Sonho, e estranhos poderes difusos
Ajudam ao meu sonho iluminado;
Um som como o de chuva iminente
Rasteja ao meu encontro, alto silvando;
E eis que todas as horas esquecidas
Me cercam como uma névoa envolvente.
Os fantasmas dos meus perdidos eus
Tecem à minha volta falsa malha;
Vagos elfos, meus sonhos insonhados,
Fazem parte agora da minha carne;
E todo eu sou arquivos de sonhos
De não-ser de mim distanciados.
Posso tocar as coisas impalpáveis,
Sinto-me ao sol de passados dias;
Sons remotos como asas a voar,
Rodeiam os caminhos do espírito;
E do outro lado da grande colina
Um sino toca e chama p'ra rezar.
Mas eu estou cansado de sonhar,
Cansado de ser eu mesmo sempre
Sobre espaços desertos de parecer,
Jogador involuntário de um jogo
Com a vida, astro distante a brilhar
Em terras mortas, sem um nome ter.
De Fernando Pessoa, in Poesia Inglesa (I), pág.175, Assírio & Alvim
Madredeus - O Pastor

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