Muros agudos Iguais à fome de certos pássaros Descendo das alturas. Muros loucos, desabados: Poetas da Utopia e da Quimera. Muro máscara disfarçado de heras. Muros acetinados iguais a frutos. Muros devassos vomitando palavras. Muros taciturnos. Severos. Como os lúcidos pensadores De um sonhado mundo.
Sou uma mulher. Nem menos, nem mais. Vivo a minha vida como ela é fio a fio e fio a minha lã para vesti-la, não para acabar a história de Homero ou o seu Sol e vejo o que vejo tal como é, na sua aparência. e no entanto fixo o olhar uma e outra vez na sua sombra para sentir o pulso da perda, e escrevo um amanhã sobre as folhas de um ontem: não há voz apenas o eco. Gosto da ambiguidade necessária nas palavras daquele que viaja de noite em direcção ao que já se foi da ave sobre as colinas das palavras sobre as açoteias das aldeias. Sou uma mulher, nem menos, nem mais.
Faz-me voar a flor de amendoeira, no mês de Março, da minha varanda, saudosa de um dizer distante: – Toca-me, para que eu leve os meus cavalos à água das nascentes. Choro sem razão aparente, e amo-te a ti como és, sem obrigação sem ser em vão. e dos meus ombros levanta-se o dia sobre ti e quando te abraça desce uma noite sobre ti e eu não sou isto nem aquilo não, não sou Sol nem Lua sou uma mulher, nem menos, nem mais.
Sê tu o Qays da nostalgia se assim queres. É que eu gosto de ser amada como sou não uma imagem colorida no jornal, ou uma ideia entoada no poema entre os cervos... ouço o grito de Laila longínquo a partir do quarto de dormir: – Não me deixes prisioneira de uma rima nas minhas noites das tribos não me deixes com eles como uma história... sou uma mulher, nem menos, nem mais.
Eu sou quem sou, como tu és quem és: moras em mim e eu moro em ti sobre ti para ti amo a claridade necessária no nosso mistério partilhado sou tua quando transbordo da noite mas não sou uma terra não sou uma viagem sou uma mulher, nem menos, nem mais.
Cansa-me o ciclo da Lua mulher adoece a minha guitarra corda a corda sou uma mulher, nada menos nada mais!
Sei que trazia um pássaro
no ombro. De um reino vinha carregado
de sonhos Na mão trazia as marcas
da viagem Ainda giravam em torno
do seu corpo os ventos do mar. No olhar o horizonte carregado
de bruma, No ouvido o pio das gaivotas, Trazia o mar no corpo, As medusas do mar. No peito trazia marcada
em tatuagem a palavra amor. Vinha do mar e trazia
um pássaro no ombro.
Meu doido coração aonde vais, No teu imenso anseio de liberdade? Toma cautela com a realidade; Meu pobre coração olha cais! Deixa-te estar quietinho! Não amais A doce quietação da soledade? Tuas lindas quimeras irreais Não valem o prazer duma saudade! Tu chamas ao meu seio, negra prisão!... Ai, vê lá bem, ó doido coração, Não te deslumbre o brilho do luar! Não estendas tuas asas para o longe... Deixa-te estar quietinho, triste monge, Na paz da tua cela, a soluçar!...
de Florbela Espanca, in "A Mensageira das Violetas"
Amáveis Mas indomáveis O poeta e seu cavalo. Um arcabouço pensado Para limitar-se ao pouso E do vôo, alimentar-se. Sente os espaços mas sabe Até onde irá seu passo. Sente a beleza do salto Mas conhece sua lhaneza: A própria, inerte beleza De saber-se aprisionado E contentar-se de sonhos Maravilhar-se de achados. O poeta - e seu vocábulo. O cavalo - e seu pedaço de terra Mais nas alturas, De brisa, de solidão e hortaliça. Entrelaçadas aspiram Respiram juntos.
E vistos em direção Às cordilheiras do espanto
Quase sempre se confundem. Sonhando reter no flanco Exaltação e delírio, Nas noites de grande lua (Entre ciprestes e lírios) O cavalo me acompanha Às profundezas guardadas Onde flutuam palavras. E lá mergulho e anoiteço. E encontro coisas do medo Mandalas de cor, rosáceas E malmequeres antigos Sobre algum livro encantado De pergaminho, de prata E de pensamentos idos.
- Querer voar, Samsara? Queres trocar o moroso das pernas Pela magia das penas e planar coruscante Acima da demência? Porque te vejo às tardes desejosa De ser uma das aves retardatárias do pomar. Aquela ali talvez, rumo ao poente.
Pois pode ser, lhe disse. Santos e lobos Devem ter tido o meu mesmo pensar. Olhos no céu Orando, uivando aos corvos.
Então aproximou-se rente ao meu pescoço:
- Esquece texto e sabença: as cadeias do gozo. E labaredas do intenso te farão o voo.
Amigo! O campo é o ninho do poeta...
Deus fala, quando a turba está quieta,
Às campinas em flor.
— Noivo — Ele espera que os convivas saiam...
E n’alcova onde as lâmpadas desmaiam
Então murmura — amor —
Vem comigo cismar risonho e grave...
A poesia — é uma luz... e alma — uma ave...
Querem — trevas e ar.
A andorinha, que é a alma — pede o campo
A poesia quer sombra — é o pirilampo...
Pra voar... pra brilhar.
Meu Deus! Quanta beleza nessas trilhas...
Que perfume nas doces maravilhas,
Onde o vento gemeu!...
Que flores d’ouro pelas veigas belas!
... Foi um anjo co’a mão cheia de estrelas
Que na terra as perdeu.
Aqui o éter puro se adelgaça...
Não sobe esta blasfêmia de fumaça
Das cidades para o céu.
E a terra é como um inseto friorento
Dentro da flor azul do firmamento,
Cujo cálice pendeu!...
Qual no fluxo e refluxo, o mar em vagas
Leva a concha dourada... e traz das plagas
Corais em turbilhão,
A mente leva a prece a Deus — por pérolas
E traz, volvendo após das praias cérulas,
— Um brilhante — o perdão!
A alma fica melhor no descampado...
O pensamento indômito, arrojado
Galopa no sertão,
Qual nos estepes o corcel fogoso
Relincha e parte turbulento, estoso,
Solta a crina ao tufão.
Vem! Nós iremos na floresta densa,
Onde na arcada gótica e suspensa
Reza o vento feral.
Enorme sombra cai da enorme rama...
É o Pagode fantástico de Brama
Ou velha catedral.
Irei contigo pelos ermos — lento —
Cismando, ao pôr-do-sol, num pensamento
Do nosso velho Hugo.
— Mestre do mundo! Sol da eternidade!...
Para ter por planeta a humanidade,
Deus num cerro o fixou.
Ao longe, na quebrada da colina,
Enlaça a trepadeira purpurina
O negro mangueiral...
Como no Dante a pálida Francesca,
Mostra o sorriso rubro e a face fresca
Na estrofe sepulcral.
O povo das formosas amarílis
Embala-se nas balsas, como as Wilis
Que o Norte imaginou.
O antro — fala... o ninho s’estremece...
A dríade entre as folhas aparece...
Pã na flauta soprou!...
Mundo estranho e bizarro da quimera,
A fantasia desvairada gera
Um paganismo aqui.
Melhor eu compreendo então Virgílio...
E vendo os Faunos lhe dançar no idílio,
Murmuro crente: — eu vi! —
Quando penetro na floresta triste,
Qual pela ogiva gótica o antiste,
Que procura o Senhor,
Como bebem as aves peregrinas
Nas ânforas de orvalho das boninas,
Eu bebo crença e amor!...
E à tarde, quando o sol — condor sangrento —,
No ocidente se aninha sonolento,
Como a abelha na flor...
E a luz da estrela trêmula se irmana
Co’a fogueira noturna da cabana,
Que acendera o pastor,
A lua — traz um raio para os mares...
A abelha — traz o mel... um treno aos lares
Traz a rola a carpir...
Também deixa o poeta a selva escura
E traz alguma estrofe, que fulgura,
Pra legar ao porvir!...
Vem! Do mundo leremos o problema
Nas folhas da floresta, ou do poema,
Nas trevas ou na luz...
Não vês?... Do céu a cúpula azulada,
Como uma taça sobre nós voltada,
Lança a poesia a flux!...
Muitas vezes te esperei, perdi a conta,
longas manhãs te esperei tremendo
no patamar dos olhos. Que me importa
que batam à porta, façam chegar
jornais, ou cartas, de amizade um pouco
— tanto pó sobre os móveis tua ausência.
Se não és tu, que me pode importar?
Alguém bate, insiste através da madeira,
que me importa que batam à porta,
a solidão é uma espinha
insidiosamente alojada na garganta.
Um pássaro morto no jardim com neve.
Nada me importa; mas tu enfim me importas.
Importa, por exemplo, no sedoso
cabelo poisar estes lábios aflitos.
Por exemplo: destruir o silêncio.
Abrir certas eclusas, chover em certos campos.
Importa saber da importância
que há na simplicidade final do amor.
Comunicar esse amor. Fertilizá-lo.
«Que me importa que batam à porta...»
Sair de trás da própria porta, buscar
no amor a reconciliação com o mundo.
Longas manhãs te esperei, perdi a conta.
Ainda bem que esperei longas manhãs
e lhes perdi a conta, pois é como se
no dia em que eu abrir a porta
do teu amor tudo seja novo,
um homem uma mulher juntos pelas formosas
inexplicáveis circunstâncias da vida.
Que me importa, agora que me importas,
que batam, se não és tu, à porta?
de Fernando Assis Pacheco, in “A Musa Irregular”