domingo, 31 de março de 2013

Ser Pássaro



Ah! Ser pássaro! ter toda a amplidão dos ares
para as asas abrir, ruflantes e nervosas,
dos parques através e dos moitais de rosas,
nos floridos jardins, nas hortas e pomares.

Ser pássaro, cantar, subir, voar na altura,
pelos bosques sem fim, perder-se nas florestas,
das folhagens do campo em meio da espessura,
das auroras de abril nas cristalinas festas.

Tecer no tronco seco ou no tronco viçoso
o quente lar do amor, o carinhoso ninho,
de onde sairá mais tarde o pipilar mavioso
de um outro mais gentil e meigo passarinho.

Não temer o verão e não temer o inverno
para tudo alcançar na leve subsistência,
no contínuo lidar, no labutar eterno,
que é talvez da alegria a mais feliz essência.

Viver, enfim, de luz e aromas delicados,
nascido dentre a luz, gerado dentre aromas,
sonorizando o azul, sonorizando os prados
e dormindo da flor sob as cheirosas comas.

Voar, voar, voar, voar eternamente,
extinguir-se a voar, no matinal gorjeio,
é ser pássaro, é ter em cada asa fremente
um sol para aquecer o frio de algum seio.




sábado, 30 de março de 2013

Sabiá Laranjeira




Um ninho de fios de palha
No auto da comeeira
Morada de um sabiá
Um sabiá laranjeira

Em baixo dele uma casa
Meu lar de sapê, meu ninho.
Assoviava as tardes
Em duo com o passarinho

A vizinhança era grande
Amigos de mais eu tinha
O terreiro abarrotado
De amigos que ali vinha

Mas a casa era pequena
E não pôde comportar
O cupidez que chegava.
A minh’alma arrebatar

Pus as roupas numa mala
Para trás nem quis olhar
Peguei a rua de asfalto
Mudei-me para outro lugar

Esta é terra sem amigos
Cada um quer só seu bem
Ninguém aqui é contente
Com as coisas que eles têm.

Tentar ser e ter amigos.
Sei que aqui isso é besteira
Mas queria ter comigo
Meu sabiá laranjeira.

de Osmar Ritz


sábado, 23 de março de 2013

Consideração do poema



Não rimarei a palavra sono
com a incorrespondente palavra outono.
Rimarei com a palavra carne
ou qualquer outra, que todas me convêm.
As palavras não nascem amarradas,
elas saltam, se beijam, se dissolvem,
no céu livre por vezes um desenho,
são puras, largas, autênticas, indevassáveis.

Uma pedra no meio do caminho

ou apenas um rastro, não importa.
Estes poetas são meus. De todo o orgulho,
de toda a precisão se incorporam
ao fatal meu lado esquerdo. Furto a Vinicius
sua mais límpida elegia. Bebo em Murilo.
Que Neruda me dê sua gravata
chamejante. Me perco em Apollinaire. Adeus, Maiakovski.
São todos meus irmãos, não são jornais
nem deslizar de lancha entre camélias:
é toda a minha vida que joguei.

Estes poemas são meus. É minha terra

e é ainda mais do que ela. É qualquer homem
ao meio-dia em qualquer praça. É a lanterna
em qualquer estalagem, se ainda as há.
– Há mortos? há mercados? há doenças?
É tudo meu. Ser explosivo, sem fronteiras,
por que falsa mesquinhez me rasgaria?
Que se depositem os beijos na face branca, nas principiantes rugas.
O beijo ainda é um sinal, perdido embora,
da ausência de comércio,
boiando em tempos sujos.

Poeta do finito e da matéria,

cantor sem piedade, sim, sem frágeis lágrimas,
boca tão seca, mas ardor tão casto.
Dar tudo pela presença dos longínquos,
sentir que há ecos, poucos, mas cristal,
não rocha apenas, peixes circulando
sob o navio que leva esta mensagem,
e aves de bico longo conferindo
sua derrota, e dois ou três faróis,

últimos! esperança do mar negro.
Essa viagem é mortal, e começa-la.
Saber que há tudo. E mover-se em meio
a milhões e milhões de formas raras,
secretas, duras. Eis aí meu canto.

Ele é tão baixo que sequer o escuta

ouvido rente ao chão. Mas é tão alto
que as pedras o absorvem. Está na mesa
aberta em livros, cartas e remédios.
Na parede infiltrou-se. O bonde, a rua,
o uniforme de colégio se transformam,
são ondas de carinho te envolvendo.

Como fugir ao mínimo objeto

ou recusar-se ao grande? Os temas passam,
eu sei que passarão, mas tu resistes,
e cresces como fogo, como casa,
como orvalho entre dedos,
na grama, que repousam.

Já agora te sigo a toda parte,

e te desejo e te perco, estou completo,
me destino, me faço tão sublime,
tão natural e cheio de segredos,
tão firme, tão fiel… Tal uma lâmina,
o povo, meu poema, te atravessa.


de Carlos Drummond de Andrade


quarta-feira, 13 de março de 2013

Cidadania



Buquê de ruídos úteis
o dia. O tom mais púrpura
do avião sobressai
locomovida rosa pública.

Entre os edifícios a acácia
de antigamente ainda ousa
trazer ao cimo a folhagem
sua dor de apertada coisa.

Um solo de saxofone excresce
mensagem que a morte adia
aflito pássaro que enrouquece
a garganta da telefonia.

Em cada bolso do cimento
uma lenta aranha de gás
manipula o dividendo
de um suicídio lilás.


Natália Correia, in "O Vinho e a Lira"


domingo, 3 de março de 2013

Poema da Ansiedade





Quando eu não pensava em Ti,
os meus pés corriam ligeiros pela relva,
e os meus olhos erravam,
distraídos e felizes,
pela paisagem toda...
quando eu não pensava em Ti,
as minhas noites eram
como o sono do céu, cheio de luar...
Quando eu não pensava em Ti...
a minha alma era simples e quieta...
A minha alma era uma ave mansa,
de olhos fechados,
na alta imobilidade de um ramo,
quando eu não pensava em Ti...
E agora,
ó Eleito,
o meu passo demora,
esperando pelos meus olhos,
que procuram a tua sombra...
As minhas noites são longas, morosas,
tão tristes,
porque o meu pensamento
põe-se a buscar-te,
e eu, sem ele, fico mais só...
Perderam-se os meus olhos
entre as estrelas,
entre as estrelas se perderam
as minhas mãos,
nesta ansiedade de te alcançarem...
Eleito, ó Eleito,
por que foi que eu fiquei assim?
Por que,
desde o chão do meu corpo
até o céu da minha alma,
sou uma fumaça de perfume
subindo em teu louvor?



.......................................................


Quando eu não pensava em Ti,
os meus olhos erravam,
distraídos e felizes,
pela paisagem toda...


de Cecília Meireles

sábado, 23 de fevereiro de 2013

Espera



Horas, horas sem fim,
pesadas, fundas,
esperarei por ti
até que todas as coisas sejam mudas.

Até que uma pedra irrompa
e floresça.
Até que um pássaro me saia da garganta
e no silêncio desapareça.

de Eugênio de Andrade


* Para a amiga Tel Mont.


quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Sombra No Muro



Persigo um pássaro
e alcanço, apenas,
no muro,
a sombra de um vôo.


de Helena Kolody

domingo, 3 de fevereiro de 2013

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Elegia I




Mas para que serve o pássaro?
Nós o contemplamos inerte.
Nós o tocamos no mágico fulgor das penas.
De que serve o pássaro se
desnaturado o possuímos?

O que era voo e eis
que é concreção letal e cor
paralisada, íris silente, nítido,
o que era infinito e eis
que é peso e forma, verbo fixado, lúdico

O que era pássaro e é
o objeto: jogo
de uma inocência que
o contempla e revive
— criança que tateia
no pássaro um
esquema de distâncias —

mas para que serve o pássaro?

O pássaro não serve.
Arrítmicas
brandas asas repousam.


de Orides Fontela


quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Sede pássaros



Ó amantes, abandonai as tolas ilusões.

Enlouquecei, perdei de vez a cabeça. 

Erguei-vos do fogo ardente da vida 

 – tornai-vos pássaros, sede pássaros

                                             
            
  de Jalal ad-Din Muhammad Rumi



domingo, 13 de janeiro de 2013

Transpenumbra




tempestade 
que passasse
      deixando intactas as pétalas
você passou por mim
          as tuas asas abertas
               passou
mas sinto ainda uma dor
no ponto exato do corpo
 onde tua sombra tocou
  que raio de dor é essa
    que quanto mais dói
           mais sai sol?

de Paulo Leminski


quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

MEMÓRIA



"Quando a memória transformada em ave
Pousar sobre o meu peito a sua leveza."

1


E o tempo tomou forma. Assim me soube
Envolta em grande mar até a cintura.
E nada a não ser água e seu rumor
Aos ouvidos chegava. E soube ainda
Que um só gesto e sopro acrescentava
Essa vastíssima matéria. E atenta
Em consideração a mim, cobri-me de recuos.
Eu, que de docilidades me fizera.

Antes avara desse tempo que resta.
Se em muitos me perdi, uma que sou
É argamassa e pedra. Guardo-te a ti.
Em consideração a mim. Redescoberta.


de Hilda Hilst



domingo, 30 de dezembro de 2012

Olha, Tomé, o teu pássaro foi-se embora!



Vem aqui, Tomé,
vem comigo até a borda da água,
vem ver-me fazer uns pássaros
com esta lama que colho...

Repara como é tão fácil,
formo e modelo o corpo
e as asas;
afeiçôo a forma da cabeça
e do bico; engasto estas pedrinhas
que são os olhos;
ajeito as penas compridas
da cauda;
equilibro-lhes as pernas e os dedos
e tendo feito
este, faço mais onze;
aqui os tens, um dois, três
quatro, cinco, seis, sete, oito,
nove, dez, onze, doze pássaros
de lama...
Imagina, até, se quiseres,
dar-lhes nomes: este é Simão,
este é Tiago, este é André, este é João, e este,
se não te importas, chamar-se-á
Tomé.

Quanto aos outros vamos esperar
que os nomes apareçam;
os nomes, muitas vezes, atrasam-se
no caminho, chegam
mais tarde...

E agora vê como faço — lanço esta rede
por cima das avezinhas
para que elas não possam fugir, os pássaros..., se
não temos cuidado.

Queres dizer-me que se esta rede
for levantada os pássaros fogem?
Esta é a prova com que querias
convencer-me?

Sim e não!

Como, sim e não?

A melhor prova, mas essa
não é de mim que depende, seria
não levantares tu a rede e acreditares
que os pássaros fugiriam se a levantasses.

São de barro, não podem fugir.

Experimenta! Também Adão,
nosso primeiro pai, foi de barro e tu
descendes dele.

A Adão deu-lhe vida Deus!

Não duvides mais, Tomé! Levanta a rede, eu sou
o Filho de Deus.

Assim o quiseste, assim o terás,
estes pássaros não voarão!

Com um movimento
rápido, Tomé levantou
a rede, e os pássaros,
livres, levantaram vôo, chilreando,
duas voltas
sobre a multidão maravilhada
e desapareceram no espaço.

Disse Jesus:
Olha, Tomé, o teu pássaro
foi-se embora.

E Tomé respondeu:
Não. Senhor, está aqui ajoelhado a teus pés,
sou eu.





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