desordem,
desassossego. De corrida sem espora
nem freio, de amor e desamor na mesma
cama, de fome sem mesa, de mesa
sem fome, de calor sempre. Subimos e
tomamos rédeas invisíveis de cavalos
brancos, de cavalos negros, de potros
nunca amansados. É um galope sobre
terras e águas, caminhos aprendidos
quando aportámos ao cais do corpo,
ainda luminoso, quente. Um dia vem
o pó e o cansaço amarra-nos os pulsos
do desejo. Não nos reconhecemos
nos espelhos e as palavras que dizemos
não fazem eco nas esferas. O esmorecer
do fogo é um requiem pelo amor envelhecido
nas escarpas violadas em silêncio,
no avesso dos ventos, no separar das águas.

de Licínia Quitério, em  OS SÍTIOS

Um comentário:

Bluuu disse...

Poeta portuguesa, pela qual nutro enorme admiração. Tomei a liberdade de compartilhar aqui.

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