sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Pássaro sem asa

Rural Idyll - M. Chagall


Haverá sempre o medo
e o escondido pranto
no meu canto de amor.
Dos homens e da morte
mais noite que auroras
em verso e pensamento
concebi. Nas crianças
amei os olhos e o riso
o clamor sem ouvido
o medo, o medo, o medo.
Se a fantasia
aproximar de mim
a tua presença,
fica. A teu lado,
serei amante sem desejo:
Pássaro sem asa.
Submerso leito.


de Hilda Hilst in Balada do Festival

Samira Kadiri & Ensemble Arabesque - Alta Es La Luna



quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Pássaros e leões nos habitam

 The Lion and the Dove - M. Chagall

Quantos seres sou eu para buscar sempre do outro ser que me habita as realidades das contradições? Quantas alegrias e dores meu corpo se abrindo como uma gigantesca couve-flor ofereceu ao outro ser que está secreto dentro de meu eu? Dentro de minha barriga mora um pássaro, dentro do meu peito, um leão. Este passeia pra lá e pra cá incessantemente. A ave grasna, esperneia e é sacrificada. O ovo continua a envolvê-la, como mortalha, mas já é o começo do outro pássaro que nasce imediatamente após a morte. Nem chega a haver intervalo. É o festim da vida e da morte entrelaçadas.

de Lygia Clark in Lygia Clark e o híbrido arte/clínica, de Sueli Rolnik, 1996.

Quinteto Armorial - Revoada


segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Um pássaro como eu!

Deux Visages a L'oiseau - M. Chagall


Como eu consegui chegar aqui? Por onde estive a trilhar?
Mostra-me o caminho, eu quero retornar -
agora parece-me que minhas esquisitices estão a se acumular!

Um momento de distância -
da morada do bem amado -
na crença do amor, não é autorizado!

Eu pensei que fosse fácil a fresta atravessar,
ai de mim, em todo passo há milhares de armadilhas a desocultar!

O que esperas de um pássaro como eu -  
por que não vês onde a Fênix se deteu?

Oh, não vem deste caminho o coração aventuroso  -
pousa e fica! Encontra um lugar ditoso!

Atenta para os voos que têm adoçado a tua existência -
Pede vinho em abundância e excelência!

O resto é apenas jogo de cores e emanação.
O resto é combate por reputação e satisfação.

Desacelera e senta-te, silencioso e enlevado,

Se estás bêbedo, não vagues em cima do telhado!


de Jalal ad-Din Muhammad Rumi 

Tradução livre por Bluuu - a partir de "A Passerine Like Me" por Maryam Dilmaghani.


Farid Farjad - Persian



sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Oh, pássaro!

So I came down from the tree... - M. Chagall


Oh, pássaro!
 Oh, pássaro! Tu que voas pelos confins do mundo...
Se pudesses levar noticias minhas ao meu bem amado...

Oh, pássaro!
Perguntarias por mim para aquele que está solit
ário
entre seus companheiros,

sofrendo as angústias do amor irremediável.
Ele est
á alhures e não me conta suas aflições...
Enquanto em sua mente, os lamentos se repetem 
como nas noites de infância...
 

Oh, pássaro! 
Que levas contigo as cores das árvores...
Não há mais nada (para mim), apenas a espera e o enfado...
Eu espero sob o sol, sentada na fria pedra.
A mão da separação me guia...

Oh, pássaro!
Em nome de tua bela plumagem e de meus dias,
em nome das flores de cardo,
em nome do espírito do vento!
Se fores até ele, ao para
íso do amor...
Leva-me, 
mesmo que seja apenas por alguns momentos
e traz-me de volta!


Música de Assi & Mansour Rahbani - Ya Tayr 
- interpretada por Fairuz no filme "O Exílio" (Safar Barlek, 1966). 
Tradução livre, imprecisa e muito louca -
a partir de All The Lyrics e de Oasis des Artistes.


Fairuz - Ya Tayr


  

*** Especialmente dedicada a Babi!
 

terça-feira, 30 de setembro de 2014

Pássaro no Alçapão

https://www.flickr.com/photos/imarques/138621907



Um homem pegou um pássaro no alçapão. O pássaro disse: 

 “Meu senhor, comeste muitas vacas e carneiros em tua vida e ainda estás faminto. A pequenina porção de carne sobre os meus ossos tampouco te satisfará. Se me deixares ir, eu te darei três lições de sabedoria. A primeira, eu te direi pousado na palma da tua mão. A segunda, do teto da tua casa. E a terceira, do ramo daquela árvore”.

O homem ficou interessado. Soltou o pássaro e deixou-o pousar na palma da sua mão.

“A primeira lição é: Não acredites em disparates; pouco importa quem os diga”.

O pássaro voou até o telhado.

“A Segunda lição é: Não lamentes o que passou; está acabado. Nunca te arrependas do que aconteceu “.

“A propósito”, continuou o pássaro, “no meu corpo há uma imensa pérola que pesa tanto quanto dez moedas de cobre. Ela deveria ser uma herança para ti e teus filhos, mas agora tu a perdeste. Poderias ter possuído a maior pérola que existe no mundo, mas, é claro, não era assim que estava escrito”.

O homem começou a se lastimar como uma mulher em trabalho de parto, e o pássaro disse: 

“Afinal, não acabei de ensinar: ‘Não lamentes o que passou’ e também ‘não acredites em disparates’? Ora, meu corpo não pesa tanto quanto dez moedas de cobre. Como poderia eu Ter uma pérola tão pesada dentro de mim?”.

O homem recuperou a razão. “Está certo, pássaro. Ensina-me a terceira lição”.

“Sim, já que fizeste tão bom uso das duas primeiras... A terceira é: Não dês conselhos a quem está cambaleante e caindo de sono, nem lances sementes na areia”.


de Jalal ad-Din Muhammad Rumi


terça-feira, 23 de setembro de 2014

Primavera

http://virtude-ag.com/jd-arvore-guiana-francesa-mau/


A primavera chegará, mesmo que ninguém mais saiba seu nome, nem acredite no calendário, nem possua jardim para recebê-la. A inclinação do sol vai marcando outras sombras; e os habitantes da mata, essas criaturas naturais que ainda circulam pelo ar e pelo chão, começam a preparar sua vida para a primavera que chega.

Finos clarins que não ouvimos devem soar por dentro da terra, nesse mundo confidencial das raízes, — e arautos sutis acordarão as cores e os perfumes e a alegria de nascer, no espírito das flores.

Há bosques de rododendros que eram verdes e já estão todos cor-de-rosa, como os palácios de Jeipur. Vozes novas de passarinhos começam a ensaiar as árias tradicionais de sua nação. Pequenas borboletas brancas e amarelas apressam-se pelos ares, — e certamente conversam: mas tão baixinho que não se entende.

Oh! Primaveras distantes, depois do branco e deserto inverno, quando as amendoeiras inauguram suas flores, alegremente, e todos os olhos procuram pelo céu o primeiro raio de sol.

Esta é uma primavera diferente, com as matas intactas, as árvores cobertas de folhas, — e só os poetas, entre os humanos, sabem que uma Deusa chega, coroada de flores, com vestidos bordados de flores, com os braços carregados de flores, e vem dançar neste mundo cálido, de incessante luz.

Mas é certo que a primavera chega. É certo que a vida não se esquece, e a terra maternalmente se enfeita para as festas da sua perpetuação.

Algum dia, talvez, nada mais vai ser assim. Algum dia, talvez, os homens terão a primavera que desejarem, no momento que quiserem, independentes deste ritmo, desta ordem, deste movimento do céu. E os pássaros serão outros, com outros cantos e outros hábitos, — e os ouvidos que por acaso os ouvirem não terão nada mais com tudo aquilo que, outrora se entendeu e amou.

Enquanto há primavera, esta primavera natural, prestemos atenção ao sussurro dos passarinhos novos, que dão beijinhos para o ar azul. Escutemos estas vozes que andam nas árvores, caminhemos por estas estradas que ainda conservam seus sentimentos antigos: lentamente estão sendo tecidos os manacás roxos e brancos; e a eufórbia se vai tornando pulquérrima, em cada coroa vermelha que desdobra. Os casulos brancos das gardênias ainda estão sendo enrolados em redor do perfume. E flores agrestes acordam com suas roupas de chita multicor.

Tudo isto para brilhar um instante, apenas, para ser lançado ao vento, — por fidelidade à obscura semente, ao que vem, na rotação da eternidade. Saudemos a primavera, dona da vida — e efêmera.


de Cecília Meireles (in "Cecília Meireles - Obra em Prosa - Volume 1", Editora Nova Fronteira - Rio de Janeiro, 1998, pág. 366.) 

*** Especialmente para a amiga Lilia. Estamos sempre a espera de uma outra estação.

sábado, 13 de setembro de 2014

Do Medo

https://www.flickr.com/photos/lu_huffel/8641203720


1

Não pode o poema  circunscrever o medo,
dar-lhe o rosto glorioso  de uma fábula
ou crer intensamente na sua aura.
Nós permanecemos, quando
escurece à nossa volta o frio  do esquecimento
e dura o vento e uma nuvem leve
a separar-se das brumas  nos começa a noite.

Não pode o poema  quase nada.
A alguns inspira  uma discreta repugnância.
Outras vezes inclinamo-nos, reverentes, ante os epitáfios
ou demoramo-nos a escutar as grandes chuvas  sobre a terra.
Quem reconhece a poesia, esse frio
intermitente, essa  persistência através da corrupção?
Quase sempre a angústia  instaura a luz por dentro das palavras
e lhes rouba os sentidos.
Quase sempre é o medo  que nos conduz à poesia.

2

Voltando ao medo: as asas  prendem mais do que libertam;
os pássaros percorrem necessariamente
os mesmos caminhos no espaço,
sem possibilidades de variação
que não estejam certas com esse mesmo voo
que sempre descrevem.

Voltando ao medo: o poema
desenha uma elipse em redor da tua voz
e cerca-se de angústia
e ervas bravias — nada mais  pode fazer.


de Luis Filipe Castro Mendes, in "A Ilha dos Mortos"

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Se os Poetas Dessem as Mãos

https://www.flickr.com/photos/titaumbr/3692164546


Se os Poetas dessem as mãos
e fechassem o Mundo
no grande abraço da Poesia,
cairiam as grades das prisões
que nos tolhem os passos,
os arames farpados
que nos rasgam os sonhos,
os muros de silêncio,
as muralhas da cólera e do ódio,
as barreiras do medo,
e o Dia, como um pássaro liberto,
desdobraria enfim as asas
sobre a Noite dos homens.

Se os Poetas dessem as mãos
e fechassem o Mundo
no grande abraço da Poesia.



Fernanda de Castro, in "Ronda das Horas Lentas"

quarta-feira, 30 de julho de 2014

O Saque



O pássaro em chamas,

Cavalos, mulheres, ruas

São dilacerados como pão

Diante dos olhos de Timur


de Adunis
(Ali Ahmad Said Esber)

quarta-feira, 23 de julho de 2014

A terra nos é estreita



A terra nos é estreita. Ela nos encurrala no último desfiladeiro
E nós nos despimos dos membros
Para passar.
A terra nos espreme. Fôssemos nós o seu trigo para morrer e ressuscitar.
Fosse ela a nossa mãe para se compadecer de nós.
Fôssemos nós as imagens dos rochedos
que o nosso sonho levará como espelhos.
Vimos o rosto de quem, na derradeira defesa da alma,
o último de nós matará.
Choramos pela festa dos seus filhos e vimos o rosto
Dos que despenham nossos filhos pela janela deste último espaço.
Espelhos que a nossa estrela polirá.
Para onde irmos após a última fronteira?
Para onde voarão os pássaros após o último céu?
Onde dormirão as plantas após o último vento?
Escreveremos nossos nomes com vapor
carmim, cortaremos a mão do canto para que nossa carne o complete.
Aqui morreremos. No último desfiladeiro.
Aqui ou aqui... plantará oliveiras
Nosso sangue.


de Mahmoud Darwish in "A terra nos é estreita e outros poemas".



http://www.palestineposterproject.org/poster/the-earth-is-closing-on-us-english

E liberdade para tantos outros tratados tao levianamente por nossa mídia golpista:

Pesquisa aponta que número de guerras triplicou


domingo, 13 de julho de 2014

Cores

https://www.flickr.com/photos/davidascanio/10850674314


Enquanto a gente é criança
Tem no seio um doce ninho
Onde vive um passarinho
Formoso como a Esperança.

E ele canta noite e dia
Porque se chama: Alegria.
Depois... vai-se a Primavera...
É o tempo em que a gente cresce...
O riso se muda em prece,
A alma não canta: espera!
E ao ninho do Coração
Desce outra ave: a Ilusão.
Mas esta, como a Alegria,
Nos foge... E fica deserto
O coração, na agonia
Do inverno que já vem perto.
Nas ruínas da Mocidade
É quando pousa a saudade...


de Auta de Souza, in "Horto", 1900. 

Visite o blog e saiba mais sobre a autora: Templo Cultural Delfos 


Belle And Sebastian - The Boy With The Arab Strap
 "Colour my life with the chaos of trouble"

quinta-feira, 3 de julho de 2014

Manhã de Inverno

https://www.flickr.com/photos/krazykrayons/7668307274


Coroada de névoas, surge a aurora
Por detrás das montanhas do oriente;
Vê-se um resto de sono e de preguiça,
Nos olhos da fantástica indolente. 

Névoas enchem de um lado e de outro os morros
Tristes como sinceras sepulturas,
Essas que têm por simples ornamento
Puras capelas, lágrimas mais puras. 

A custo rompe o sol; a custo invade
O espaço todo branco; e a luz brilhante
Fulge através do espesso nevoeiro,
Como através de um véu fulge o diamante. 

Vento frio, mas brando, agita as folhas
Das laranjeiras úmidas da chuva;
Erma de flores, curva a planta o colo,
E o chão recebe o pranto da viúva. 

Gelo não cobre o dorso das montanhas,
Nem enche as folhas trêmulas a neve;
Galhardo moço, o inverno deste clima
Na verde palma a sua história escreve. 

Pouco a pouco, dissipam-se no espaço
As névoas da manhã; já pelos montes
Vão subindo as que encheram todo o vale;
Já se vão descobrindo os horizontes. 

Sobe de todo o pano; eis aparece
Da natureza o esplêndido cenário;
Tudo ali preparou co’os sábios olhos
A suprema ciência do empresário. 

Canta a orquestra dos pássaros no mato
A sinfonia alpestre, — a voz serena
Acordo os ecos tímidos do vale;
E a divina comédia invade a cena.


de Machado de Assis, in 'Falenas'

segunda-feira, 30 de junho de 2014

Asas Partidas


        Aqueles a quem o amor não dotou com asas 
não podem voar para além das nuvens (...). 
(...) Apiedai-vos, ò Deus, e dai força a todas as asas partidas. 

de Khalil Gibran in Asas Partidas

Fairuz - Sallimleh Alayh



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