terça-feira, 3 de novembro de 2020

Ansiedade



Sonho, e estranhos poderes difusos

       Ajudam ao meu sonho iluminado;

Um som como o de chuva iminente

       Rasteja ao meu encontro, alto silvando;

E eis que todas as horas esquecidas

       Me cercam como uma névoa envolvente.


Os fantasmas dos meus perdidos eus

       Tecem à minha volta falsa malha;

Vagos elfos, meus sonhos insonhados,

       Fazem parte agora da minha carne;

E todo eu sou arquivos de sonhos

       De não-ser de mim distanciados.


Posso tocar as coisas impalpáveis,

       Sinto-me ao sol de passados dias;

Sons remotos como asas a voar,

       Rodeiam os caminhos do espírito;

E do outro lado da grande colina

       Um sino toca e chama p'ra rezar.


Mas eu estou cansado de sonhar,

       Cansado de ser eu mesmo sempre

Sobre espaços desertos de parecer,

       Jogador involuntário de um jogo

Com a vida, astro distante a brilhar

       Em terras mortas, sem um nome ter.


De Fernando Pessoa, in Poesia Inglesa (I), pág.175, Assírio & Alvim

 

Madredeus - O Pastor

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