sábado, 13 de setembro de 2014
Do Medo
1
Não pode o poema circunscrever o medo,
dar-lhe o rosto glorioso de uma fábula
ou crer intensamente na sua aura.
Nós permanecemos, quando
escurece à nossa volta o frio do esquecimento
e dura o vento e uma nuvem leve
a separar-se das brumas nos começa a noite.
Não pode o poema quase nada.
A alguns inspira uma discreta repugnância.
Outras vezes inclinamo-nos, reverentes, ante os epitáfios
ou demoramo-nos a escutar as grandes chuvas sobre a terra.
Quem reconhece a poesia, esse frio
intermitente, essa persistência através da corrupção?
Quase sempre a angústia instaura a luz por dentro das palavras
e lhes rouba os sentidos.
Quase sempre é o medo que nos conduz à poesia.
2
Voltando ao medo: as asas prendem mais do que libertam;
os pássaros percorrem necessariamente
os mesmos caminhos no espaço,
sem possibilidades de variação
que não estejam certas com esse mesmo voo
que sempre descrevem.
Voltando ao medo: o poema
desenha uma elipse em redor da tua voz
e cerca-se de angústia
e ervas bravias — nada mais pode fazer.
de Luis Filipe Castro Mendes, in "A Ilha dos Mortos"
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