terça-feira, 31 de julho de 2012

Não me procures





Não me procures ali
Onde os vivos visitam
Os chamados mortos.
Procura-me
Dentro das grandes águas
Nas praças
Num fogo coração
Entre cavalos, cães, 
Nos arrozais, no arroio
Ou junto aos pássaros
Ou espelhada
Num outro alguém, 
Subindo um duro caminho
Pedra, semente, sal
Passos da vida.
Procura-me ali.
Viva.

de Hilda Hilst

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Sonhar





Sonhar é transportar-se em asas de ouro e aço 
Aos páramos azuis da luz e da harmonia; 
É ambicionar o céu; é dominar o espaço,
Num vôo poderoso e audaz da fantasia.  


Fugir ao mundo vil, tão vil que, sem cansaço, 
Engana, e menospreza, e zomba, e calunia; 
Encastelar-se, enfim, no deslumbrante paço 
De um sonho puro e bom, de paz e de alegria. 


É ver no lago um mar, nas nuvens um castelo, 
Na luz de um pirilampo um sol pequeno e belo; 
É alçar, constantemente, o olhar ao céu profundo.
  
Sonhar é ter um grande ideal na inglória lida: 
Tão grande que não cabe inteiro nesta vida, 
Tão puro que não vive em plagas deste mundo.  


de Helena Kolody

segunda-feira, 23 de julho de 2012

O Suicida




Não restará na noite uma só estrela.Não restará a noite.Morrerei e comigo irá a somaDo intolerável universo.Apagarei medalhas e pirâmides,Os continentes e os rostos.Apagarei a acumulação do passado.Farei da história pó, do pó o pó.Estou a olhar o último poente.Oiço o último pássaro.Lego o nada a ninguém.
de Jorge Luis Borges, in "A Rosa Profunda"

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Os Amigos Infelizes





Andamos nus, apenas revestidos
Da música inocente dos sentidos.


Como nuvens ou pássaros passamos
Entre o arvoredo, sem tocar nos ramos.


No entanto, em nós, o canto é quase mudo.
Nada pedimos. Recusamos tudo.


Nunca para vingar as próprias dores
Tiramos sangue ao mundo ou vida às flores.


E a noite chega! Ao longe, morre o dia...
A Pátria é o Céu. E o Céu, a Poesia...


E há mãos que vêm poisar em nossos ombros
E somos o silêncio dos escombros.


Ó meus irmãos! em todos os países,
Rezai pelos amigos infelizes!




de Pedro Homem de Mello, in "Os Amigos Infelizes"

terça-feira, 3 de julho de 2012

A Velhice Pede Desculpas



Tão velho estou como árvore no inverno,
vulcão sufocado, pássaro sonolento.
Tão velho estou, de pálpebras baixas,
acostumado apenas ao som das músicas,
à forma das letras.

Fere-me a luz das lâmpadas, o grito frenético
dos provisórios dias do mundo:
Mas há um sol eterno, eterno e brando
e uma voz que não me canso, muito longe, de ouvir.

Desculpai-me esta face, que se fez resignada:
já não é a minha, mas a do tempo,
com seus muitos episódios.

Desculpai-me não ser bem eu:
mas um fantasma de tudo.
Recebereis em mim muitos mil anos, é certo,
com suas sombras, porém, suas intermináveis sombras.

Desculpai-me viver ainda:
que os destroços, mesmo os da maior glória,
são na verdade só destroços, destroços.

de Cecília Meirelles, in 'Poemas (1958)'

sábado, 30 de junho de 2012

Ar Noturno



Tenho muito medo
das folhas mortas,
medo dos prados
cheios de orvalho.
eu vou dormir;
se não me despertas,
deixarei a teu lado meu coração frio.

O que é isso que soa
bem longe?
Amor. O vento nas vidraças,
amor meu!

Pus em ti colares
com gemas de aurora.
Por que me abandonas
neste caminho?
Se vais muito longe,
meu pássaro chora
e a verde vinha
não dará seu vinho.

O que é isso que soa
bem longe?
Amor. O vento nas vidraças,
amor meu!

Nunca saberás,
esfinge de neve,
o muito que eu
haveria de te querer
essas madrugadas
quando chove
e no ramo seco
se desfaz o ninho.

O que é isso que soa
bem longe ?
Amor. O vento nas vidraças,
amor meu! 

de Vladimir Maiakóviski

sábado, 23 de junho de 2012

O gato e o pássaro




Uma cidade escuta desolada
O canto de um pássaro ferido
É o único pássaro da cidade
E foi o único gato da cidade
Que o devorou pela metade
E o pássaro deixa de cantar
E o gato deixa de ronronar
E de lamber o focinho
E a cidade prepara para o pássaro
Funerais maravilhosos
E o gato que foi convidado
Segue o caixãozinho de palha
Em que deitado está o pássaro morto
Levado por uma menina
Que não pára de chorar
Se soubesse que você ia sofrer tanto
Lhe diz o gato
Teria comido ele todinho
E depois teria te dito
Que tinha visto ele voar
Voar até o fim do mundo
Lá onde o longe é tão longe
Que de lá não se volta mais
Você teria sofrido menos
Só tristeza e saudades

É preciso nunca fazer as coisas pela metade.

de Jacques Prévert

quarta-feira, 13 de junho de 2012

A Função do Amor é Fabricar Desconhecimento



a função do amor é fabricar desconhecimento
(o conhecido não tem desejo; mas todo o amor é desejar)
embora se viva às avessas, o idêntico sufoque o uno
a verdade se confunda com o facto, os peixes se gabem de pescar
e os homens sejam apanhados pelos vermes (o amor pode não se
importar se o tempo troteia, a luz declina, os limites vergam
nem se maravilhar se um pensamento pesa como uma estrela
— o medo tem morte menor; e viverá menos quando a morte acabar)
 

que afortunados são os amantes (cujos seres se submetem
ao que esteja para ser descoberto)
cujo ignorante cada respirar se atreve a esconder
mais do que a mais fabulosa sabedoria teme ver
(que riem e choram) que sonham,criam e matam
enquanto o todo se move; e cada parte permanece quieta:

pode não ser sempre assim; e eu digo
que se os teus lábios, que amei, tocarem
os de outro, e os teus ternos fortes dedos aprisionarem
o seu coração, como o meu não há muito tempo;
se no rosto de outro o teu doce cabelo repousar
naquele silêncio que conheço, ou naquelas
grandiosas contorcidas palavras que, dizendo demasiado,
permanecem desamparadamente diante do espírito ausente;

se assim for, eu digo se assim for —
tu do meu coração, manda-me um recado;
para que possa ir até ele, e tomar as suas mãos, dizendo, 

Aceita toda a felicidade de mim.
E então voltarei o rosto, e ouvirei um pássaro
cantar terrivelmente longe nas terras perdidas.


de E. E. Cummings, in "livro de poemas"
Tradução de Cecília Rego Pinheiro

domingo, 3 de junho de 2012

Um sabiá



Um sabiá cantou! 
Longe daqui dançou o arvoredo 
Choveram saudades. 
Caem as folhas. 
De repente, brotam outras pelos ramos. 
Murcham flores, surgem gomos. 
E a planta, volta a semente. 
Assim somos, subtilmente diferimos do que fomos. 
Impossível transmitir , por secreto e singular, o acrescentar e perder deste crescer que é mudar.


de Helena Kolody


quarta-feira, 30 de maio de 2012

Primeiras Letras

Das toupeiras, aprendemos a cavar túneis.
Dos castores, aprendemos a fazer diques.
Dos pássaros, aprendemos a fazer casas.
Das aranhas, aprendemos a tecer.
Do tronco que rodava ladeira abaixo, aprendemos a roda.
Do tronco que flutuava à deriva, aprendemos a nau.
Do vento, aprendemos a vela.
Quem nos terá ensinado as manhas ruins? De quem aprendemos a atormentar o próximo e a humilhar o mundo?

de Eduardo Galeano


quarta-feira, 23 de maio de 2012

Esta Noite Morrerás


Esta noite morrerás.
Quando a lua vier tocar-me o rosto
terás partido do meu leito
e aquele que procurar a marca dos teus passos
encontra urtigas crescendo
por sobre o teu nome.
Esta noite morrerás.
Quando a lua vier tocar-me o rosto
terás partido do meu leito
e uma gota de sangue ressequido
é a marca dos teus passos.
No coração do tempo pulsa um maquinismo ínscio
e na casa do tempo a hora é adorno.
Quando a lua vier tocar-me o rosto a tua sombra extinta marca
o fim de um eclipse horário de uma partida iminente e o tempo
apaga a marca dos teus passos sobre o meu nome.
Constante.
O mar é isso.
A lua vir tocar-me o rosto e encontrar urtigas crescendo
por sobre o teu nome.
O mar é tu morreste.
O mar é ser noite e vir a lua tocar-me o rosto quando tu partiste e no meu leito crescem folhas sangue.
A febre é uma pira incompreensível como a aparição da lua
e a opacidade do mar.
No meu leito a lua vai tocar-me o rosto e a tua ausência é um
prisma, um girassol em panóplia.
Agora a lua chega devagar e o mar é o leito de tu teres
partido, uma infrutescência de eu procurar a marca dos teus
passos por sobre o meu rosto.
A noite é eu procurar a marca dos teus passos.
Esta noite a lua terá um halo de concêntricas florações
de gotas do teu sangue e a irisada sombra do meu leito
é o teu rosto iminente.
A lua é uma seta.
Tu partiste é o silêncio em forma de lança.
Esta noite vou erguer-me do meu leito e quando a lua vier
tocar-me o rosto vou uivar como um lobo.
Vou clamar pelo teu sangue extinto.
Vou desejar a tua carne viva, os teus membros esparsos,
a tua língua solta.
O teu ventre, lua.
Vou gritar e enterrar as unhas nos teus olhos até que
o mar se abra e a lua possa vir tocar-me o rosto.
Esta noite vou arrancar um cabelo e com a tua ausência faço
um pêndulo para interrogar a lua por tu teres partido e a marca
dos teus passos ser a razão mágica de a lua poder surgir de
noite e urtigas crescerem no meu leito.
E se encontrar a marca dos teus passos vou crivar-lhe
o coração de alfinetes para que tu partiste seja a razão
mágica de tu poderes morrer-te.
Quando a lua vier em forma de lança vai trespassar um pássaro
para lhe ler nas entranhas a direcção tu partiste e a marca dos
teus passos consiste nos olhos abertos de um pássaro esventrado.
Ah, mas o luar é uma pluma do meu leito e a lua é o colo de
tu morreste para poderes enfim tocar-me o rosto.



de Ana Hatherly, in “Poesia 1958-1978”



domingo, 13 de maio de 2012

Nascemos para ter asas





Nós nascemos para ter asas meus amigos.
Não se esqueçam de escrever por dentro do peito: nós nascemos para ter asas.
No entanto, em épocas remotas vieram com dedos pesados de ferrugem para gastar as nossas asas assim como se gastam tostões.
Cortaram-nos as asas como se fôssemos apenas operários obedientes, estudantes atenciosos, leitores ingénuos de notícias sensacionais, gente pouca, pouca e seca.
Apesar disso, sábios, estudiosos do arco-íris e de coisas transparentes, afirmam que as asas dos homens crescem mesmo depois de cortadas, e, novamente cortadas de novo voltam a ser.
Aceitemos essa hipótese, apesar de não termos dela qualquer confirmação prática.
Por hoje é tudo. Abram as janelas. Podem sair.


de José Fanha, in Cartas de Marear




* Encontrado entre os compartilhamentos públicos da poeta portuguesa Licínia Quitério.

segunda-feira, 30 de abril de 2012

O Céu, de opacas sombras abafado



O céu, de opacas sombras abafado,
Tornando mais medonha a noite fea,
Mugindo sobre as rochas, que saltea,
O mar, em crespos montes levantado;

Desfeito em furacões o vento irado;
Pelos ares zunindo a solta area;
O pássaro nocturno, que vozea
No agoireiro cipreste além pousado;

Formam quadro terrível, mas aceito,
Mas grato aos olhos meus, grato à fereza
Do ciúme e saudade, a que ando afeito.

Quer no horror igualar-me a Natureza;
Porém cansa-se em vão, que no meu peito
Há mais escuridade, há mais tristeza.

de Bocage, in 'Rimas'
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