sábado, 30 de outubro de 2010

Eles sabem que possuem asas




Sede como os pássaros que, ao pousarem um instante sobre ramos muito leves, sentem-nos ceder, mas cantam! Eles sabem que possuem asas.

de Victor Hugo

sábado, 23 de outubro de 2010

estranha companhia




Aqui - calçada de pássaros -
veem-se coisas que poderiam não pousar

nos olhos.

Sem perturbá-las

caminha-se
na mesma direção

e passada a surpresa de termos nascido

nós
nelas e
elas em nós
vê-se que esta simples comunhão
muda o sentido dos dias.
O ensimesmar-se com o impresvito:

estranha companhia.


de Dora Ferreira da Silva (in Poemas da Estrangeira)

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Ano Novo



Prepara-se o jardim.

Há um movimento do botão à flor

Em câmara lenta.

O rosto pequeno das violetas

Esconde seu perfume nas folhas

Sussurrando segredos

salta o sabiá na aragem

e suplica à rosa de ontem

que não desfolhe seu rubor.


Promete a nova noite

a estrela que quisermos.

O CISNE – constelação que amamos –

cintila noutro céu.

Entre ar e folhagem

o pedido calado alcança

um pássaro estelar.


de Dora Ferreira da Silva (in Poemas da Estrangeira, 1995)

domingo, 3 de outubro de 2010

O Sabiá e a Rosa



Minha vida imprimo-a no vento
das horas ligeiras.

Quando a lua vier
já não terei segredos;
meu vestido será branco e longo
como lágrimas de um violino
que suspira e passa

Nos amores me amei
vendo-me nua de todo humano calor.

O sabiá calou-se.
Ir de branco tendo o coração ferido.


de Dora Ferreira da Silva (in Jardins, 1979)

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Apelo a um pássaro:




Giro em círculos concêntricos.
Concêntricos e inúteis

Empresta-me tuas asas

Um momento.

Quero voar com
simetria.


de Lara de Lemos

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Celas




Ainda se sobressalta

o coração do pássaro
quando ao acaso retorna
da inércia das horas
tecidas de tédio e desdita,
e recebe a réstia de sol,
num abraço

de Lara de Lemos

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Do perecível



Passa o rio, passa a voz
a face e o vento.
A concha é areia.
O peixe, pedra.
O muro, nada.

Passa o pássaro.

O homem é um nome
no túmulo,
um coração vazio
de conjugar futuros.
O amor uma onda
a refluir, um engano
de espera.

O tempo desenha
novas geometrias
para cada estação.
E as flores passam.

E nesse passo de passar
já somos outros e outro
é nosso abraço.


de Lara de Lemos

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Rima torta



aves
.......de ramo
....................em ramo

meu pensamento

............................de rima

.........................................em rima

.......................................................erra


até uma

..............que diz

...........................te amo

de Paulo leminski

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

O ausente




O inverno é que não estejas
senão nos olhos áridos da insônia
ai, que não estejas e o Sol já não aquece
e o mar não dança entre rochedos
e o pássaro é um triste voo
que adormece.

de Dora Ferreira da Silva

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Recado para um beija- flor



Pássaro que pousas de leve
não quero perder teu canto,
teu segredo. Quero-te assim efêmero.
Ainda que nossa vida seja breve
nada digas de tua sorte:
por que, quando e como vou perder-te.
Revela-me só teu levitar no vento
e onde te levará, um dia, a morte.


de Lara de Lemos

sábado, 31 de julho de 2010

Bastar-me-ia um...




“Bastar-me-ia um pássaro,
um só pássaro neste céu de inverno,
para que eu me fizesse alegria”.

de Lara de Lemos

sexta-feira, 23 de julho de 2010

A modo de pássaro precário




Foi sempre a distância mestra severa;

e o refúgio, nas árvores.
O Amor nas frondes,
o abrigo no vento,
lentos remos sulcando espaços: sua água, seu chão.
A modo de pássaro precário
sobreviveu à noite.
Partindo, completou-se.



Dora Ferreira da Silva
in Poesia Reunida
(São Paulo -1918-2006)
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