quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Amada vida



Amada vida:
Que essa garra de ferro
Imensa
Que apunhala a palavra
Se afaste
Da boca dos poetas.
PÁSSARO-PALAVRA
LIVRE
VOLÚPIA DE SER ASA
NA MINHA BOCA.

Que essa garra de ferro
Imensa
Que me dilacera

Desapareça
Do ensolarado roteiro
Do poeta.
PÁSSARO-PALAVRA
LIVRE
VOLÚPIA DE SER ASA
NA MINHA BOCA.

Que essa garra de ferro
Calcinada

Se desfaça
Diante da luz
Intensa da palavra.

PALAVRA-LIVRE
Volúpia de ser pássaro

Amada vertiginosa.

Asa.


de Hilda Hilst


terça-feira, 30 de outubro de 2012

Se falo



Se falo
É por aqueles mortos
Que dia a dia
Em mim se ressuscitam.
De medos e reguardos
É a alma que nos guia
A carne aflita.
E de espanto
É o que tecemos:
Teias de espanto
Ao redor da casa
Onde vivemos.
Trituramos cada dia
(Agonizantes amenos)
Constelações e poesia
E um certo jeito de amar
Que a nós, de vôos
E vertigens, não convém.
E quem sabe o que convém
A seres tão exauridos.
Concedemos
Alento, nudez, lirismo
E contudo o que mais somos
São estes sonhos
Adentros indevassáveis
Bosques lilazes
Caminhos levando ao mar
Aves
Aves.


de Hilda Hilst, in "Obra poética reunida"

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Ouvi um dia



Ouvi um dia uma flor cantando e tranquilamente me alegrei; depois me aproximei e, milagre, não era a flor que cantava mas um passarinho sobre a flor.

de Clarice Lispector

sábado, 13 de outubro de 2012

Embriagai-vos



É necessário estar sempre bêbado. Tudo se reduz a isso; eis o único problema. Para não sentirdes o fardo horrível do Tempo, que vos abate e vos faz pender para a terra, é preciso que vos embriagueis sem cessar.  

Mas – de quê ? De vinho, de poesia ou de virtude, como achardes melhor. Contanto que vos embriagueis.  

E, se algumas vezes, sobre os degraus de um palácio, sobre a verde relva de um fosso, na desolada solidão do vosso quarto, despertardes, com a embriaguez já atenuada ou desaparecida, perguntai ao vento, à vaga, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo o que foge, a tudo o que geme, a tudo o que rola, a tudo o que canta, a tudo o que fala, perguntai-lhes que horas são; e o vento, e a vaga, e a estrela, e o pássaro, e o relógio, hão de vos responder:  

- É a hora de embriagar-se! Para não serdes os martirizados escravos do Tempo, embriagai-vos; embriagai-vos sem tréguas! De vinho, de poesia ou de virtude, como achardes melhor.

de Charles Baudelaire
Tradução de Aurélio Buarque de Holanda, 1950.



quarta-feira, 3 de outubro de 2012

domingo, 30 de setembro de 2012

A Leitora



A leitora abre o espaço num sopro subtil.
Lê na violência e no espanto da brancura.
Principia apaixonada, de surpresa em surpresa.
Ilumina e inunda e dissemina de arco em arco.
Ela fala com as pedras do livro, com as sílabas da sombra.

Ela adere à matéria porosa, à madeira do vento.
Desce pelos bosques como uma menina descalça.
Aproxima-se das praias onde o corpo se eleva  em chama de água.
Na imaculada superfície  ou na espessura latejante, despe-se das formas,

branca no ar. É um torvelinho harmonioso,  um pássaro suspenso.
A terra ergue-se inteira  na sede obscura de palavras verticais.
A água move-se até ao seu princípio puro.
O poema é um arbusto que não cessa de tremer.


de António Ramos Rosa, in "Volante Verde"

domingo, 23 de setembro de 2012

Rascunho



A gente é rascunho de pássaro 
Não acabaram de fazer… 

de Manoel de Barros, in "Matéria de poesia" (1974)






* Postagem especialmente dedicada a amiga Tel Mont (http://lectusexlibris.blogspot.com.br/  e  https://www.facebook.com/ALoucaDaBiblioteca) - que está sempre a voar fora das asas nessas bandas vituais! 


quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Simplicidade



Queria, queria  
Ter a singeleza  
Das vidas sem alma  
E a lúcida calma  
Da matéria presa.   

Queria, queria  
Ser igual ao peixe  
Que livre nas águas  
Se mexe;  

Ser igual em som,  
Ser igual em graça  
Ao pássaro leve,  
Que esvoaça...   

Tudo isso eu queria!  
(Ser fraco é ser forte).  
Queria viver  
E depois morrer  
Sem nunca aprender  
A gostar da morte.      


Pedro Homem de Mello, in "Estrela Morta"

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Z




As formas, as sombras, a luz que descobre a noite  
e um pequeno pássaro

e depois longo tempo eu te perdi de vista  

meus braços são dois espaços enormes
os meus olhos são duas garrafas de vento

e depois eu te conheço de novo numa rua isolada  

minhas pernas são duas árvores floridas  
os meus dedos uma plantação de sargaços   

a tua figura era ao que me lembro da cor do jardim.   



de António Maria Lisboa, in "Ossóptico e Outros Poemas"

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

de ferro...


O amor? 
Pássaro que põe ovos de ferro.

de Guimarães Rosa, in Grande sertão: veredas

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Inquérito



Pergunta às árvores da rua  
que notícia têm desse dia  
filtrado em betume da noite;  
se por acaso pressentiram  
nas aragens conversadeiras,  
ágil correio do universo,  
um calar mais informativo  
que toda grave confissão.  

Pergunta aos pássaros, cativos  
do sol e do espaço, que viram  
ou bicaram de mais estranho,  
seja na pele das estradas  
seja entre volumes suspensos  
nas prateleiras do ar, ou mesmo  
sobre a palma da mão de velhos  
profissionais de solidão.   

Pergunta às coisas, impregnadas  
de sono que precede a vida  
e a consuma, sem que a vigília  
intermédia as liberte e faça  
conhecedoras de si mesmas,  
que prisma, que diamante fluido  
concentra mil fogos humanos  
onde era ruga e cinza e não.   

Pergunta aos hortos que segredo  
de clepsidra, areia e carocha  
se foi desenrolando, lento,  
no calado rumo do infante  
a divagar por entre símbolos  
de símbolos outros, primeiros,  
e tão acessíveis aos pobres  
como a breve casca do pão.   

Pergunta ao que, não sendo, resta  
perfilado à porta do tempo,  
aguardando vez de possível;  
pergunta ao vago, sem propósito  
de captar maiores certezas  
além da vaporosa calma  
que uma presença imaginária  
dá aos quartos do coração.   

A ti mesmo, nada perguntes.   


de Carlos Drummond de Andrade, in 'A Vida Passada a Limpo'

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Se um Dia a Juventude Voltasse



se um dia a juventude voltasse
na pele das serpentes atravessaria toda a memória
com a língua em teus cabelos dormiria no sossego
da noite transformada em pássaro de lume cortante
como a navalha de vidro que nos sinaliza a vida

sulcaria com as unhas o medo de te perder... eu
veleiro sem madrugadas nem promessas nem riqueza
apenas um vazio sem dimensão nas algibeiras
porque só aquele que nada possui e tudo partilhou
pode devassar a noite doutros corpos inocentes
sem se ferir no esplendor breve do amor  

depois... mudaria de nome de casa de cidade de rio
de noite visitaria amigos que pouco dormem e têm gatos
mas aconteça o que tem de acontecer
não estou triste não tenho projectos nem ambições
guardo a fera que segrega a insónia e solta os ventos
espalho a saliva das visões pela demorada noite
onde deambula a melancolia lunar do corpo  

mas se a juventude viesse novamente do fundo de mim
com suas raízes de escamas em forma de coração
e me chegasse à boca a sombra do rosto esquecido
pegaria sem hesitações no leme do frágil barco... eu
humilde e cansado piloto
que só de te sonhar me morro de aflição  


de Al Berto, in 'Rumor dos Fogos'

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Sobre o Caminho



Nada   


nem o branco fogo do trigo 
nem as agulhas cravadas na pupila dos pássaros  
te dirão a palavra   


Não interrogues não perguntes  
entre a razão e a turbulência da neve  
não há diferença   


Não colecciones dejectos o teu destino és tu   


Despe-te  
não há outro caminho   


de Eugénio de Andrade, in "Véspera da Água"
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